terça-feira, janeiro 13, 2026

Escolhas determinarão incidência de câncer em jovens – 13/01/2026 – Equilíbrio e Saúde

O câncer vem sendo diagnosticado cada vez mais cedo e o estilo de vida moderno carrega uma parte desta culpa.

Especialistas acreditam que a obesidade, o sedentarismo, o consumo de bebidas alcoólicas, de ultraprocessados, cigarros (inclusive vapes) e de anabolizantes —motivados pelo culto ao corpo— estão relacionados ao câncer em jovens, além da genética e da hereditariedade.

Para Roberto Gil, diretor-geral do Inca (Instituto Nacional de Câncer), as escolhas vão determinar se o futuro será com maior ou menor incidência de câncer entre os jovens.

As sociedades médicas mundiais divergem sobre a faixa etária. Angélica Nogueira, presidente da SBOC (Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica), diz que há uma classificação agrupada na sigla AYA (na tradução, adolescentes e jovens adultos com câncer), que se estende de 15 a 39 anos.

“Há um aumento de incidência multifatorial de investigação nesta faixa etária. O Brasil tem uma especificidade: um percentual alto de mulheres com menos de 50 anos com câncer de mama. Enquanto esse número no mundo é por volta de 25%, no Brasil é 40%”, afirma Angélica.

Segundo a especialista, o câncer de testículo chama a atenção no público masculino, e o de ovário germinativo e de colo do útero no feminino. Entre 2014 e 2023, a maior parte das mortes em decorrência de tumor maligno no testículo foi entre homens de 20 a 39 anos.

Há ainda outros tumores como linfoma e leucemia. Também são mais frequentes na população mais jovem o melanoma e sarcoma.

“É um perfil muito diferente do adulto, onde os cânceres mais comuns são o de mama, próstata, pulmão, colorretal. No mundo, o colorretal tem um aumento de incidência em pacientes mais jovens atribuído a multifatores como, por exemplo, hábitos de vida, obesidade, dietas industrializadas, mas é muito mais frequente após os 40 anos”, explica a presidente da SBOC.

“De câncer de mama, redução do número de gravidezes, adiar a primeira gestação —para após os 35 anos, por exemplo— e reduzir a amamentação são fatores que aumentam significativamente o risco da doença. Os hábitos têm influenciado, mas há uma questão positiva: o aumento de diagnósticos de câncer. Com melhores tecnologias, eles são mais precisos”, comenta.

Na opinião de Angélica Nogueira, com a mudança da epidemiologia da doença, a educação médica precisa de adaptação para que a suspeição de câncer entre na faixa etária jovem.

“Infelizmente é um diagnóstico tardio em adolescentes e adultos jovens, porque os sinais e sintomas são pouco valorizados pela doença ser menos comum nesta faixa. Então é tanto uma educação populacional sobre cuidados diversos com saúde, dieta, atividade física, não fumar, usar protetor solar, começar o preventivo de colo de útero aos 25 anos —com o papanicolau e agora uma nova tecnologia incorporada que é o HPV-DNA— e também a cultura médica de divulgação de que o câncer tem aumentado em idades mais precoces”, afirma.

O teste de biologia molecular DNA-HPV já é ofertado pelo SUS (Sistema Único de Saúde) em pelo menos 12 estados. A tecnologia detecta 14 genótipos do HPV (papilomavírus humano) e identifica a presença do vírus no organismo antes da ocorrência de lesões ou câncer em estágios iniciais. A expectativa do Ministério da Saúde é disponibilizar o rastreio para toda a rede pública até dezembro de 2026.

Nas crianças, o câncer está mais relacionado a hereditariedade, segundo Gil, diretor-geral do Inca, porque nas primeiras fases da vida não há exposição a fatores de risco externos. “Não teve o tempo para acumulação desse dano genético que vai desenvolver o câncer”, diz.

Nos adultos jovens —abaixo de 50 anos—, dados mais recentes do SIM (Sistema de Informações sobre Mortalidade), do Datasus, mostram que o câncer de testículo foi o que mais levou o público masculino de 20 a 29 anos à morte no país.

No ranking de mortalidade fornecido pelo Inca, as neoplasias de estômago estão entre os cinco tipos que mais mataram homens jovens, de 30 a 49 anos. Nas mulheres jovens, os cânceres de mama e de colo de útero foram o que mais levaram a óbito.

“Nas mulheres a partir dos 20 anos, os cânceres mais frequentes são o de colo uterino e o de mama. E aí você não está atribuindo se o de colo uterino é um fator biológico, se é a contaminação pelo HPV muito precoce —por isso que promovemos a vacinação a partir dos nove anos. E o câncer de mama tem nessas fases alguns fatores hereditários, mas há também fatores externos influindo”, comenta Gil.

No sexo masculino, observam-se fatores hereditários por um tempo maior. Roberto Gil diz que de 30 anos em diante são vistos com mais frequência os cânceres relacionados ao tabagismo e à má alimentação e à obesidade, como os de estômago e de intestino.

“O tabagismo está sendo empurrado para idades cada vez mais precoces com o estímulo visual da modernidade. O Brasil conseguiu políticas de tabaco eficientes, mas infelizmente as pessoas ainda não conseguem entender o dano à saúde que provoca. É um produto que mata um em cada dois usuários. É preciso retomar o estímulo à alimentação saudável, vacinar contra o HPV. Se conseguirmos, possivelmente teremos a eliminação do câncer de colo uterino”, ressalta Roberto Gil.

A OMS (Organização Mundial da Saúde) tem a meta de eliminar o câncer de colo de útero. Para isso, até 2030, o objetivo é que todos os países tenham 90% das meninas até 15 anos totalmente vacinadas contra o HPV; 70% das mulheres rastreadas com um teste de alta performance ao 35 anos e, novamente, aos 45 anos; e que 90% das mulheres diagnosticadas estejam em tratamento.

O HPV também está relacionado às neoplasias de vulva, vagina, pênis, ânus e orofaringe.

Câncer de tireoide

Mais comum em mulheres nas faixas de 40 e 50 anos, o câncer de tireoide também tem crescido na população jovem. O alerta é de Cristiano Rezende, oncologista clínico e diretor da Sboc. “Não conseguimos ter uma relação causal. Sabemos que a exposição ao iodo pode ter uma correlação”, afirma.

O especialista destaca que para este câncer não existe uma recomendação de exame de rastreio por parte das sociedades médicas de oncologia nacionais e internacionais.

“Estudos mostram que no rastreio eu detecto a doença numa fase precoce e diminuo o risco de morrer. O câncer de tireoide no jovem costuma ser um pouco mais agressivo, são nódulos maiores que provavelmente o exame físico detectaria. O ultrassom de tireoide é indicado, mas não existe um embasamento de que deve ser aplicado de forma rotineira como prevenção para o jovem”, explica Cristiano.

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