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Impactos do fim da escala 6×1 acendem alerta no Paraná

A possível redução da jornada de trabalho no modelo 6×1, com carga semanal passando de 44 para 36 horas, acendeu um sinal de alerta no agronegócio do Paraná. Um estudo do Sistema Faep (Federação da Agricultura do Estado do Paraná) estima que a mudança pode gerar impacto anual de R$ 4,1 bilhões no setor, além de exigir a contratação de cerca de 107 mil trabalhadores para manter o atual nível de produção.

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O tema, ainda em discussão no país, mobiliza entidades do setor produtivo e levanta preocupações sobre competitividade, custos e oferta de alimentos. O presidente do Sistema Faep, Ágide Eduardo Meneguette, afirma que o estado do Paraná, por sua relevância nacional, funciona como um indicativo do que pode ocorrer em outras regiões.

“Como protagonista na produção nacional de grãos e líder absoluto em proteína animal, o Paraná atua como o termômetro econômico do agronegócio brasileiro. Se o modelo produtivo paranaense, um dos mais eficientes do mundo, projeta um desequilíbrio dessa magnitude, o cenário para as demais regiões do Brasil é de inviabilidade sistêmica”, diz.

Segundo ele, a preocupação se estende a outras federações. “O Sistema Faep tem mantido contato com as federações dos demais estados, que também têm preocupação em relação à questão da possível redução da jornada 6×1”, afirma.

O levantamento considera uma base de cerca de 645 mil postos de trabalho no agro paranaense e uma massa salarial anual de R$ 24,8 bilhões, incluindo encargos. Com a redução da jornada, seria necessário recompor aproximadamente 16,6% da força de trabalho para cobrir o chamado “vácuo operacional”.

Cadeias como avicultura e suinocultura, que operam de forma contínua, tendem a ser mais impactadas, assim como setores dependentes de janelas curtas de colheita, como hortifruti, café e fumo. Para Meneguette, a principal consequência imediata é a elevação dos custos.

“A nossa metodologia de cálculo e transmissão de custos indica que o repasse ao consumidor final é inevitável. Dessa forma, é possível afirmar que os alimentos terão seus preços reajustados”, afirma. Segundo ele, o aumento no custo de produção, impulsionado pela necessidade de novas contratações, deve chegar diretamente às gôndolas dos supermercados.

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Além da pressão financeira, o setor enfrenta um desafio estrutural: a escassez de mão de obra. De acordo com o estudo, a necessidade de 107 mil novos trabalhadores esbarra na realidade do mercado atual.

“Isso equivale a contratar, da noite para o dia, toda a população economicamente ativa de uma cidade como Paranaguá ou Apucarana. Esses profissionais não existem disponíveis no mercado atual”, afirma Meneguette.

Ele destaca que a dificuldade de contratação já é um problema recorrente no campo. “Muitas propriedades e muitas agroindústrias têm vagas abertas há meses, sem conseguir preenchê-las. Caso ocorra a redução da jornada, esse problema vai crescer ainda mais, podendo até inviabilizar alguns negócios no meio rural do Paraná”, diz.

O impacto, segundo o presidente da Faep, deve atingir produtores de todos os portes, ainda que de formas distintas. “Todos os produtores rurais serão impactados. O grande vai precisar contratar mais colaboradores diante de um mercado onde há escassez de mão de obra, enquanto os pequenos terão um gasto a mais no custo de produção, muitas vezes sem poder assumir”, explica.

Embora alternativas como mecanização e automação sejam frequentemente apontadas como solução, Meneguette avalia que o cenário brasileiro ainda limita esse caminho.

“Não basta apenas apertar um botão. Não é a realidade no Brasil, diante dos sucessivos governos que não atentaram para a necessidade de desenvolver tecnologia, aumentar a eficiência da mão de obra e implantar uma infraestrutura que pudesse ser facilitadora”, afirma. “Estamos atrasados em relação aos demais players mundiais”, completa.

Atividades intensivas em mão de obra estão entre as mais pressionadas pelos impactos do fim da escala 6x1.Atividades intensivas em mão de obra estão entre as mais pressionadas pelos impactos do fim da escala 6×1. (Foto: Gilson Abreu/Governo do Paraná)

Debate precisa ser técnico, diz entidade

Diante do cenário, o Sistema Faep defende que a discussão sobre a redução da jornada seja conduzida com base técnica e sem viés político. Para a entidade, a medida, embora possa parecer positiva em um primeiro momento, traz riscos relevantes para a economia e para a competitividade do país.

O dirigente reforça que a entidade tem atuado junto ao poder público para ampliar o debate. “Estamos trabalhando para que o governo federal e os parlamentares entendam que esse tema precisa ser uma discussão técnica e equilibrada, sem qualquer viés ideológico ou político”, afirma.

Com a proposta ainda em análise, o setor produtivo segue mobilizado para demonstrar os possíveis efeitos da medida. No Paraná, um dos principais polos agropecuários do país, o tema é tratado como decisivo para o futuro da produção de alimentos.

“O Brasil não está preparado para essa mudança em face de seu atraso tecnológico”, conclui Meneguette.

Autor: Gazeta do Povo

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