Muitas mulheres e alguns homens precavidos estudam antes da prova, reservam hotéis antes de viajar e consultam listas de ingredientes antes de preparar uma receita. Por que, então, embarcar em jornada tão radical quanto tomar um psicodélico sem procurar saber antes no que a pessoa está se metendo?
Não se trata de incentivar o uso, mas de tornar mais seguro o que já está ocorrendo. Bons resultados contra depressão e transtorno de estresse pós-traumático em testes clínicos controlados viraram notícia, mas, como a regulamentação biomédica demora, cresce o consumo quase sempre ilegal.
Nos EUA, onde três estados permitem algumas substâncias, 4,5% dos adultos (12 milhões) relatam ter usado um psicodélico nos 12 meses anteriores. O mais empregado é a psilocibina de cogumelos.
Preparação é tudo, prescreve o blogueiro virginiano. A experiência acumulada em milhares de anos de uso por povos tradicionais e há décadas por milhões de psiconautas sedimentou certas recomendações de bom senso para prevenir a ocorrência de “bad trips” (viagens ruins), que são raras, mas acontecem.
Descartes anotou em seu “Discurso do Método”, com ironia, que o bom senso é a coisa mais bem distribuída do mundo, pois todos acreditam estar bem providos dele. Nada melhor, assim, que sistematizar itens de prontidão para uma boa viagem psicodélica, como fez Rosalind McAlpine.
A pesquisadora da Universidade de Londres desenvolveu uma escala para medir o nível de preparação do candidato a psiconauta. São 20 quesitos divididos em quatro áreas: conhecimento e expectativa; prontidão psicofísica; intenção e preparação; planejamento de cuidados.
Começando pelo último grupo, com frequência negligenciado, McAlpine formulou cinco itens para ticar:
- Preparei algumas estratégias para o caso de as coisas começarem a ficar difíceis durante a experiência psicodélica;
- Formulei um plano para o que fazer nas horas e dias após a experiência;
- Minha família e/ou meus amigos estão preparados e bem-informados sobre as mudanças que podem ocorrer comigo;
- Senti que a substância seria segura de usar;
- Senti uma conexão positiva de confiança com as pessoas que estariam comigo durante a experiência.
Intenção e preparação mereceram quatro quesitos:
- Dediquei-me a práticas específicas de preparação antes da experiência (p.ex. meditação, ioga, técnicas respiratórias, anotações em diário, dieta, exercícios);
- Falei com um terapeuta ou conselheiro como parte da minha preparação para a experiência;
- Ponderei cuidadosamente minhas razões para tomar uma substância psicodélica;
- Tinha uma intenção clara para a experiência psicodélica.
Na área psicológica e física, são seis itens:
- Confiei nos meus próprios corpo e mente para processar com segurança a experiência;
- Estava preparada(o) para os efeitos físicos do psicodélico;
- Senti estar psicologicamente preparado(a) para a experiência psicodélica;
- Senti estar pronta(o) a me entregar a qualquer que fosse a experiência psicodélica;
- Estava preparado(a) para lidar com aspectos desconfortáveis ou desafiadores da experiência psicodélica;
- Estava pronta(o) a experimentar o que quer que emergisse durante a experiência.
Por fim, e talvez o mais importante, conhecimento e expectativa se traduzem em cinco pontos:
- Estava ciente de que a experiência psicodélica poderia me mudar de alguma maneira;
- Sabia que a experiência seria algo imprevisível;
- Compreendi que eventos de meu passado poderiam vir à tona na experiência;
- Compreendi que a experiência poderia evocar uma gama de emoções intensas, de êxtase a horror;
- Realizei alguma pesquisa por conta própria sobre os efeitos da substância psicodélica (como ler artigos, assistir a vídeos, ouvir podcasts etc.).
Ninguém precisa aplicar essa checklist ponto por ponto, claro, a não ser talvez psicoterapeutas e pesquisadores clínicos a pacientes sob sua supervisão. Mas ela dá uma boa visão geral do que se pode fazer para diminuir o risco de viagens ruins.
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