Desde que o governo dos Estados Unidos começou a emitir as Diretrizes Alimentares, em 1980, tem orientado os americanos a se limitarem a uma ou duas bebidas alcoólicas por dia. Com o tempo, o conselho oficial transformou isso em não mais que duas bebidas por dia para homens e uma para mulheres.
Agora, não mais. As diretrizes atualizadas, divulgadas na quarta-feira (7), dizem, em vez disso, que as pessoas devem consumir menos álcool “para uma melhor saúde geral” e “limitar bebidas alcoólicas”, mas sem recomendar limites claros. Também não alertam mais para o fato de que o álcool pode aumentar o risco de câncer de mama e outras doenças malignas.
É a primeira vez em décadas que o governo americano omite limites diários de consumo que definem a moderação —padrões que são usados como referência em estudos clínicos, para orientar aconselhamento médico e distinguir o consumo moderado e excessivo, que é inquestionavelmente prejudicial.
A nova orientação aconselha grávidas, lutando contra o transtorno do uso de álcool ou tomando medicamentos que interagem com a substância, a evitar completamente o consumo. Alertam, ainda, pessoas com alcoolismo na família a “estarem atentas ao consumo de álcool e comportamentos viciantes associados”.
Elas não distinguem, no entanto, entre homens e mulheres, que metabolizam o álcool de maneira diferente, nem advertem contra o consumo de álcool por menores de idade.
Também não incluem mais um alerta que estava no último conjunto emitido em 2020: que mesmo o consumo moderado pode aumentar o risco de câncer e algumas formas de doenças cardiovasculares, bem como o risco geral de morte.
“O álcool é um lubrificante social que une as pessoas”, afirmou Mehmet Oz, administrador dos Centros de Serviços Medicare e Medicaid, em entrevista na quarta. “No melhor cenário, não acho que você deveria beber álcool”, disse ele, embora tenha acrescentado que o álcool fornece “uma desculpa para se unir e socializar, e provavelmente não há nada mais saudável do que se divertir com amigos de maneira segura”.
Ele disse que as pessoas deveriam beber “judiciosamente” em pequenas quantidades, e que, em populações saudáveis, muitas vezes [o álcool] era consumido em um contexto de celebração. Mas afirmou que “nunca houve realmente bons dados para apoiar” a orientação de não mais que uma bebida por dia para mulheres e duas para homens.
Essa definição, no entanto, deriva de centenas de estudos científicos comparando os impactos na saúde de diferentes níveis de álcool. Eles quase universalmente concluem que níveis mais elevados de consumo são prejudiciais à saúde.
Embora haja um debate robusto dentro da comunidade médica quanto à relação entre o consumo moderado e várias formas de doenças cardiovasculares, há mais certeza científica sobre a ligação entre o álcool e pelo menos sete tipos de câncer.
As novas recomendações chegam em um momento crucial para a indústria do álcool, que experimenta uma queda nas vendas.
A porcentagem de adultos americanos que dizem consumir álcool caiu para 54%, abaixo dos 62% em 2023, de acordo com uma pesquisa recente da Gallup, e 53% acreditam que mesmo uma ou duas bebidas por dia são ruins para a saúde, mais do que o dobro da porcentagem que pensava assim em 2011.
O fato de as diretrizes não mencionarem a ligação entre o consumo de álcool e o câncer é “uma vitória para a grande indústria do álcool”, afirma Mike Marshall, CEO da Alcohol Policy Alliance. “O que a indústria mais teme são consumidores educados sobre a ligação entre câncer e álcool.”
Amanda Berger, vice-presidente sênior de ciência e pesquisa do Conselho de Bebidas Destiladas, disse que não estava ciente de que quaisquer grupos da indústria tivessem defendido o abandono dos limites recomendados de consumo.
Vários especialistas em nutrição e saúde pública disseram estar perplexos com a omissão das diretrizes.
“A palavra ‘limite’ não é satisfatória”, disse Marion Nestle, uma nutricionista que escreveu extensivamente sobre política alimentar. “Limite para quê? Essa é exatamente a questão. Você realmente precisa saber o que isso significa.”
Katherine Keyes, professora de epidemiologia da Universidade Columbia, que foi uma das autoras de um relatório interagências do governo que foi retirado pela administração Trump, disse estar preocupada com o fato de pessoas com menos de 21 anos não serem mencionadas entre aquelas que deveriam evitar completamente o álcool. A falta de limites diários claros recomendados para o consumo causará confusão, disse ela.
“Não acho que haja um limite mágico”, disse ela, embora tenha acrescentado que as diretrizes são “uma referência para as pessoas” e “devem sempre ser atualizadas com as evidências científicas mais recentes”.
“Se você conversar com pesquisadores sérios que estudam álcool e saúde, encontrará um consenso de que a relação entre álcool e riscos à saúde é uma relação dose-resposta, e os riscos começam mesmo em níveis baixos”, afirma.
Uma relação dose-resposta geralmente significa que, à medida que o nível de exposição a uma determinada substância aumenta, os efeitos aumentam por sua vez.




