Sou do grupo que apoia Neymar na seleção brasileira. Idelber Avelar classificou a mim e meus parças, nesta Folha, como parte de um “circo demencial”.
Não tenho nada contra a arte circense. Afinal, o apreço por espetáculos e a inteligência corporal são parte das qualidades ímpares do atacante de 34 anos do Santos.
Mas tenho ressalvas sobre como o articulista usou o termo demencial. Um tanto deselegante, outro tanto desrespeitoso com a condição de saúde.
O professor, que também é autor de livros sobre política, alega que nós não conseguimos apresentar números para justificar a convocação do camisa 10. Fato.
Falar de números no futebol sempre me pareceu uma ideia arriscada. Não que eu seja negacionista, mas vejo o esporte desafiar estatísticas com frequência. Jogadores da geração Z têm demonstrado isso.
O francês Rayan Cherki, 22, do Manchester City, e o espanhol Lamine Yamal, 18, do Barcelona, são algumas das vozes que oram em público pelo valor lúdico do esporte.
Cito os jovens nessa questão matemática porque não quero que meus parças mais novos digam que Neymar foi melhor que Maradona só pela quantidade de gols marcados na carreira. Seria um ultraje, um escândalo para ambos os lados. Existem variáveis para além disso. O brasileiro marcou mais de 450, o argentino chegou a 345.
E Deus me livre de ouvir o nome de Pelé em vão. Já pensou se alguém inventa que o Neymar é melhor que o Rei só pelo fato de ter feito mais gols oficiais pela seleção brasileira? Outro escândalo.
Também seria temerário compará-los por títulos de Copa ou Olimpíadas. Ou mesmo por quantidade de cartões, carrinhos em dias chuvosos ou pelo tempo médio para perder a bola durante um jogo contra o Corinthians.
O argumento que (parte de) nós, circenses, apresentamos sobre a urgência de Neymar na seleção segue outro caminho: se inspira no realismo fantástico, que trata a verdade e a magia como uma coisa só. O craque faz a gente acreditar.
A autoestima que acompanha esse credo vai além da própria Copa do Mundo. O professor Luiz Antônio Simas disse no podcast “Como Nascem os Grandes” que Pelé e Garrincha, um negro e um indígena, eram a possibilidade de o Brasil funcionar como nação no tempo deles.
Agora Mano Brown aponta com frequência o paralelismo entre a carreira de Neymar e os movimentos estéticos e políticos da população negra no século 21.
Esse devir do moicano, da pele beijada pelo Sol, do tênis com terno e do funk fez meus parças e eu felizes numa época de RBD, Harry Potter, High School Musical, Messi, Cristiano Ronaldo e afins.
Os movimentos de Neymar colocaram um limite nesse identitarismo claro. O nosso identitarismo também ficou fragilizado. Nosso lobby não é tão bom assim.
É difícil convencer alguém que Neymar na Copa é abrir o caminho afrofuturista da seleção. Mesmo com Vini, Raphinha e outros citando a influência do parceiro na carreira. É ainda mais difícil convencer um italiano branco de tudo isso.
Também não basta dizer que alguns jogadores da lista de Ancelotti são reservas em seus clubes e nem sequer vivem um auge físico para aguentar a rotação do suposto futebol moderno.
Queremos Neymar na Copa porque torcemos pelo Brasil de Pelé e Garrincha. Se isso ajudar a ganhar o troféu, ótimo. Se for o motivo da derrota, pena. Ainda assim, o queremos. Por respeito ao legado daquele devir.
Autor: Folha








.gif)











