No Brasil, quando uma corporação vê ameaçada sua reserva de mercado, recebemos o ultimato de que é necessário defender essa corporação em nome da soberania nacional. O filme se repete agora com os técnicos de futebol.
Em cerimônia na CBF, Oswaldo de Oliveira e Émerson Leão deram um espetáculo de ressentimento constrangedor: os técnicos brasileiros estariam sendo “desrespeitados”.
A amargura vem do fato de que portugueses como Jorge Jesus e Abel Ferreira e argentinos como Juan Pablo Vojvoda e Jorge Sampaoli deixaram nítida a defasagem tática em que viviam os treinadores brasileiros.
O abismo é tão gigantesco que, ao explicá-lo àqueles formados em seu interior, é preciso começar com frases como “nas últimas décadas, passou a ser importante que o treinador estude”.
Na seleção, tentaram-se as alternativas nacionais possíveis. De 2016 a 2022, Tite desfrutou de apoio inédito na história da Canarinho. E houve evolução depois do desastre das eras Parreira 2, Felipão 2 e Dunga 2. O time tinha consistência defensiva e dominou as Eliminatórias sul-americanas.
Depois da Copa de 2018, era consensual que Tite merecia uma chance com ciclo completo. Mas em 2022, repetiu-se o filme de 2018: eliminação nas quartas levando nó tático de potência europeia média.
O nó tático é a situação de superioridade futebolística causada pelo fato de que a preparação de uma equipe incluiu a consciência de como jogaria a outra, sem que esta tenha uma resposta comparável ao arranjo produzido pela consciência do adversário.
Tanto o sobrepovoamento croata do meio-campo em 2022 como a escolha belga por Lukaku e Hazard nas pontas e De Bruyne de falso nove, em 2018, eram previsíveis. Mas, quando Tite percebeu, já era tarde. O nó tático não precisa durar 90 minutos.
Daí em diante, foi morro abaixo. O pachequismo alçou um técnico honrado, mas visivelmente verde, Fernando Diniz, à condição de guru. Bobagens inenarráveis foram escritas sobre o “relacionismo” dinizista como “superação do guardiolismo” e suposta “volta às raízes do futebol brasileiro”. Diniz saiu da seleção com o pior índice de aproveitamento da história.
Em 2024, Marcelo Bielsa nos eliminou da Copa América liderando uma nação menor que a zona leste de São Paulo, enquanto nosso técnico, Dorival Júnior, não conseguia entrar em um bolinho de seus próprios jogadores.
Com Dorival, levamos uma surra da Argentina que não levávamos desde a era pré-Pelé, com a humilhação extra de ver o lateral Tagliafico explicando em vídeo a mais elementar produção de triângulos de superioridade numérica.
Ante essa terra arrasada, a escolha de Carlo Ancelotti foi a melhor possível, não apenas por seu currículo inquestionável, mas também porque é um poliglota com cuidado para se mover entre tanto ressentimento e amargura.
Não faltarão técnicos torcendo contra a seleção, já com o discurso pronto. Mesmo que o Brasil seja avassalador durante o torneio e só perca a final por erros individuais, toda a fúria se dirigirá contra Don Carletto. Repetirão que “o Brasil venceu cinco Copas com técnicos brasileiros”, como se tivesse perdido as outras 17 com técnicos estrangeiros.
Seja qual for o resultado, com Don Carletto as mínimas decência, elegância e dignidade estão garantidas.




