quinta-feira, janeiro 8, 2026

Crescimento geral de exportações compensou dificuldade com EUA, diz secretária – 07/01/2026 – Economia

Sob o peso das tarifas aplicadas pelos Estados Unidos e de incertezas no cenário global, a secretária de Comércio Exterior do Mdic (Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços), Tatiana Prazeres, diz que resiliência é a palavra que simboliza 2025.

Apesar das dificuldades, que contribuíram para queda de 7,9% no superávit comercial no ano, ela ressalta em entrevista à Folha que o Brasil registrou o terceiro maior saldo da história e que o crescimento das exportações a outros países mais do que compensou a retração de vendas de produtos brasileiros aos americanos.

Para 2026, promete empenho do governo brasileiro para eliminação de tarifas classificadas por ela como discriminatórias e prevê expansão das relações comerciais do Brasil.

“O piso da nossa previsão [US$ 70 bilhões] é superior ao realizado em saldo em 2025 [US$ 68,3 bilhões]. Então, nós esperamos um aumento do superávit comercial do Brasil”, afirma.

Qual é a sua avaliação do resultado da balança comercial brasileira em 2025?
Foi um ano extraordinário para o nosso comércio exterior, não só pelos resultados, mas também pelas circunstâncias desafiadoras. Resiliência é a palavra que marca o comércio exterior do Brasil em 2025. As empresas se adaptaram a um ambiente de mais incerteza, de tensões geopolíticas, tiveram de lidar com o tarifaço. O governo precisou lidar com essas circunstâncias externas desafiadoras.

É o terceiro maior saldo da história. Apesar da queda em relação a anos anteriores [2023 e 2024], nós estamos com um patamar elevado para saldos comerciais. O que nos chama a atenção, além do crescimento robusto das exportações, é a corrente de comércio recorde. Maior fluxo de importação, de exportação, maior integração com o mundo. O Brasil nunca exportou tanto para Canadá, Índia, Turquia, Paraguai, Uruguai, Suíça, Noruega…

Para 2026, a Secretaria de Comércio Exterior projeta saldo entre US$ 70 bilhões e US$ 90 bilhões. Quais fatores podem levar o resultado ao piso ou ao teto?
O piso da nossa previsão é superior ao realizado em saldo em 2025 [US$ 68,3 bilhões]. Então, nós esperamos um aumento do superávit comercial do Brasil. A nossa expectativa é que haja um aumento na produção de itens importantes na nossa pauta exportadora, como petróleo, produtos agrícolas, mas há grandes interrogações, sobretudo relacionadas a preços de commodities no mercado internacional. Nós trabalhamos com cenário de crescimento da economia mundial por volta de 3%, um crescimento moderado, mas que, ainda assim, permite sustentar uma expansão das nossas exportações.

Petróleo foi o principal produto exportado pelo Brasil em 2025. Como a crise da Venezuela pode afetar os preços dessa commodity?
A Venezuela tem as maiores reservas de petróleo do mundo, mas tem menos de 1% da oferta global do produto. Um aumento significativo da oferta requererá investimentos e isso levará tempo, além de estabilidade política. A gente precisa aguardar a evolução dos acontecimentos para ter mais clareza dos impactos do preço do petróleo.

Sob o ponto de vista do comércio exterior brasileiro, a Venezuela hoje responde só por 0,24% das exportações do Brasil e por 0,12% das importações. Esse comércio foi muito mais importante [no passado]. Em 2008, o Brasil exportou para a Venezuela mais de US$ 5 bilhões, hoje exporta menos de US$ 1 bilhão. O crescimento da economia venezuelana e a estabilidade política favorecerão a intensificação dos fluxos de comércio.

Houve um aumento no déficit comercial com os EUA. Qual é a tendência para 2026? O Brasil vê espaço para novas isenções?
O ano fechou com retração das nossas vendas aos Estados Unidos de 6,6%, mas é interessante notar que, no mês de outubro, essa retração foi superior a 30%, ao passo que, em dezembro, depois de algumas exclusões, a retração foi de cerca de 7%. As exportações do Brasil para os Estados Unidos acompanham o movimento de normalização, ainda em curso, do nosso comércio bilateral. O nosso empenho é para que sejam eliminadas as tarifas discriminatórias contra o Brasil.

A queda das exportações do Brasil para os EUA em parte se deve ao tarifaço, em parte é relacionada a produtos não alcançados pelo tarifaço, como petróleo. As exportações do Brasil para os Estados Unidos tiveram retração em valor de US$ 2,7 bilhões em comparação com o ano anterior. As exportações do Brasil para o mundo cresceram US$ 11,7 bilhões em relação ao ano anterior. Então, o crescimento para o resto do mundo mais do que compensou essas dificuldades que nós tivemos com os EUA.

Estamos atentos e em diálogo com o governo americano porque ainda incide sobre uma parcela relevante das nossas exportações essa sobretaxa que, na nossa visão, não se justifica. Produtos como máquinas, equipamentos, móveis e calçados ainda encontram dificuldade no mercado americano.

Falava-se sobre a dificuldade de encontrar mercados alternativos para produtos industrializados. Como isso avançou?
Depende do produto. Alguns setores tiveram mais dificuldade em buscar mercados alternativos. Várias empresas seguiram vendendo para os EUA, absorvendo em parte o prejuízo, compartilhando em parte o prejuízo com o importador americano, em parte também alterando os preços dos produtos. No agregado, chamaria atenção para o crescimento das exportações do Brasil para a Argentina, superior a 30%. É um mercado que historicamente absorve produtos industrializados do Brasil.

Quais fatores impulsionaram o crescimento das exportações para Argentina?
O crescimento das exportações do Brasil para a Argentina em 2025 tem a ver, sobretudo, com o setor automotivo. Veículos, autopeças, máquinas agrícolas são os produtos que puxaram as nossas exportações para a Argentina, o que tem relação com o aumento da demanda no país e com o crescimento da atividade econômica.

As salvaguardas da China a importações de carne bovina são uma sinalização de que a relação comercial com Pequim pode mudar?
As exportações do Brasil para a China cresceram 6%, voltaram ao nível de US$ 100 bilhões. Houve crescimento em soja, carne, açúcar, celulose, ferro-gusa, mas cada vez mais nós vemos na pauta de exportação produtos que antes não faziam parte dessa cesta.

Sobre a salvaguarda de carnes, é uma medida contra todas as origens de importação de carne na China. Evidentemente que afeta o Brasil, em função de o Brasil ser um exportador muito relevante. A adoção de medidas de defesa comercial faz parte das regras do jogo. O Brasil é um grande usuário de defesa comercial, mais antidumping do que salvaguardas, mas isso tudo faz parte do menu. Nós estamos em contato com as autoridades chinesas para defender os interesses dos exportadores brasileiros da melhor maneira possível.

Quanto ao acordo entre União Europeia e Mercosul, tem expectativa de que seja assinado na próxima segunda (12)?
O vice-presidente [Geraldo Alckmin] manifestou otimismo em relação à perspectiva de assinatura do acordo em breve. Não estamos cravando datas, mas estamos acompanhando com muita atenção a reunião que acontece na sexta-feira [9] em Bruxelas, quando o tema do acordo Mercosul-União Europeia entra na pauta da reunião de representantes dos países-membros do bloco no âmbito do Conselho [Europeu].

Esse é um acordo positivo para os dois lados, que faz sentido sob o ponto de vista econômico e comercial, que faz ainda mais sentido sob o ponto de vista geopolítico nos dias de hoje e que faz sentido também sob o ponto de vista da sustentabilidade. O Mercosul está pronto, mas não está parado. Nós estamos avançando em diferentes frentes negociadoras porque nos interessa ampliar a rede de acordos comerciais.

Como vê as salvaguardas agrícolas discutidas na Europa no âmbito do acordo UE-Mercosul?
Há um capítulo específico sobre salvaguardas bilaterais. É legítimo que cada país queira regulamentar o capítulo previsto no acordo. É direito das partes, desde que a regulamentação não contrarie o acordo que foi estabelecido. Não há clareza ainda de qual é o texto final do regulamento de salvaguardas da União Europeia. Nós vamos acompanhar com interesse o tema. Se essa regulamentação vier a violar os termos do acordo, nós estaremos atentos a isso no momento devido.

Havia a expectativa de que a negociação com os Emirados Árabes fosse concluída no ano passado, o que não ocorreu. Qual foi o entrave? Deve ser concluído quando?
É uma negociação relativamente recente, que avançou muito bem, mas que encontrou um desafio importante na etapa final. Não é raro que isso aconteça, temas difíceis costumam ficar para o final da negociação, mas nós temos confiança de que encontraremos uma solução. Eu não vou antecipar aqui do que se trata, mas as negociações avançaram bastante. Estamos confiantes de que será possível concluir em breve.

Vê possibilidade também de concluir as tratativas com o Canadá ainda neste ano?
Alguns capítulos já estão basicamente concluídos, mas ainda há trabalho pela frente. Me parece factível a conclusão das negociações em 2026.

O movimento dos EUA em 2025 impulsionou a retomada das negociações?
Esse fator se soma a outros. Muitos países buscam diversificar parceiros comerciais e, nesse sentido, a intensificação de negociações comerciais é algo natural. A conclusão das negociações com a União Europeia, mesmo que o acordo não tenha sido assinado ainda, fez aumentar o interesse de outros países no nosso bloco.

Quais outras apostas?
O vice-presidente esteve no México. Nós lançamos negociações para expandir o acordo Mercosul-Índia. Estamos trabalhando com Vietnã e Indonésia em um acordo de cobertura parcial. Nós estamos trabalhando num acordo de comércio com o Panamá. O Japão é um outro país com interesse em preferências comerciais com o Mercosul, e o Reino Unido se soma também a essa lista de países.

Ao mesmo tempo que discute uma série de novos acordos, o Mercosul enfrenta divisões internas. Isso pode atrapalhar a conclusão dessas negociações?
Sob o ponto de vista comercial, o Mercosul está unido no espírito de ampliar a nossa rede de preferências mundo afora. Há um trabalho conjunto e bem-sucedido nesses últimos anos para a conclusão de acordos comerciais.


Raio-X

Tatiana Prazeres, 46

É secretária de Comércio Exterior do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, cargo que também ocupou de 2011 a 2013. Atuou como conselheira sênior da diretoria-geral da OMC (Organização Mundial do Comércio), em Genebra, de 2013 a 2018, e como senior fellow na Universidade de Economia e Negócios Internacionais, em Pequim, entre 2019 e 2021. Foi colunista da Folha. É doutora em Relações Internacionais pela UnB (Universidade de Brasília) e mestre em Direito pela UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina).

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