sexta-feira, janeiro 9, 2026

A internet dos fungos – 08/01/2026 – Suzana Herculano-Houzel

Estou à cata de coisas interessantes para assistir. Agora que estou chegando ao fim da primeira temporada de “Pluribus” e lembrei que ainda não vi a segunda temporada de “Last of Us”. Como meu filho não tinha visto nem a primeira, comecei a rever tudo com ele. Ô show danado de bom.

O mote da série, baseada em videogame homônimo, é que a humanidade foi infectada por uma mutação do fungo cordyceps, que infecta lagartas e as consome por dentro. Um parente, ophiocordyceps, infecta o cérebro de formigas e as transforma em zumbis que escalam plantas até o topo, cravam suas mandíbulas numa mordida final e ali ficam enquanto o fungo as consome por dentro, cresce e forma o “corpo frutificante”, que então libera esporos que, carregados pelo vento, virarão novos fungos em outras paragens.

A escolha de cordyceps como o fungo que transforma pessoas em zumbis que saem mordendo até que elas finalmente são inteiramente consumidas pelo fungo faz todo sentido.

A Bióloga de Plantão protestou, contudo, contra a vinheta de abertura da série. A linda teia colorida que se espalha e forma corpos frutificantes como um fungo e tem até nome de fungo —”bolor limoso”— não é um fungo, mas uma ameba, Physarum polycephalum (“lodo com muitas cabeças”, literalmente).

Apesar do nome equivocado, pois lodo é fungo e fungo não é ameba, algumas formas de bolor limoso seriam dignas de sua própria série de ficção científica. Quando esfomeadas, células de dyctiostelium, por exemplo, se juntam em uma lesma ambulante que dá o fora e vai virar corpo e esporos lá longe, exatamente como os pedacinhos explodidos do vilão do “Exterminador do Futuro” viram metal líquido que reconstituem o capeta.

Ô produção, custava mostrar na abertura da série um cordyceps de verdade brotando de uma lagarta?

Calhou de eu voltar a ver “Last of Us” justo quando, preparando um novo curso sobre evolução do sistema nervoso e do comportamento, estou examinando o que define um animal —o que, na prática, consiste em entender o que nos difere dos fungos. Óbvio que a questão virou um novo buraco de coelho.

Eis o que descobri: a diferença fundamental é que as células dos fungos são contidas em cápsulas de quitina, que formam uma “parede celular” tal qual a das plantas —exceto que a das plantas é feita de celulose. A semelhança entre fungos e plantas termina aí; no resto, eles são muito mais parecidos com nós, animais. As células dos fungos, inclusive, têm atividade elétrica, como neurônios: elas perdem sua carga elétrica e então a regeneram.

Só que, enquanto neurônios, sem parede celular, têm forma alongada em cabos condutores, que tornam a descarga de neurônios rapidamente contagiosa como campo elétrico —o que, aliás, define quase todos os animais—, nos fungos a atividade elétrica só pode se espalhar lentamente, por difusão de íons entre as células interconectadas nos longos filamentos que formam o corpo dos fungos. Portanto, mesmo que esses filamentos interliguem as raízes de plantas, no que a ecologista Suzanne Simard chamou de wood wide web, qualquer integração é necessariamente muito lenta.

Contidos pela parede celular e incapazes de fotossíntese, os fungos fazem o que podem para comer, o que é bem nojento: cospem enzimas que digerem tudo ao redor e reabsorvem a sopa. É digno de ficção científica mesmo.

Referências:

Olsson S, Hansson BS (1995) Action potential-like activity found in fungal mycelia is sensitive to stimulation. Naturwissenschaften 82, 30-31.

Reid CR (2023) This freaky slime mould from HBO’s The Last of Us isn’t a fungus at all – but it is a brainless predator. The Conversation.

Simard SW (2018) Mycorrhizal networks facilitate tree communication, learning, and memory. In: Memory and learning in plants. Springer Nature.

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