O vídeo de animação não parece lá grandes coisas. Vemos uma arena clara cercada de árvores um tanto toscas, onde uma mosquinha-do-vinagre, a Drosophila que vive em nossas cozinhas e é cavalo de batalha da genética e da neurociência, limpa as antenas e anda primeiro a esmo, depois claramente em direção a rodelas de alguma fruta, guiada por uma nuvem de partículas como em um velho desenho animado de Tom & Jerry.
A cena, contudo, é a visualização de um megamodelo computacional, ao mesmo tempo enorme e um tanto simples, em operação. O modelo é nada mais que um programa de computador que simula todas as conexões do cérebro da mosca, já mapeadas anteriormente no nível de detalhe de cada neurônio e sinapse, depois conecta a simulação do cérebro a uma simulação das pernas e antenas da mosquinha e solta cérebro-e-corpo num ambiente igualmente virtual que simula estímulos visuais, táteis, proprioceptivos, olfativos e gustativos.
E então basta dar “play” no modelo, deixando o circuito funcionar, e vê-se o resultado na tela: uma mosquinha que age como se tivesse vida própria.
É fácil subestimar o que há por trás do que parece ser uma animação tosca, mas deixa eu dizer de outra forma. As ações dessa mosquinha não foram codificadas previamente por humanos, ou seja, seu comportamento não foi programado, e seu circuito também não: o modelo apenas replica o conectoma completo do cérebro da mosca. Não há sequer um cérebro aqui, tampouco músculos; há apenas um circuito muito específico de unidades excitáveis ativadas por outras unidades excitáveis, ou por eventos externos, e que causam a ativação de outras unidades excitáveis, ou de músculos que causam movimentos. Mas, havendo esse circuito muito específico conectado com músculos de uma maneira muito específica, basta soltar o circuito numa arena onde eventos acontecem, e voilà: tem-se comportamento.
Por um lado, o feito demonstra o que já se sabia: que mosquinhas não precisam aprender a fazer o que fazem. Basta nascerem com um cérebro conectado internamente e com o corpo de uma certa forma. Por outro, há uma demonstração fundamental para a neurociência e todos seus usos: realmente basta um circuito conectado de uma maneira específica e ligado a um corpo para organizar e executar comportamentos que, vistos de fora, até parecem voluntários e conscientes –porque não são muito diferentes daquilo que vemos outros humanos fazerem.
O trabalho é da Eon Systems, cujo chefe de engenharia, Philip Shiu, é o autor do estudo original, de 2024, que simulou neurônios no cérebro da mosquinha usando apenas seu conectoma. A novidade é que agora esse cérebro simulado ganhou corpo e, com isso, comportamento “observável” via simulação virtual. A conquista é tão empolgante que a equipe da Eon Systems não se conteve e anunciou há poucos dias o feito, qualificado explicitamente como “trabalho em progresso” e ainda não publicado oficialmente em revistas científicas.
A empresa conjectura que um dia será possível fazer o mesmo com um cérebro humano, dando-lhe um corpo e vida artificiais, mas quem sabe com isso uma consciência real. É. Talvez. Cientificamente, seria um grande experimento. Mas em termos práticos, enquanto a gente não destruir o planeta, eu fico com mosquinhas e humanos biológicos.
Referências
How the Eon team produced a virtual embodied fly. 10 de março de 2026.
Andregg M. We’ve uploaded a fruit fly. 8 de março de 2026.
Dorkenwald et al. (2024). Neuronal wiring diagram of an adult brain. Nature 634, 124-138.
Lappalainen et al. (2024). Connectome-constrained networks predict neural activity across the fly visual system. Nature 634, 1132-1140.
Ozdil et al. (2024). Centralized brain networks underlie body part coordination during grooming. BioRxiv.
Shiu PK et al. (2024). A Drosophila computational brain model reveals sensorimotor processing. Nature 634, 210-219.
Wang-Chen et al. (2024) NeuroMechFly v2: Simulating embodied sensorimotor control in adult Drosophila. Nature Methods 21, 2353-2362.
Wissner-Gross A. The first multi-behavior brain upload. 7 de março de 2026.
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Autor: Folha








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