A escritora e roteirista venezuelana María Elena Morán, 40, considera gravíssima a ação militar dos Estados Unidos que resultou na captura de Nicolás Maduro. Não menos grave, contudo, é a ditadura que arrasou seu país nos últimos anos, e não é possível falar em soberania plena sem levar isso em conta, diz.
Morán, que se diz de esquerda e mora no Brasil, fez um post desconfiado da “transição tutelada” proposta pelo presidente Donald Trump. Mas diz que é possível criticar o presidente americano e sentir alívio com a a prisão de Maduro, diz a autora de “Voltar a Quando” em depoimento à Folha.
[Hugo] Chávez chegou ao poder em 1999. Eu tinha 14 anos. Na minha família, sempre fomos apoiadores dele. A gente realmente vinha de 40 anos de uma democracia funcional, porém cheia de problemas, em que dois partidos revezavam, e era isso.
Ele chegou como uma promessa de democracia real, participativa. De fato, estava rolando um monte de mudanças sociais, como o povo tendo mais acesso à educação. Em 1999, teve a Assembleia Constituinte que redigiu uma nova Constituição, muito celebrada no mundo inteiro.
Depois ficou claro que não foram mudanças estruturais. Por exemplo, lançaram programas sociais que dependiam da injeção direta de recursos do petróleo. Eles foram sumindo quando começou a queda dos preços do petróleo. Ficou uma carcaça.
Vejo, em retrospectiva, que muitas coisas que apoiei eram um abuso flagrante de algo que já extrapolava a democracia. Mas, naquele momento, tudo parecia aceitável. Não era sobre nós que caía esse autoritarismo. E a gente foi esticando, esticando, esticando.
Minha própria vivência de sair da Venezuela e ir para Cuba [onde estudou] começou a desestruturar esse meu olhar cego e militante. Esse meu desencantamento terminou de acontecer no Brasil. A democracia e as instituições pareciam um paraíso.
Comecei a comparar e entender a quantidade de absurdos que tinham acontecido na Venezuela e que aqui jamais aconteceriam. No governo Bolsonaro estivemos mais perto de ver coisas acontecendo aqui parecidas com as da Venezuela.
Nasci em Maracaibo, a segunda cidade da Venezuela, uma região toda petroleira. Meus pais eram professores universitários, biólogos, de universidade pública e da classe média. A gente sempre viveu com a corda meio que no pescoço.
Pessoas próximas a mim sofreram retaliação do governo. O caso mais grave é o de um amigo, colega de faculdade, jornalista, que tem irmã, cunhado e pai presos faz mais de um ano e meio. Ele não sabe onde eles estão, os advogados não têm tido acesso.
Acho que simplifica bem o pesadelo dos presos políticos na Venezuela. São histórias todas assim. Pessoas pegas nas suas casas, sequestradas em qualquer lugar, os familiares têm que fazer uma peregrinação de prisão em prisão para ver se alguém lhes dá alguma notícia. Imaginem só isso acontecendo no Brasil.
Cheguei ao Brasil em 2012. Vim parar aqui por conta de uma história de amor. Em 2009, saí da Venezuela para estudar cinema em Cuba. No curso, conheci meu companheiro. Quando a gente se formou, a Venezuela já estava dando sinais bem preocupantes, então nem cogitamos ficar lá.
Naquela publicação [no Instagram], falei muito sobre meu sentimento de solidão em relação ao assunto Venezuela. No meio de uma onda de mensagens odiosas, fui muito cobrada, chamada de ingrata. Queria deixar claro: sempre que tenho oportunidade, falo do quão grata sou, como alguém que conseguiu fazer sua vida aqui. Minha gratidão ao Brasil é inabalável, não é sobre isso.
A minha crítica tem um recorte muito específico, relacionado à indignação [contra a queda de Maduro] que vejo nessa minha pequena bolha de internet.
No direito internacional, soberania significa que o Estado não está juridicamente subordinado a nenhum outro poder externo. Já a Constituição da República Bolivariana da Venezuela estabelece que a soberania reside de forma intransferível no povo, que a exerce diretamente, por mecanismos como referendos e o Legislativo —a Assembleia Nacional.
Assim, o Estado só é soberano perante o mundo enquanto expressa a soberania do povo. Se o poder deixa de emanar da vontade popular, a soberania externa perde sua legitimidade material.
Em 2015, a oposição tinha conseguido maioria nas eleições legislativas. De imediato começaram as tensões entre a Assembleia e Maduro. O Tribunal Supremo de Justiça, alinhado com o Executivo, anulou legislações aprovadas pela Assembleia, chegando a declará-la “em desacato”, em 2017, e assumiu as funções legislativas, decisão amplamente criticada como um rompimento da ordem constitucional.
Num contexto de grandes protestos brutalmente reprimidos, o governo convocou uma Assembleia Constituinte para redigir uma nova Constituição, que de repente lhes parecia uma imperiosa necessidade.
Composta apenas por representantes leais ao governo, pois a oposição se negou a participar, essa Assembleia nunca gerou a tal da nova Constituição e, na verdade, começou a legislar no lugar da Assembleia eleita, consolidando-se como um poder paralelo. Se eu tiver que escolher um ponto em que as tendências autoritaristas passaram a ser uma franca ditadura, seria esse.
A segunda forma através da qual o povo exerce a soberania é o voto. A fraude nas eleições presidenciais de 2024 não precisa nem de explicações, todos a vimos.
Então pergunto: quando a Assembleia, máxima representante da vontade popular, sofre um golpe, quando se roubam umas eleições, é possível realmente falar de soberania?
A agressão à soberania é inaceitável, mas precisa sê-lo vindo ela de onde vier. No caso da Venezuela, a agressão à soberania externa começou no 3 de janeiro, mas o desmantelamento da soberania interna começou faz muito mais tempo.
Acredito que condenar a Maduro e desejar sua queda e ao mesmo tempo condenar Trump e sua fome colonialista não precisam ser atitudes opostas. Os binarismos simplistas não servem para contar nenhuma realidade, muito menos uma tão complexa quanto esta. Condeno ambos e estou atordoada, num estado de ânimo chamado Venezuela e que consiste num luto que não acaba, preso na fase da raiva.
As imagens de Caracas bombardeada e a perda de vidas civis e militares me doem do mesmo jeito que antes me doeu ver um tanque do Exército passando por cima dos manifestantes em 2019.
Só estou defendendo meu direito e o de todos os venezuelanos de sentir esse misto de alívio com angústia, essa pontinha de esperança atormentada, mas esperança, afinal, que nos tomou a muitos. Com a história que carregamos nas costas, precisamos poder sentir o que for que cada um de nós estiver sentindo, sem ter que pedir desculpas nem dar explicações para ninguém.
Não existem ditaduras boas. Tortura é tortura e deve ser condenada, sem antes perguntar se quem a exerce é de esquerda ou de direita.
Continuo a ser de esquerda, progressista e democrata. Pretendo voltar à Venezuela assim que for seguro para mim.
Em “Voltar a Quando”, falo sobre essa vontade minha de voltar para um lugar que não é geográfico, é um lugar no tempo, em que meu país não está nessa tragédia, as famílias não estão desmembradas, as pessoas não morrem sem insumos básicos no hospital. Um tempo em que meu pai estava vivo, e minha família, junta.




