terça-feira, janeiro 13, 2026

18 fatos e revelações envolvendo o Master desde a virada de ano

Uma das maiores crises do sistema financeiro nacional, o caso do Master está longe de acabar. Desde a virada do ano, novas revelações têm demonstrado a gravidade das fraudes envolvendo a instituição financeira, principalmente pela proximidade de autoridades em Brasília com a diretoria e os negócios do banco. A cada dia, a complexidade da fraude fica mais evidente, ameaçando reputações nos Três Poderes.

O envolvimento de representantes de órgãos como o Supremo Tribunal Federal (STF) e o Tribunal de Contas da União (TCU) agrava ainda mais a percepção negativa inicial sobre o caso. As ofensivas e recuos orquestrados nessas instâncias apontam para a amplitude dos impactos em pleno ano eleitoral, podendo resvalar em candidaturas e, até mesmo, inviabilizar algumas delas.

Nesta segunda-feira (12), o presidente do TCU, ministro Vital do Rêgo, se encontrou com o presidente do Banco Central (BC), Gabriel Galípolo, para buscar atenuar a tensão criada desde o início do ano entre as instituições. O ministro do TCU Jonathan de Jesus havia designado uma inspeção na autoridade monetária para se assegurar dos procedimentos adotados em relação ao Master.

Após manifestação do BC, de entidades do setor financeiro, e do incômodo de ministros da Corte de Contas e do Supremo com a repercussão negativa da inspeção, o TCU voltou atrás e suspendeu o procedimento. Nesta segunda (12), em nova reviravolta, o presidente do TCU, Vital do Rêgo, anunciou que, em acordo com o BC, fará uma inspeção no Master. A decisão ainda deverá ser avaliada pelo plenário do tribunal.

A Gazeta do Povo preparou um breve histórico com 18 situações e revelações que ampliaram a percepção da gravidade do escândalo do Master e de seu envolvimento com outras instâncias do poder em Brasília, desde a véspera do Ano Novo. Veja a seguir:

1 – Vaivém da acareação

No dia 30 de dezembro, a delegada da Polícia Federal (PF) Janaína Palazzo conduziu depoimentos de Daniel Vorcaro, do Banco Master, Paulo Henrique Costa, ex-presidente do BRB (banco estatal de Brasília que negociava a compra da instituição) e Ailton de Aquino Santos, diretor de Fiscalização do BC.

Primeiramente, o relator do caso no STF, ministro Dias Toffoli, havia solicitado uma acareação entre os três, mas recuou após ser contestado pelo próprio BC e pela Procuradoria-Geral da República (PGR). Os órgãos questionaram a realização do procedimento antes da coleta dos depoimentos. Além disso, o BC quis saber em qual situação seu diretor participaria da acareação.

Na noite anterior à acareação, Toffoli emitiu uma nota estipulando que fossem tomados os depoimentos e que a PF decidisse sobre a realização da acareação, caso houvesse incoerências. Ailton de Aquino, do BC, prestou depoimento técnico e foi dispensado da acareação.

Vorcaro e Paulo Costa teriam entrado em contradição sobre o prejuízo do BRB. Enquanto o ex-CEO do Master alegou que o Banco de Brasília não teria sido prejudicado, o ex-presidente da instituição do Distrito Federal afirmou o contrário — o prejuízo seria da ordem de R$ 2 bilhões.

Além disso, durante seu depoimento, Vorcaro teria se negado a fazer uma delação premiada. O banqueiro também demonstrou preocupação em manter o sigilo das mensagens trocadas com autoridades. Seu aparelho celular foi apreendido pela operação Compliance Zero, deflagrada pela PF em 3 de setembro de 2025, para investigar possíveis irregularidades no processo de venda do Master ao BRB.

2 – BC envia relatório ao TCU com suposto envolvimento entre Master e a Reag

O Banco Central enviou ao TCU um relatório sobre operações suspeitas entre o Banco Master e a Reag Trust Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários no dia 31 de dezembro. A empresa é investigada pela PF na Operação Carbono Oculto por suspeita de lavar dinheiro para o Primeiro Comando da Capital (PCC).

Segundo o BC, tratava-se de uma “limpeza contábil”, na qual a Reag era a peça-chave. O Master aportava dinheiro em fundos estruturados pela empresa e, depois, esses mesmos fundos adquiriam ativos ruins do próprio banco. Na prática, era como trocar débitos problemáticos por papéis que pareciam saudáveis — um artifício para mascarar a fragilidade real da instituição.

As estimativas indicam que o volume desse tipo de operação pode ter chegado a R$ 11,5 bilhões. A manobra permitia que o Banco Master mantivesse artificialmente seus índices regulatórios, ocultando um déficit patrimonial real.

3 – TCU determina inspeção no Master

No primeiro dia útil do ano, 2 de janeiro, o presidente do TCU, ministro Vital do Rêgo, determinou uma inspeção técnica em documentos referentes ao Banco Master em poder do BC. A decisão, que deveria ter início no mesmo dia, visava analisar documentos citados pelo BC em relatório encaminhado à Corte de Contas sobre o caso.

Os técnicos responsáveis pela inspeção teriam que elaborar um relatório para ser entregue ao ministro Jonathan de Jesus, que é responsável pelo caso Master dentro do TCU. Em meados de dezembro, o ministro solicitou ao BC explicações sobre a liquidação do Master, que classificou como “precipitada”.

O BC enviou o relatório no dia 29 de dezembro sem incluir uma série de documentos em razão do sigilo bancário, o que levou o ministro do TCU a decretar de forma inédita a inspeção na autoridade monetária.

4 – Ministro do TCU considera bloquear ativos do Master

O ministro Jonathan de Jesus afirmou, no dia 5 de janeiro, que poderia considerar medidas para impedir a venda de ativos durante a liquidação do Banco Master. Segundo a Reuters, Jesus não teria descartado uma ordem cautelar que pudesse impedir o BC de vender os ativos do Master.

“Dado o risco de atos potencialmente irreversíveis, não se pode descartar que, em um momento oportuno, uma medida cautelar possa ser considerada, dirigida ao Banco Central do Brasil… visando preservar o valor da massa falida e a utilidade da supervisão externa”, escreveu o magistrado.

5 – Entidades do setor financeiro reafirmam plena confiança no BC

No mesmo dia, 11 entidades do setor financeiro declararam confiar plenamente nas decisões do BC. A nota, contudo, não cita o caso do Master. As entidades, que representam 757 instituições financeiras, 689 cooperativas de crédito e 15 associações vinculadas, também afirmaram que é imprescindível preservar a integridade institucional do BC.

6 – Influenciadores denunciam campanha para difamar Banco Central

No dia 6 de janeiro foi revelado que Influenciadores com milhões de seguidores nas redes sociais revelaram terem sido abordados para fazer campanha contra o BC no caso do Master. O objetivo era abalar a credibilidade da autoridade monetária na operação, afirmando que o BC teria agido de forma precipitada. Além disso, a ação visava angariar apoio para uma possível reversão da medida pelo TCU.

Um dos abordados foi o influenciador digital e vereador Rony Gabriel (PL), de Erechim (RS). Com mais de 1,5 milhão de seguidores nas redes sociais, ele gravou um vídeo no qual disse que a proposta prometia remuneração expressiva para associar a decisão do BC a supostas falhas.

7 – Banco Central recorre do pedido de inspeção feito pelo TCU

Ainda em 6 de janeiro, o BC recorreu da inspeção determinada pelo TCU. Como a decisão foi tomada de forma individual pelo ministro Jonathan de Jesus, a autoridade monetária questionou a legalidade do ato. De acordo com o embargo de declaração apresentado pelo BC, a normativa do próprio TCU estabelece que apenas decisões colegiadas podem autorizar inspeções em órgãos federais.

No mesmo dia, a PF ainda marcou uma nova rodada de depoimentos dos envolvidos no caso do Master, para o fim de janeiro ou início de fevereiro. Foram convocados para depor os ex-sócios do banqueiro Daniel Vorcaro — como Augusto Ferreira Lima, Luiz Antonio Bull, Alberto Feliz de Oliveira e Angelo Antonio Ribeiro da Silva — e ex-diretores do BRB, como Paulo Henrique Costa, Dario Oswaldo Garcia Junior e o atual superintendente de Operações Financeiras, Robério Mangueira.

8 – Senador vai à PGR por ação “inconstitucional” do TCU

O senador Alessandro Vieira (MDB-SE) protocolou na tarde do dia 7 de janeiro uma representação ao procurador-geral da República, Paulo Gonet, contra o ministro Jonathan de Jesus. De acordo com Vieira, as ações do TCU em relação ao BC no caso do Master podem configurar abuso de autoridade.

Em publicação no X, o senador afirmou que a atuação de Jonathan de Jesus seria “absolutamente inconstitucional” e que colocava em risco a credibilidade do BC e do sistema financeiro nacional.

9 – FMI e Banco Mundial veem problemas na autonomia do BC

No mesmo dia, o jornal O Globo reportou que o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial observavam de perto as ingerências contra a autonomia do BC. Em relatório, os técnicos das instituições relataram problemas de fragilidade regulatória que prejudicam a atuação do BC no seu papel de supervisor bancário.

Dentre os pontos, é citada a percepção de baixa proteção aos servidores do BC responsáveis por decisões complexas e da necessidade de se avançar mais na autonomia da autoridade monetária, deixando-a imune a influências políticas.

10 – TCU recua e afirma que reverter liquidação caberia somente ao STF

Após a ação de Vieira, o ministro Jonathan de Jesus admitiu a possibilidade de rever a inspeção ao BC. No início da noite, foi a vez do presidente da Corte de Contas recuar.

O ministro Vital do Rêgo afirmou que somente o STF poderia reverter a liquidação do Banco Master. Ele ainda afirmou que cabe à Corte de Contas oferecer ao Supremo “elementos sobre a apuração da legalidade da operação”. As declarações marcaram um recuo na posição até então adotada pelo TCU.

11 – TCU suspende inspeção no Banco Central

No dia 8 de janeiro, o ministro Jonathan de Jesus suspendeu a inspeção no BC e levou a decisão para o plenário da Corte de Contas. O recuo foi resultado da ação nos bastidores de ministros do próprio tribunal, do STF, do presidente do BC, Gabriel Galípolo. Também atuaram em prol da decisão integrantes do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A ação deveu-se a preocupações com os impactos da medida no mercado financeiro.

12 – Governo Lula decide que estados e municípios devem arcar com fundos aplicados no Master

O Ministério da Previdência definiu que estados e municípios devem arcar com as perdas de fundos de previdência que tenham investido em títulos do Master. Assim, caso faltem recursos para pagar aposentadorias e pensões dos fundos do funcionalismo, por exemplo, caberá às prefeituras e governos estaduais complementar esses recursos.

As estimativas são de que ao menos 18 institutos previdenciários estaduais e municipais aplicaram recursos em Letras Financeiras do Banco Master nos últimos anos. Os maiores valores estão no Rioprevidência, com R$ 970 milhões, na Amprev, do Amapá, com R$ 400 milhões, e no Iprev de Maceió, com R$ 97 milhões.

13 – Vital do Rêgo defende TCU

O presidente do TCU voltou a se manifestar, defendendo a atuação da Corte. Segundo ele, a atuação do tribunal no caso do Master foi correta. Vital do Rêgo ainda descartou qualquer possibilidade de reversão da liquidação do banco. Ele também defendeu a prerrogativa do tribunal de acompanhar e fiscalizar a atuação das agências reguladoras, inclusive o BC.

Segundo ele, a suspensão da inspeção foi adotada diante de um “tensionamento” nas relações da Corte de Contas com o BC e o mercado financeiro. O ministro ainda anunciou reunião com o presidente do BC, Gabriel Galípolo. A intenção é alinhar um modelo de fiscalização que não comprometa a autonomia da autoridade monetária.

14 – Auditores do TCU descartam negligência do Banco Central

Em relatório, os auditores do TCU descartaram negligência ou precipitação por parte do BC no caso do Master. Segundo o documento, cujo conteúdo foi divulgado no dia 10 de janeiro, a autoridade monetária agiu de forma diligente ao monitorar continuamente a instituição desde o primeiro semestre de 2024 e comunicar indícios de crimes ao Ministério Público Federal antes de decretar a liquidação em novembro de 2025.

Os auditores ainda identificaram falta grave de recursos no Master, além de violações às normas legais. A partir das averiguações, a decisão de liquidar o banco teve pleno respaldo jurídico e técnico. No parecer, os técnicos da Corte de Contas reiteram que o tribunal não possui competência para interferir no mérito do processo de liquidação.

15 – Defesa de Vorcaro nega que banqueiro solicitou que operações fossem para o STF

No mesmo dia, a defesa do banqueiro Daniel Vorcaro negou que houvesse solicitado o envio de parte das operações Carbono Oculto e Quasar ao STF. A manifestação foi feita após o portal UOL noticiar que a Justiça de São Paulo havia negado enviar as investigações para o Supremo.

Em nota à Gazeta do Povo, a defesa de Vorcaro afirmou que “não foi solicitado o envio de nenhuma das três operações mencionadas (Carbono Oculto, Quasar ou Tank) ao Supremo Tribunal Federal”. As operações Carbono Oculto e Quasar tramitam em São Paulo, a primeira na esfera estadual e a última na federal. Já a Tank tramita na Justiça Federal do Paraná.

16 – Vorcaro reuniu tropa de choque estratégica em sua defesa

O banqueiro Daniel Vorcaro reuniu uma verdadeira tropa de choque jurídica para sua defesa no caso da liquidação do Master. Segundo a Folha de S.Paulo, ele teria reunido cinco escritórios de advocacia e um ex-procurador do BC. A estratégia é atuar em quatro frentes: Supremo Tribunal Federal (STF), Banco Central (BC), Tribunal de Contas da União (TCU) e exterior.

Pierpaolo Bottini, Roberto Podval e Sérgio Leonardo atuam na área criminal — Bottini é um dos principais criminalistas do país e Podval atuou na Operação Lava Jato. Já o escritório de Walfrido Warde (Warde Advogados) atua na frente regulatória, para paralisar ou reverter a liquidação do Master. O objetivo é substituir Eduardo Félix Bianchini, o liquidante nomeado pelo BC, por um nome aprovado pelo Master.

Até o momento, o time Vorcaro já conseguiu transferir o inquérito criminal da Justiça Federal para o STF, sob relatoria do ministro Dias Toffoli. A estratégia evita decisões de primeira instância. Por sua vez, o escritório King & Ruiz atua nos Estados Unidos, para impedir que a justiça dos EUA reconheça a insolvência do Master. Contudo, o juiz Scott M. Grossman, da Flórida, reconheceu o processo de liquidação do banco.

17 – Parentes de Toffoli tinham ligações com fundos fraudados do Master

Empresas ligadas ao irmão e a um primo do ministro Dias Toffoli teriam como sócio um fundo de investimentos fraudulentos ligados ao Master. A sociedade teria sido desfeita em meados de 2025, segundo informações da Folha de S.Paulo.

O fundo Arleen tinha participação na Tayayá Administração e Participações, gestora de um resort em Ribeirão Claro (PR), com histórico de participação acionária da família de Toffoli. O Arleen também fez aportes na incorporadora imobiliária DGEP Empreendimentos, na mesma cidade, que tinha entre os sócios um primo do magistrado.

Embora não seja diretamente citado nas investigações sobre o Master, o Arleen foi cotista do RWM Plus, que recebeu recursos de fundos como o Maia 95 — um dos seis fundos citados pelo BC como parte da suposta teia de fraudes que envolve o Banco Master.

Toffoli foi designado relator da investigação do Master no STF, onde centralizou o caso e proibiu que a Justiça Federal de Brasília conduzisse atos independentes. Além disso, tornou o processo totalmente sigiloso. Antes de assumir o caso, Toffoli viajou em um jatinho de um empresário para ver a final da Libertadores das Américas em Lima, no Peru. No mesmo voo, estava o advogado de um dos presos nas investigações pelo caso do Master.

18 – BC recua e aceita inspeção do TCU

Após período conturbado na relação institucional e contestação do pedido de inspeção pelo TCU, foi a vez do Banco Central recuar, em mais uma reviravolta do caso do Master. Segundo o presidente do TCU, a autoridade monetária concordou de forma unânime com a inspeção dos documentos e que o deseja o selo de qualidade do tribunal.

“O Banco Central quer o selo de qualidade do TCU. O Banco Central quer a segurança jurídica que o TCU pode dar, porque este processo não é um processo meramente administrativo, é um processo administrativo e criminal”, disse à imprensa, após se reunir com o presidente do Banco Central.

Segundo o presidente do TCU, os trabalhos de inspeção devem ser concluídos em um mês. Mesmo com os afagos intrainstitucionais, o plenário da Corte de Contas ainda avaliará, na próxima semana, o pedido de inspeção aos documentos do Banco Central no caso do Master. Vital do Rêgo reiterou que não cabe ao Tribunal reverter a liquidação do Master, decisão que somente poderia ser tomada pelo STF.

Relembre o início do Caso Master 

Investigação da PF apontou envolvimento de representantes do Banco Master em fraudes estimadas em cerca de R$ 12 bilhões. O mecanismo envolvia a venda de títulos e carteiras de crédito consignado sem lastro para o Banco de Brasília (BRB).

A transação foi vetada pelo BC no dia 18 de novembro. Na mesma data, a autoridade monetária decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master por grave crise de liquidez e riscos sistêmicos.

Por sua vez, a PF deflagrou a Operação Compliance Zero e prendeu Vorcaro antes de embarcar para Dubai — ele alegou que a viagem seria para concretizar a venda do banco a um grupo dos Emirados Árabes Unidos. Outros executivos do banco também foram presos e foram apreendidos uma série de documentos relacionados ao esquema de fraude.

Vorcaro ficou preso por 11 dias e sua defesa conseguiu remeter a investigação ao STF, quando o ministro Dias Toffoli assumiu a relatoria do caso. Após a revelação de que Toffoli havia viajado em companhia de um dos advogados de defesa do caso, veio à tona o envolvimento de outro ministro do STF com o banco.

Também foi revelado que Moraes teria ligado para o presidente do BC, Gabriel Galípolo, para saber do processo do Master. O ministro negou as acusações e afirmou que as ligações tinham como objetivo tratar das sanções impostas a ele pelos Estados Unidos, via lei Magnitsky.

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