Os mercados de petróleo permaneceram relativamente calmos desde a deposição do presidente Nicolás Maduro, da Venezuela, no sábado (3), refletindo o quanto a influência do país como ator global do setor energético diminuiu nos últimos anos.
Apesar de abrigar o que são consideradas as maiores reservas inexploradas de petróleo do mundo, a Venezuela tem pouco peso por causa de uma combinação de turbulência política interna, instabilidade econômica e sanções severas impostas pelos Estados Unidos.
No longo prazo, porém, e sob as circunstâncias corretas, a Venezuela poderia atrair investimentos e voltar a se afirmar como uma força relevante nos mercados de petróleo.
Como o país é capaz de produzir grandes volumes do chamado petróleo extrapesado, mesmo uma retomada modesta da indústria venezuelana teria potencial para sacudir os mercados de petróleo nos Estados Unidos e em outros lugares, dizem analistas, inclusive por meio da redução dos preços da gasolina.
“Isso poderia fazer diferença”, afirmou Debnil Chowdhury, chefe de refino e marketing para as Américas e a Europa da S&P Global Energy, empresa de pesquisa do setor.
O MUNDO PRECISA DE MAIS PETRÓLEO?
Por ora, os mercados estão dizendo “não”.
A produção venezuelana de petróleo, estimada em 820 mil barris por dia em novembro, pode cair ainda mais no curto prazo por causa de um bloqueio naval dos Estados Unidos, mas os preços permanecem em torno de US$ 61 por barril para o Brent, referência internacional.
Na verdade, muitos analistas acreditam que deve haver petróleo em excesso no início do ano, independentemente do que aconteça na Venezuela. Caso mais petróleo chegue ao mercado, os preços poderiam cair para cerca de US$ 50 o barril, segundo analistas. Nesse patamar, os lucros da indústria ficam apertados e muitas empresas de petróleo se mostram menos dispostas a perfurar novos poços.
Se o governo Trump decidir aliviar a pressão sobre a Venezuela, as exportações poderiam se recuperar e atrair mais investimentos.
Analistas de energia da consultoria Wood Mackenzie afirmaram que, nas circunstâncias corretas, a produção venezuelana poderia aumentar em até 300 mil barris por dia nos próximos meses. Alcançar 2 milhões de barris diários —nível atingido pela última vez há quase uma década, quando a Venezuela respondia por cerca de 3% da produção global de petróleo— é “outra questão completamente diferente para uma indústria já devastada” pelas sanções dos EUA, escreveram os analistas.
Ainda assim, Chowdhury disse que mesmo um aumento de 250 mil a 500 mil barris por dia poderia ter impacto, devido às características do petróleo venezuelano.
QUE TIPO DE PETRÓLEO A VENEZUELA PRODUZ?
Grande parte do petróleo venezuelano é pesado, o que significa que ele é mais denso e viscoso do que o petróleo mais leve produzido por atividades como a extração de xisto. Equipamentos especiais são necessários para processar esse tipo de petróleo, disse Chowdhury. Ele também precisa ser diluído com um derivado mais leve para ser transportado, o que eleva os custos.
Chowdhury afirmou que, entre 1990 e 2010, antes do boom do petróleo de xisto nos Estados Unidos e da deterioração das relações entre Washington e Caracas, refinarias investiram cerca de US$ 100 bilhões em equipamentos e adaptações para lidar com petróleo pesado, partindo do pressuposto de que a Venezuela seria um fornecedor-chave por décadas.
Em vez disso, os fluxos venezuelanos despencaram, e as refinarias passaram a buscar autorizações de Washington para importar o que fosse possível. Elas também compraram substâncias pesadas, como óleo combustível, para misturar ao petróleo leve disponível, criando um substituto longe do ideal.
COMO AS REFINARIAS DOS EUA SE BENEFICIARIAM DE MAIS PETRÓLEO VENEZUELANO?
Refinarias equipadas para processar petróleo pesado venezuelano provavelmente prosperariam, disse Chowdhury. O petróleo venezuelano tenderia a fluir para os Estados Unidos, supondo que Washington suspenda suas restrições.
Segundo Chowdhury, refinarias americanas poderiam repassar descontos de até 30% em relação aos valores que, segundo a S&P Global Energy, refinadores de países como China, Malásia e Índia têm pago pelo petróleo venezuelano.
Essas refinarias dos EUA, concentradas na Costa do Golfo, também conseguiriam extrair mais gasolina e diesel do petróleo, aumentando a oferta e pressionando os preços para baixo.
“Você poderia ter preços mais baixos ali mesmo, na bomba”, disse Chowdhury.





