segunda-feira, janeiro 12, 2026

Luto e sobriedade: o perigo de dizer ‘nunca mais’ – 12/01/2026 – Vida de Alcoólatra

Sai de fininho e fui andando até o carro. Eu tinha estacionado longe e começou a chover. Não quis correr porque não adiantaria. A água me deixou ensopada e eu comecei a chorar. Não sabia mais o que era choro e o que era água da tempestade que ficava cada vez mais forte. Caíram pedras de granito e algumas me machucaram, chorei ainda mais.

Entrei no carro e era só uma aguaceira. Continuei a chorar, talvez porque não tenha derramado uma lágrima no velório do meu amigo. Era estranho eu não ter chorado, afinal eu me sentia muito próxima dele, chegamos a ficar um tempo e depois sempre trocávamos mensagens.

Dei a partida pensando no “nunca mais”. Acho que é o momento da vida mais doloroso, quando nos damos conta de que nunca mais veremos uma pessoa. Fui dirigindo para casa, pensando no convite que me fizeram para beber depois do enterro. Pois é, as pessoas ali não me conheciam bem e não sabiam que eu era alcoólatra. Tive um pouco de medo de ceder para anestesiar a tristeza. Mas foi rápido e passou. De toda forma, eu precisava de alguma coisa para me fazer companhia e passei numa loja de conveniência para comprar cigarro.

Expressões como “nunca mais”, “para sempre” são perigosas e mexem muito comigo. Quando comecei a frequentar o AA, aprendi outra, “só por hoje”. Colocando as coisas nessa perspectiva, podemos ficar aliviados porque não precisamos pensar a longo prazo. Então só por hoje não beberíamos, e no dia seguinte, seria hoje novamente e não beberíamos.

Me deu um conforto imenso saber que eu não precisava pensar na eternidade. Tudo, em relação a álcool, a outras drogas e questões mentais era fracionado.

Pensei tudo isso com o maço de cigarro na mão e a roupa grudando no corpo. Entrei em casa e fui tomar um banho, não me ocorreu nada mais reconfortante. Solucei vendo a água escorrer e me lembrei daquele menino feliz, intenso e divertido. Parecia que nunca tinha tempo ruim para ele.

Saí do banho e vesti um pijama. Acendi um cigarro e fumar de pijama me fez sentir meio suja e meio limpa. Olhei para meu pé e ele estava amarelo. Era a tinta do sapato que tinha desbotado com a água da chuva. Fumei e não limpei o pé. Fiquei ali pensando que o velório seria a última lembrança do meu amigo. Pois é, umas coisas sem cabimento, mas que na minha cabeça fazem sentido.

Com aquela notícia horrível, achei que eu fosse recair. Algumas amigas mandaram mensagens importantes, me acolhendo. Mesmo sabendo que fazia tempo que eu não falava com ele, nem com a bebida. Mas talvez farejassem um perigo no ar.

Naquele momento me lembrei de outro clássico da recuperação: não ficar sozinha, nem com fome, nem cansada, nem triste demais.

Levantei, fiz um sanduíche e fui me deitar. Um dia triste demais que, sim, vai ficar para sempre.

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