terça-feira, janeiro 13, 2026

Como o apoio de governos do PT a Maduro prejudicou o Brasil


Ao condenar a prisão de Nicolás Maduro e classificar a ação dos Estados Unidos como uma “afronta gravíssima à soberania”, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva voltou a expor a postura histórica dos governos do PT em relação ao regime venezuelano, marcada por gestos de tolerância política e diplomática diante do avanço autoritário no país vizinho.

A reação de Lula não é um episódio isolado, mas parte de uma relação construída ao longo de mais de 20 anos, que começou com a aliança estratégica entre o petismo e o chavismo e atravessou diferentes governos, crises políticas e denúncias de violações de direitos humanos na Venezuela.

Desde o primeiro mandato de Lula, a política externa brasileira passou a tratar a Venezuela como aliada preferencial na América do Sul. A afinidade ideológica com o projeto bolivariano de Hugo Chávez levou o Partido dos Trabalhadores (PT) a relativizar alertas sobre autoritarismo, enfraquecimento institucional e perseguição a opositores, em nome de um discurso de integração regional, soberania e enfrentamento à influência dos Estados Unidos.

Ao longo dos anos, essa condescendência se manifestou de diferentes formas: nas declarações públicas de apoio a líderes chavistas, na recepção oficial a Maduro com honras de chefe de Estado em Brasília, em investimentos bilionários que ligaram economicamente Brasil e Venezuela — como o caso da refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco — e na cautela em reagir a denúncias de fraudes eleitorais e repressão à oposição venezuelana.

Em 30 de setembro de 2005, durante entrevista à imprensa em Brasília ao lado de Chávez, Lula reagiu às críticas internacionais afirmando que a Venezuela vivia um “excesso de democracia”. Na mesma ocasião, elogiou o aliado e atacou a oposição venezuelana, dizendo que ela não aceitava “que um metalúrgico” governasse o país — um paralelo direto com sua própria trajetória política no Brasil. A fala se tornou um dos símbolos da disposição do petista de relativizar alertas sobre o chavismo.

Entre 2005 e 2007, período considerado o auge da aproximação bilateral, Lula passou a classificar a relação entre Brasil e Venezuela como “estratégica”, baseada em “afinidades políticas”, ainda que reconhecesse eventuais “divergências ideológicas”. Os dois presidentes atuaram juntos na criação e fortalecimento de mecanismos de integração regional, como a Unasul, e apresentaram a aliança como parte de um projeto comum para a América do Sul.

Apoio direto à reeleição de Chávez

A aliança entre petismo e chavismo avançou para um nível ainda mais profundo de engajamento político: o apoio direto à manutenção do regime no poder por meio da eleição presidencial de 2012. Diferentemente de gestos diplomáticos ou declarações públicas, esse envolvimento ocorreu nos bastidores, com articulações estratégicas e participação de quadros centrais ligados ao PT na campanha chavista.

Um telegrama da Embaixada da Venezuela no Brasil, revelado pela revista Veja, que relata uma reunião realizada em São Paulo, em fevereiro de 2011, expõe com detalhes o grau de envolvimento de Lula com o processo eleitoral venezuelano. No documento, o ex-presidente brasileiro afirmava que Chávez era o líder em quem mais confiava politicamente e confessava preocupação com a possibilidade de derrota do aliado. “Durmo tranquilo porque sei que Chávez está lá, mas às vezes também não consigo dormir pensando que Chávez poderia perder as eleições em dezembro de 2012”, teria dito Lula, segundo o relato diplomático.

Ainda conforme o telegrama, Lula classificou uma eventual derrota de Chávez como um desastre político para a esquerda latino-americana, afirmando que o resultado seria “igual ou pior que a queda do Muro de Berlim”. A comparação ilustrou o peso simbólico atribuído pelo petista à permanência do chavismo no poder e indicou que a eleição venezuelana era tratada como uma disputa estratégica regional, e não apenas como um processo interno de um país soberano.

Nesse contexto, Lula passou a discutir iniciativas concretas para fortalecer politicamente o aliado. Uma delas foi a defesa da adesão plena da Venezuela ao Mercosul, vista como uma vitória política capaz de reforçar o governo chavista às vésperas da eleição. O documento também relatava a intenção de Lula de ajudar a estruturar um comando de campanha para Chávez, envolvendo aliados políticos e assessores próximos.

Entre os nomes citados estava o do marqueteiro João Santana, responsável pelas campanhas eleitorais de Lula e da então presidente Dilma Rousseff. Santana foi escalado para auxiliar diretamente a comunicação da campanha chavista de 2012, levando à Venezuela estratégias e métodos já utilizados com sucesso em campanhas petistas no Brasil.

Os detalhes financeiros dessa atuação vieram à tona anos depois. Em 2017, durante depoimento à Operação Lava Jato, Mônica Moura, esposa e sócia de João Santana, afirmou que o casal recebeu cerca de US$ 10 milhões por serviços prestados ao chavismo. Segundo ela, os pagamentos tiveram origem no entorno do regime venezuelano e ocorreram em campanhas ligadas tanto a Hugo Chávez quanto, posteriormente, a Nicolás Maduro.

Na avaliação do escritor e jornalista Leonardo Coutinho, autor do livro “Hugo Chávez, o espectro” (Vestígio, 2018), há episódios documentados que demonstram como os governos do PT atuaram ativamente para sustentar politicamente o regime venezuelano em momentos-chave de isolamento internacional. Um dos casos mais reveladores, segundo ele, envolve a entrada da Venezuela no Mercosul, apesar das regras do bloco que vedavam a adesão de países fora dos parâmetros democráticos.

Coutinho recorre a um relato feito pelo ex-presidente uruguaio José Mujica, divulgado em livro e confirmado posteriormente em entrevistas. Segundo Mujica, o governo Dilma Rousseff articulou uma ofensiva política para convencer o Paraguai — então resistente à entrada da Venezuela — a mudar de posição. Um dos movimentos centrais foi o apoio do Brasil a um projeto que elevou significativamente o valor pago ao Paraguai pela energia produzida na Usina de Itaipu, proposta aprovada pelo Congresso brasileiro em 2011.

De acordo com o relato de Mujica, a medida funcionou como um gesto de aproximação política e econômica para reduzir a resistência do Congresso paraguaio à adesão venezuelana. À época, o Paraguai era o principal entrave à entrada do país comandado por Hugo Chávez no bloco, justamente por questionar o grau de comprometimento democrático do regime chavista.

Com Maduro, Lula relativizou a democracia

A aproximação entre Lula e Maduro antecede o retorno do petista ao Palácio do Planalto, em 2023, e ajuda a explicar a linha adotada pelo governo brasileiro no terceiro mandato. Ainda em 2013, após a morte de Hugo Chávez, Lula gravou um vídeo em apoio explícito à candidatura de Maduro à Presidência da Venezuela, apresentando-o como herdeiro legítimo do projeto chavista e afirmando que sua eleição representaria a continuidade do país “sonhado por Chávez”.

No vídeo, divulgado durante a campanha eleitoral venezuelana, Lula exaltou a “obra” de Chávez e afirmou que Maduro daria sequência a um projeto que teria tornado a Venezuela “mais justa”, ao ampliar políticas sociais e transferir renda do petróleo para os mais pobres. O gesto foi interpretado, à época, como um endosso político direto ao novo líder chavista e marcou a transição do apoio brasileiro do fundador do regime para seu sucessor.

Dez anos depois, já de volta à Presidência da República, Lula transformou esse alinhamento histórico em política de Estado. Em maio de 2023, promoveu a reabilitação diplomática de Maduro, que voltou ao Brasil pela primeira vez desde 2015. O venezuelano foi recebido no Palácio do Planalto com honras de chefe de Estado, direito a rampa, guarda de honra e uma reunião bilateral exclusiva antes dos encontros com outros presidentes sul-americanos.

Durante a visita, Lula minimizou críticas internacionais ao regime chavista e afirmou que a Venezuela era alvo de uma “narrativa” construída para demonizar o governo do ditador. Chegou a aconselhar Maduro a “construir sua própria narrativa”, sugerindo que a imagem negativa do país não decorreria de autoritarismo ou repressão política, mas de campanhas externas. Em junho daquele ano, reforçou o discurso ao declarar que a Venezuela “tem mais eleições do que o Brasil” e que “o conceito de democracia é relativo”.

Ao longo de 2023 e 2024, o governo passou a sustentar essa postura com o argumento da não interferência, apresentado como princípio orientador da diplomacia brasileira. Questionado no Congresso, o Itamaraty afirmou reiteradamente que o Brasil não faz juízos públicos sobre assuntos internos venezuelanos e que aposta no diálogo como forma de mediação. Na prática, críticos avaliam que essa linha serviu para blindar politicamente o regime de Maduro, mesmo diante de denúncias de repressão à oposição, prisões arbitrárias e questionamentos sobre a lisura do processo eleitoral.

Para o cientista político Elton Gomes, professor da Universidade Federal do Piauí (UFPI), a política externa adotada pelo Brasil nos governos petistas comprometeu o papel histórico do país como potência estabilizadora da América do Sul. Segundo ele, caberia ao Brasil atuar como mediador de conflitos e referência regional, algo que não se concretizou no caso venezuelano.

O cientista político também criticou a postura brasileira após as eleições venezuelanas de 2024, marcadas por denúncias de fraude. Enquanto países como Argentina, Paraguai e Chile — o último governado pela esquerda de Gabriel Boric — condenaram abertamente o processo, o Brasil adotou uma posição que ele classifica como ambígua. “O governo não reconheceu formalmente o resultado, mas tampouco condenou Maduro”, afirma.

Para Gomes, o envio de representação oficial brasileira à posse de Maduro acabou tendo peso decisivo. “Na prática diplomática, comparecer à posse equivale a reconhecer o governo”, avalia. Ele destacou ainda o protagonismo do assessor especial Celso Amorim, que, segundo ele, acabou eclipsando o papel formal do chanceler Mauro Vieira na condução do tema.

Na leitura do professor, o Brasil terminou “no limbo”: não liderou uma condenação regional, não conseguiu mediar uma solução aceita por governo e oposição venezuelanos e ainda se expôs a tensões com os Estados Unidos, especialmente no contexto de sanções e negociações comerciais. “O país alterna discursos de defesa da paz e das soluções negociadas com gestos que o colocam em confronto com democracias ocidentais”, afirma.

Calote venezuelano expõe custo financeiro da aliança política

A dívida acumulada pela Venezuela com o Brasil envolve valores elevados, contratos antigos e um impacto direto sobre os cofres públicos. Segundo dados oficiais do governo brasileiro, o passivo já ultrapassa R$ 10 bilhões e decorre principalmente de financiamentos concedidos entre 2007 e 2015, período de maior aproximação entre os governos do PT e o chavismo.

Os créditos foram concedidos para exportações de bens e serviços brasileiros, sobretudo obras de infraestrutura executadas por grandes empreiteiras nacionais na Venezuela. As operações foram viabilizadas com recursos do BNDES, tendo como garantia o Fundo de Garantia à Exportação (FGE) — mecanismo sustentado pelo Tesouro Nacional. Quando a Venezuela deixou de pagar, foi o fundo público brasileiro que passou a cobrir os prejuízos.

O calote começou a se consolidar a partir de 2018, ainda no governo de Nicolás Maduro, e já dura cerca de sete anos. Desde então, o Brasil vem honrando as garantias dadas às instituições financeiras e às empresas exportadoras, transformando a dívida externa venezuelana em despesa direta para o contribuinte brasileiro. Apenas com a Venezuela, o FGE concentra um de seus maiores passivos internacionais.

Em audiência na Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional (CREDN), o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, confirmou os valores envolvidos e reconheceu a inadimplência prolongada. O chanceler afirmou que o governo brasileiro mantém o tema em negociação, mas atribuiu as dificuldades de pagamento às sanções econômicas impostas pelos Estados Unidos e por outros países ao regime venezuelano.

Segundo Vieira, as sanções teriam criado entraves bancários e operacionais que impediriam transferências internacionais, o que dificultaria a quitação da dívida. Ele ressaltou que o Brasil não adota medidas de pressão pública e que a diplomacia segue o princípio da não interferência, buscando resolver a questão “por meio do diálogo”.

Refinaria Abreu e Lima virou símbolo da aliança com o chavismo

A Refinaria Abreu e Lima, em Ipojuca (PE), tornou-se um dos casos mais emblemáticos da relação entre os governos do PT e a Venezuela chavista, reunindo alinhamento ideológico, fracasso econômico, calote internacional e escândalos de corrupção. O projeto nasceu no início do primeiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva, como parte da estratégia de integração sul-americana defendida em parceria com Hugo Chávez, e foi apresentado como símbolo da cooperação energética entre os dois países.

Anunciada em 2003 e formalizada a partir de 2005, a refinaria foi concebida como um empreendimento binacional entre a Petrobras e a estatal venezuelana PDVSA. O acordo previa uma sociedade em que o Brasil teria 60% do capital e a Venezuela, 40%, com investimento estimado inicialmente entre US$ 2 bilhões e US$ 2,5 bilhões. Chávez participou pessoalmente do lançamento da obra e chegou a sugerir o nome “Abreu e Lima”, em homenagem ao general pernambucano que lutou ao lado de Simón Bolívar.

Na prática, porém, a parceria nunca saiu do papel. A PDVSA não aportou os recursos prometidos nem forneceu petróleo de forma regular, enquanto a Petrobras assumiu sozinha a execução do projeto. Mesmo assim, o governo brasileiro manteve o discurso de “parceria estratégica” por anos, adiando cobranças e renegociações, numa tentativa de preservar o simbolismo político da aliança com a Venezuela.

O resultado foi uma escalada explosiva de custos. Ao longo dos anos, revisões de projeto, atrasos e mudanças de escopo fizeram o orçamento saltar para cerca de US$ 18 bilhões, transformando Abreu e Lima em uma das refinarias mais caras do mundo em relação à capacidade instalada. Inaugurada parcialmente em 2014, a unidade entrou em operação com apenas metade da capacidade originalmente prevista, enquanto partes da obra permaneceram inacabadas.

A refinaria também se tornou um dos principais alvos da Operação Lava Jato. Investigações apontaram superfaturamento, cartel de empreiteiras e pagamento de propinas envolvendo grandes construtoras e dirigentes ligados a partidos da base dos governos petistas. O Tribunal de Contas da União (TCU) identificou sobrepreços bilionários, e o empreendimento passou a ser citado como um dos símbolos do escândalo do petrolão.

Além do prejuízo financeiro, o caso expôs o fracasso da estratégia de integração com o chavismo. A Venezuela, que nunca cumpriu sua parte no acordo, deixou o Brasil com 100% da conta, sem que houvesse responsabilização efetiva do parceiro internacional. Ainda assim, o projeto continuou sendo defendido politicamente como legado da cooperação regional iniciada nos governos Lula.

No terceiro mandato, a história ganhou um novo capítulo. Em 2025, a Petrobras assinou contratos de cerca de R$ 4,9 bilhões para ampliar a refinaria e construir o segundo trem de refino, dobrando sua capacidade de produção.

Críticas à oposição expõem assimetria na postura de Lula sobre a Venezuela

As críticas de Lula à oposição venezuelana reforçam a percepção de que o presidente brasileiro adotou uma postura mais dura com adversários do regime de Nicolás Maduro do que com o próprio governo chavista. Em março de 2024, ao comentar o impedimento da principal liderança opositora, María Corina Machado, Lula afirmou que ela “não deveria ficar chorando” por ter sido barrada da disputa presidencial e sugeriu que simplesmente indicasse outro candidato — declaração que provocou forte reação dentro e fora da Venezuela.

Na mesma fala, Lula comparou a situação venezuelana à sua própria inelegibilidade em 2018. Disse que, ao ser impedido de concorrer no Brasil, “ao invés de ficar chorando”, indicou Fernando Haddad como candidato. A equiparação foi alvo de críticas por ignorar diferenças centrais entre um processo judicial em um sistema democrático e a exclusão eleitoral imposta por instâncias controladas por um regime autoritário, após a vitória da oposição nas primárias.

O presidente também atacou de forma genérica a postura da oposição venezuelana, afirmando que, se o candidato oposicionista tivesse “o mesmo comportamento que o nosso aqui, nada vale”, sem detalhar a acusação. Na mesma coletiva, disse estar “feliz” com o anúncio das eleições marcadas para 28 de julho de 2024 e destacou a promessa de Maduro de aceitar observadores internacionais, defendendo que não se deveria “lançar dúvida” sobre o pleito antes de sua realização.

A resposta da oposição veio rapidamente. María Corina reagiu nas redes sociais e questionou o tom e o conteúdo das declarações do presidente brasileiro: “Eu chorando, presidente Lula? O senhor diz isso porque sou mulher? O senhor não me conhece”. A reação ganhou repercussão internacional, com veículos destacando o contraste entre a fala de Lula e o fato de a opositora ter sido barrada por decisões de órgãos alinhados ao chavismo.

Diante da repercussão negativa e da pressão externa, Lula ajustou o discurso semanas depois. Em 28 de março de 2024, passou a classificar como “grave” o impedimento da candidatura opositora, disse ter ficado “surpreso” com a decisão e afirmou que “é grave impedir que um adversário seja candidato”, acrescentando que Maduro “não deveria temer a participação de um opositor forte”.

Autor Original

Destaques da Semana

Temas

Artigos Relacionados

Categorias mais Procuradas

spot_imgspot_img