No Brasil e no resto do mundo, os medicamentos agonistas do GLP-1, como semaglutida (Ozempic, Wegovy), liraglutida (Saxenda) e tirzepatida (Mounjaro, Zepbound), tornaram-se protagonistas de uma verdadeira avalanche de notícias que merecem ser olhadas com cuidado.
Inicialmente desenvolvidos para o tratamento do diabetes tipo 2, esses fármacos passaram a ser promovidos como soluções multifuncionais: emagrecimento, proteção cardiovascular, melhora de apneia do sono, possível redução do risco de demência e até diminuição do consumo de álcool.
No entanto, uma análise mais cuidadosa revela que o entusiasmo midiático frequentemente ultrapassa a solidez das evidências científicas disponíveis. O assunto tem aparecido em vários grupos internacionais de discussão sobre jornalismo de saúde.
De acordo com o jornalista Gary Schwitzer, fundador do Health News Review, organização que faz análise crítica das reportagens de saúde publicadas nos veículos de comunicação nos Estados Unidos, grande parte das reportagens destaca potenciais “benefícios extras” com base em estudos preliminares, muitas vezes observacionais ou com amostras pequenas e curta duração.
Embora alguns veículos, como o New York Times, incluam ressalvas pontuais de especialistas, essas advertências costumam ficar em segundo plano diante de manchetes assertivas e otimistas. Isso cria a impressão de que os benefícios já estão comprovados, quando, na realidade, os próprios pesquisadores usam linguagem muito mais cautelosa, reconhecendo a necessidade de ensaios clínicos maiores, mais longos e em contextos reais.
Um exemplo emblemático é o estudo que sugere que a semaglutida poderia reduzir o consumo de álcool. Apesar de ser o primeiro ensaio clínico randomizado sobre o tema, envolveu apenas 48 participantes, acompanhados por nove semanas, em um ambiente de laboratório altamente artificial.
Ainda assim, a cobertura jornalística deu destaque à ideia de que o medicamento “pode ajudar a conter o desejo por álcool”, omitindo limitações importantes descritas no artigo científico. Esse padrão contribui para um viés de celebração, no qual benefícios potenciais são amplificados e incertezas são minimizadas.
Ao mesmo tempo, os riscos e danos associados aos GLP-1 recebem atenção muito menor. Estudos recentes apontam aumento de efeitos adversos gastrointestinais, problemas renais, pancreatite, distúrbios de pressão arterial e até complicações oculares.
Esses dados raramente ganham o mesmo espaço ou destaque que as promessas de novos usos terapêuticos. Segundo análises de longa data do HealthNewsReview.org, mais de 60% das notícias de saúde falham em quantificar adequadamente benefícios e riscos, o que compromete a capacidade do público de tomar decisões informadas.
Outro fenômeno preocupante é a popularização da microdosagem e do uso de versões manipuladas desses medicamentos, impulsionados pelo alto custo dos produtos de marca e pela cobertura limitada pelos planos de saúde.
Apesar de amplamente divulgadas nas redes sociais e por serviços de telemedicina, essas práticas carecem de respaldo científico robusto e levantam questões sérias sobre segurança, qualidade, contaminação e desinformação —incluindo falsas alegações de aprovação pela FDA em muitos sites comerciais.
Além disso, a influência de celebridades, redes sociais e interesses comerciais e celebridades tem alimentado uma demanda intensa, a ponto de gerar crimes, como roubos de medicamentos em farmácias, e conflitos de interesse no setor regulatório e de telemedicina. Esse contexto mostra que o debate sobre os GLP-1 vai muito além da farmacologia: envolve economia, política, ética, regulação e cultura corporal.
Os medicamentos GLP-1 representam, sem dúvida, um avanço importante no controle da obesidade, sobrepeso, diabetes tipo 2, mas a cobertura excessivamente entusiasmada e pouco crítica cria expectativas infladas e obscurece perguntas fundamentais: para quem esses medicamentos realmente trazem mais benefícios do que riscos? Quais são os efeitos a longo prazo? Quem se beneficia financeiramente dessa expansão?
Na opinião de Schwitzer, uma comunicação em saúde responsável exige menos “deslumbramento” e mais rigor, contexto e transparência, para que o público não seja levado por uma narrativa simplificada em um cenário que é, na realidade, complexo e cheio de nuances.




