quinta-feira, janeiro 8, 2026

Planejar não é apostar no cenário econômico – 07/01/2026 – De Grão em Grão

Poucas coisas influenciam tanto o humor dos mercados quanto a política, e poucas geram tanta ansiedade quanto a possibilidade de mudanças bruscas no ambiente econômico. Prioridades mudam, discursos se alteram e a sensação recorrente é a de que qualquer plano de longo prazo pode se tornar obsoleto de uma hora para outra.

Foi exatamente essa a dúvida levantada por um leitor nos comentários do último artigo: como planejar financeiramente em um país sujeito a mudanças políticas e econômicas frequentes? Como estabelecer metas de longo prazo se, a cada quatro anos, o cenário macroeconômico pode mudar de forma relevante?

A pergunta é legítima, mas parte de uma confusão comum. Planejamento financeiro costuma ser interpretado como uma aposta no cenário econômico correto. Como se fosse necessário prever ciclos, juros, crescimento e crises para então decidir o que fazer. Quando essa previsão parece impossível, muitos concluem que planejar não faz sentido.

O problema é que planejamento financeiro não é exercício de futurologia. Ele não exige acertar o próximo ciclo econômico, mas definir parâmetros que sobrevivam a vários ciclos. A vida financeira de uma pessoa não se resolve em mandatos nem em janelas curtas de mercado. Aposentadoria, moradia e sucessão atravessam décadas, não conjunturas.

Por isso, um planejamento bem feito não pode se apoiar na taxa do momento nem no cenário atual como se fossem permanentes. Usar o ambiente econômico vigente como base definitiva é uma das formas mais comuns de fragilizar um plano. Quando as condições mudam, o planejamento desmorona junto.

Uma abordagem mais sólida é trabalhar com metas de retorno real, acima da inflação, construídas a partir de janelas longas de tempo. Olhar para o que foi possível obter, em média, ao longo dos últimos 15 ou 20 anos, período que inclui ciclos favoráveis e desfavoráveis, crises, recuperações e diferentes orientações de política econômica.

Essa referência não elimina riscos, mas reduz ilusões. Ela reconhece que o ambiente econômico muda, que períodos excepcionais não se repetem indefinidamente e que planejar com base em extremos costuma gerar frustração. Planejar com base em médias longas é menos empolgante, mas muito mais robusto.

O mesmo raciocínio vale para expectativas. Planejamentos frágeis dependem de cenários perfeitos. Exigem juros altos constantes, crescimento contínuo ou condições ideais para funcionar. Planejamentos robustos aceitam a imperfeição do mundo e buscam resultados satisfatórios mesmo quando o cenário decepciona.

Isso não significa ignorar o ambiente econômico. Significa tratá-lo como variável, não como pilar. O cenário influencia decisões táticas, ajustes de rota, revisões periódicas. Ele não deveria ser o alicerce do plano, mas o vento que se administra ao longo do caminho.

No fundo, planejar financeiramente é aceitar a incerteza como parte do processo. Não é esperar que o futuro fique claro para agir, mas agir de forma que o plano continue fazendo sentido mesmo quando o futuro surpreende. Governos mudam, ciclos econômicos se alternam, mas bons planejamentos permanecem justamente porque não dependem de acertar o cenário da vez.

A pergunta que realmente importa não é se o próximo ambiente econômico será favorável ou não. É se o seu planejamento foi desenhado para funcionar apenas em um cenário específico ou se ele consegue atravessar diferentes contextos sem perder coerência. Se o plano só funciona quando tudo dá certo, talvez ele não seja um plano, mas apenas uma aposta disfarçada.

Michael Viriato é assessor de investimentos e sócio fundador da Casa do Investidor.

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