Em “O Idiota”, Fiódor Dostoiévski brinca com a figura de Nastasya Filippovna e as paixões que a personagem desperta. Ao mesmo tempo em que demonstra nuances psicológicas que traz do passado, carrega em si uma beleza entorpecente que mexe com os homens, algo misterioso. Como se todos se apaixonassem pela psiquê complicada da personagem.
Fora da ficção, a paixão por pessoas com transtornos psiquiátricos é menos poética e mais desafiadora. O transtorno afetivo bipolar (TAB) constitui o que pode ser o mais agressivo a parceiros, amigos e familiares de seus portadores —sobretudo quando o diagnóstico ainda não existe ou é recente.
Relacionar-se com uma pessoa com TAB pode desvendar surpresas desagradáveis. Do dia para a noite, a pessoa com o transtorno pode revelar agressividade, impulsividade, irritabilidade e infidelidade.
“É comum que em episódios de mania a pessoa se ache mais rica, mais bonita, mais poderosa do que realmente é”, explica a psiquiatra Paula Gibim, do hospital Samaritano Barras.
O conceito de mania, ao qual Paula se refere, é um dos dois polos da bipolaridade. Nestes episódios, a pessoa com TAB tem uma aceleração incomum do cérebro; os pensamentos ficam desordenados e levam a atitudes como compras excessivas por impulso, ou virar a vida de cabeça para baixo: mudar-se de casa, iniciar uma faculdade ou comprar um carro, por exemplo, sem qualquer planejamento.
A mania de grandeza —cujos traços podem ser relacionados à personagem de Dostoiévski— também é desafiadora. A pessoa com TAB, nesses episódios, ignora gostos e vontades do outro. A forma do outro se vestir, por exemplo, passa a incomodá-la, explica a médica.
Quando a fase de mania se recolhe, a pessoa cai em depressão profunda, período em que tem forte perda de libido, redução da energia e apatia profunda. Para o parceiro, fica o ônus de entender se esse é um problema que envolve sua presença no relacionamento ou apenas um sintoma.
Segundo dados de 2019 da OMS (Organização Mundial da Saúde), ao menos 140 milhões de pessoas convivem com o transtorno no mundo.
Entender os sintomas e adotar uma rotina de autocuidado é fundamental para quem se relaciona com uma pessoa com TAB. Especialistas indicam, a seguir, ações para uma relação saudável.
Psicoeducação
O primeiro ponto destacado pelos especialistas é a necessidade de conhecer o transtorno a fundo.
“É muito importante que o cuidador (seja um cônjuge, amigo ou familiar) acompanhe de perto o tratamento. Converse com o médico, relate as experiências que tem vivido e trace uma relação entre elas e os sintomas. Tire dúvidas diretamente com o médico”, diz Paula.
Para Rodrigo Bressan, psiquiatra e professor da Unifesp (Unversidade Federal de São Paulo) e do King’s College London, incluir a família no tratamento é crucial. Ele explica que sem a participação das pessoas próximas, há um negligenciamento do transtorno, e os sintomas passam a ser tratados como questões comportamentais, e não de saúde.
Outra dica é consumir conteúdo, como livros e vídeos, sobre o transtorno e suas variações. Isso ajuda a enxergar, na relação, o que é o transtorno e o que não é, qual é o grau de cada pessoa e como atravessar possíveis crises.
Autocuidado
Quando o cuidador desconhece o transtorno, é difícil lidar com os sintomas. Ele passa a se questionar se é algo pessoal, e a busca por respostas leva a quadros de tristeza.
“Nas fases de depressão, a pessoa com TAB não quer conversar, não quer dar respostas ao outro”, diz Paula. “Isso, aliado aos outros fatores, vai adoecendo também o cuidador”, continua a especialista, “que se enxerga como responsável pelo problema”.
Ao assumir um relacionamento com uma pessoa bipolar, é importante saber que pode ocorrer cada um dos episódios citados, além de outros problemas, como traições —em razão das atitudes impulsivas e aumento da libido durante a mania.
Contudo, essa não é a regra, apontam os especialistas. Uma pessoa em tratamento consegue ter uma vida normal. Mas em casos de episódios os desafios são especialmente difíceis.
Contudo, essa não é a regra, apontam os especialistas. Uma pessoa em tratamento consegue ter uma vida normal. Mas quando surgem episódios de mania ou depressão, os desafios são especialmente difíceis.
Insistência no tratamento
Se alguém próximo dá indícios de bipolaridade, é importante insistir na procura por um psiquiatra e psicólogo. O TAB exige tratamento farmacológico e não pode, portanto, ser tratado apenas com métodos terapêuticos.
Não buscar tratamento pode ocasionar um agravamento dos episódios de mania, que se tornam graves. Há na literatura médica exemplos de pacientes que cometem crimes e abusam de drogas. No caso de mulheres, há relatos de relações sexuais desprotegidas, que resultam em gestações indesejadas.
“Uma pessoa bipolar em episódio de mania pode acabar presa ou internada”, reforça Paula, destacando a necessidade de procurar ajuda médica nos primeiros indícios do transtorno.
Não há cura para o transtorno de bipolaridade e o tratamento é vitalício.
Humanização
Nem todas as atitudes de uma pessoa bipolar se explicam por seu diagnóstico. Há condutas que dizem respeito à personalidade da própria pessoa. É muito comum, porém, que o transtorno apareça com outras patologias, como o transtorno de personalidade borderline (TPB) e o transtorno obsessivo-compulsivo (TOC).
Por isso, dizem os especialistas, é importante não vilanizar a pessoa e separar o que é sintoma e o que é transtorno. Dessa forma, as ações tomadas pelo bipolar podem ser encaradas como “fora da razão”, o que ajuda o cuidador a ter clareza.
Crie limites
Embora muitas das atitudes se expliquem pelo transtorno, não é justo —nem saudável— que o cuidador aceite absolutamente tudo que emana da pessoa bipolar, afirma a psicanalista Carla Audi, fundadora do Instituto Praxxi de Psicanálise.
“Amar alguém com TAB não é impossível, mas exige limites, parâmetros e combinados. É preciso avaliar se o que a pessoa faz durante a crise é tolerável, não te destrói”, diz Carla. Ela explica que aceitar desrespeitos aos próprios limites cria um problema em duas frentes: primeiro, o adoecimento mental; segundo, um pretexto para que o bipolar continue a manter seus erros.
Perguntas como: “o que eu aceito?”, “onde termina o cuidado com o outro e começa o meu abandono?” e “eu realmente estou disposto a viver isso?” ajudam.
Das falas dos especialistas conclui-se que, ter um relacionamento com bipolar é possível, desde que o amor, seja de amigo, parente ou companheiro, não se restrinja ao desejo de posse e controle. “O amor é adequação, e não apenas afeto. Afeto não sustenta amor, sobretudo ao se deparar com alguém que tem tamanho desafio psiquiátrico na própria vida”, conclui Carla.





