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Bactéria resistente se espalha fora de hospitais – 18/03/2026 – Equilíbrio e Saúde

Uma bactéria resistente a antibióticos tradicionalmente associada a hospitais está se espalhando de forma crescente fora deles, atingindo a comunidade e colocando novos desafios para médicos e sistemas de vigilância em saúde.

A mudança de comportamento é retratada em estudo baseado em mais de 51 mil exames laboratoriais coletados ao longo de dez anos, com foco na bactéria Staphylococcus aureus, que habita a pele e as vias respiratórias e que pode causar desde infecções na pele até pneumonias graves.

Quando essa bactéria desenvolve resistência aos antibióticos, passa a ser classificada como MRSA (Staphylococcus aureus resistente à meticilina). Isso significa que medicamentos da família da penicilina, como a oxacilina, tradicionalmente usados para tratar essas infecções, podem não ter efeito sobre elas.

A pesquisa, feita em parceria entre a Afip (Associação Fundo de Incentivo à Pesquisa) e a Escola Paulista de Medicina da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), analisou 51.532 exames positivos para Staphylococcus aureus coletados na macrorregião do estado de São Paulo e constatou um crescimento significativo da circulação da bactéria resistente fora do ambiente hospitalar.

O estudo analisou dados entre 2011 e 2021 e foi publicado na revista Research Connections, da Oxford University Press. Trata-se de uma das maiores análises populacionais já realizadas sobre essa forma resistente em países de renda média. A Afip faz exames microbiológicos para mais de 600 unidades de saúde, incluindo hospitais, laboratórios, serviços de emergência e unidades de atenção primária.

Os dados mostram que, enquanto os casos de MRSA classificados como hospitalares apresentam tendência progressiva de queda (2,48% ao ano), as infecções com padrão comunitário registraram crescimento médio anual de 3,61%. Segundo a análise, o Staphylococcus aureus resistente esteve associado a 43% das infecções avaliadas, com maior incidência em crianças pequenas e idosos.

“Estamos vendo na comunidade um perfil de resistência que, historicamente, era típico do ambiente hospitalar. E essas pessoas circulam, internam, voltam para casa, o que favorece ainda mais essa troca”, diz a microbiologista Jussimara Monteiro, coautora do estudo e gerente do departamento de pesquisa e desenvolvimento da Afip.

Os mapas gerados pelo estudo mostram focos dessas infecções na região central da cidade de São Paulo, área marcada por alta vulnerabilidade social, além de municípios do litoral paulista. Fatores como adensamento populacional, maior incidência de infecções de pele, clima quente e circulação intensa de pessoas podem estar relacionados, embora essas associações ainda não tenham sido testadas estatisticamente.

Segundo Carlos Veiga Kiffer, autor sênior do estudo, professor de infectologia da Unifesp e pesquisador líder do Grupo de Análise em Infecções e Antimicrobianos (Gaia), os resultados indicam a necessidade de investigações mais detalhadas em territórios e populações específicas. “O estudo não afirma, mas aponta a lente para onde o sistema de saúde precisa olhar.”

De acordo com o estudo, entre as amostras associadas à comunidade, cerca de 22% já apresentavam resistência, percentual considerado alto para uma bactéria historicamente associada a infecções hospitalares. Para os pesquisadores, esse patamar já pode ser interpretado como um cenário de risco epidemiológico.

O estudo utilizou critérios indiretos para diferenciar infecções comunitárias das hospitalares. O principal foi o local de coleta das amostras. Exames feitos em unidades ambulatoriais e laboratoriais foram considerados mais prováveis de origem comunitária, enquanto coletas em hospitais e serviços especializados foram classificadas como hospitalares.

Um segundo critério, baseado no padrão de resistência identificado no antibiograma, foi usado como validador. “Quando cruzamos esses dois marcadores, eles se comportaram de forma muito semelhante, o que reforça que a tendência observada é real”, diz Kiffer.

Ele afirma que a indicação de que mais de um quinto das infecções por Staphylococcus aureus adquiridas fora do hospital já podem ser resistentes a antibióticos comumente prescritos, como penicilinas e cefalosporinas, significa um risco maior de falha terapêutica quando o tratamento é iniciado de forma empírica, sem considerar a possibilidade de resistência.

“Hoje, diante de uma infecção mais grave, especialmente em crianças, idosos ou casos de repetição, talvez não dê mais para tratar como se fosse uma bactéria sensível e perguntar depois”, afirma Kiffer. “Em algumas situações, é mais seguro iniciar o tratamento como se fosse MRSA e ajustar quando o resultado do exame estiver disponível.”

Segundo os pesquisadores, essa alteração no comportamento da bactéria já foi amplamente descrita em países como Estados Unidos, além da Europa, onde a vigilância sobre MRSA comunitário levou a mudanças nos protocolos de tratamento. No Brasil, porém, os dados são fragmentados e contraditórios, com estudos locais apontando prevalências que variavam de zero a 60%.

“O que parecia contradição era, na verdade, heterogeneidade geográfica”, afirma Kiffer. “Existem bolsões de alta e de baixa prevalência. Quem estudava uma área fria encontrava zero; quem estudava uma área quente encontrava 60%.”

No SUS, as opções de antibióticos orais eficazes contra a bactéria são limitadas, o que frequentemente leva à internação para tratamento intravenoso, mesmo em casos que, em teoria, poderiam ser tratados em casa. Isso tem implicações enormes para o sistema de saúde. “Mais internações, mais custos e mais pressão sobre hospitais”, observa Kiffer.

Os autores defendem a criação de modelos de vigilância mais inteligentes, integrando dados laboratoriais, atenção primária e sistemas sentinela, além do fortalecimento de políticas públicas voltadas ao uso racional de antibióticos e ao descarte adequado de medicamentos.

“A separação clássica entre bactéria hospitalar e comunitária pode não representar mais a realidade. Entender essa nova dinâmica é essencial para evitar que a resistência continue avançando sem ser percebida”, diz Jussimara Monteiro.

Algumas das formas de prevenção à transmissão do Staphylococcus aureus são lavagem frequente das mãos com água e sabão, ou o uso de álcool em gel quando necessário, além de manter cortes e feridas limpos e cobertos, trocando os curativos regularmente e evitando tocar ou manipular lesões na pele. A higienização de ambientes e de objetos de uso coletivo e uso responsável de antibióticos também são medidas que ajudam a evitar o surgimento e a disseminação de cepas resistentes.

Autor: Folha

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