Pessoas com deficiência talvez formem o grupo que mais consegue compreender o impacto da sentença “você será desse jeito para sempre”. Nunca mais vai andar, nunca mais vai ver, nunca mais vai poder isso, jamais irá fazer aquilo.
E não são apenas profissionais de saúde os mensageiros do desespero eterno, algo que até tem mudado e se sensibilizado, de certa maneira, nos últimos tempos. A própria sociedade acabou incorporando o modo de pensar que vidas “malacabadas” são estáticas e que é preciso agir com delicadeza com “eles”.
Persiste um pensamento de que é necessário ter muito cuidado para não magoar corações que já convivem com um sentimento de fim da linha devido suas questões sensoriais, motoras, psíquicas ou intelectuais.
Diante de um quadro assim, como falar de esperança em um cenário que supostamente se vive no fundo do poço, onde foi tão difícil se conformar com as dúzias de limitações de uma existência tida como incompleta, triste e digna de ser protegida, inclusive de possíveis ilusões de que algo poderá melhor.
É fato que mercadores de ilusões seguem firme agindo em fragilidades humanas, não exclusivas de pessoas com deficiência, mas presentes em todos os que padecem por dores e ausência e também por preconceitos, exclusões, desamparos e incompreensões.
Facilmente se encontram métodos milagrosos para dar “a melhor educação para crianças autistas“, chás que fazem surdo ouvir e cego ver, robôs de papelão capazes de ser verdadeiras pernas para gente com questões de mobilidade.
Sim, há quem se agarre em fiapos para cozer mantos que prometem proteger das desgraceiras do mundo. Mas o desespero, geralmente, não tem parentesco legítimo com a esperança.
Ele tem na alma a desinformação, a falta de autoestima, o abandono, a mentira, o dinheiro selvagem. Ela tem um frescor de boa intenção, um lastro com a realidade, a doçura da explicação, a mão dada com a fé.
Já me deparei muitas vezes com a esperança usando trajes de enganação e me gabo, ao longo da minha trajetória profissional, não ter celebrado métodos que não dialogam com o íntimo, com o de dentro para fora, com a escuta do que é melhor para mim e não o melhor para a acomodação do outro.
O povo que não vê, não anda, não escuta e é ruim da caixola, tem poucas chances de viver a esperança de maneira tranquila porque precisa dar tempo demais para simplesmente estar na escola, no trabalho, na família, no bar e na rua. Porque vão achar que ele está se agarrando em nuvens. Porque é mais fácil investir na contenção de seus quadrados do que no avanço transformador que os leve mais perto da plenitude.
Pessoas que tiveram lesões medulares graves e se tornaram paraplégicas ou tetraplégicas –uma das mais desafiadores condições de estar vivo–, que não tiveram em décadas novidades científicas contundentes para a evolução de seus quadros, podem, sim, ter esperança num novo e promissor vindouro, possível medicamento, a polilaminina (com todas as ressalvas, para ninguém ficar chateado).
Não penso que exista uma promessa de que todo o mundo abandonará suas companheiras de rodas, suas muletas e andadores do dia para a noite. Penso que há uma nova porta, construída com cuidado, inteligência, método e conhecimento, onde se lê no tapetinho de entrada: bem-vindo, aqui mora a esperança.
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