Finalmente assisti ao documentário mais falado aqui no Reino Unido nos últimos tempos: “Por Dentro da Machosfera“, de Louis Theroux, do qual sou fã há anos.
Theroux mergulha no universo podre da “machosfera“, a rede de masculinidade tóxica que se popularizou nas redes sociais e que doutrina jovens sobre a falsa superioridade dos homens sobre as mulheres. Os influenciadores que ele acompanha são tão patéticos quanto perigosos.
Um podcaster espalha desinformação e humilha mulheres em seu programa, com a desculpa de que gosta tanto delas que sabe “que querem um homem que possa guiá-las e dominá-las”. Um empresário amigo de Andrew Tate e apoiador de Donald Trump tem várias namoradas e classifica a relação com a mãe de seus filhos como “monogâmica unilateralmente” —”mulheres não precisam dormir com outros quando amam o seu homem”. Um influenciador “ensina meninos a ganhar dinheiro e serem homens de verdade”. A receita? Ter bíceps enormes e seguir seus conselhos de investimento. Theroux depois descobre que o cara é um charlatão.
Quando as câmeras os seguem nas ruas —porque, claro, eles querem mostrar que são populares—, os adolescentes, lavagem cerebral feita, parecem não acreditar. Pedem selfies e chamam de ídolos esses trastes que só conhecem por cenas curtas e editadas da internet. Como bom documentarista, Theroux não precisa ridicularizar ninguém —eles fazem isso sozinhos, com as insanidades que falam. “Por Dentro da Machosfera” parece a sequência da série “Adolescência“, só que na vida real.
Ambas mostram o óbvio —o que acontece quando pais, escolas e governos omissos permitem que crianças e adolescentes fiquem sem supervisão dentro do esgoto das redes sociais. A definição do pediatra Daniel Becker na Globonews, na época em que “Adolescência” virou febre mundial, é perfeita: não ter a senha do celular do seu filho é o mesmo que deixá-lo em uma festa com nazistas, racistas, misóginos e achar que está tudo bem.
Nesta semana, a Universidade de Oxford, aqui na Inglaterra, divulgou o Relatório Mundial da Felicidade. A publicação anual entrevistou 100 mil pessoas de 140 países e, pela nona vez seguida, a Finlândia foi eleita a nação mais feliz do mundo.
O relatório também mostrou o impacto do uso da internet na satisfação com a vida. Para surpresa de ninguém, quanto maior o uso de redes sociais com algoritmos e influencers, mais infeliz se é. Afeta principalmente quem tem até 25 anos e meninas.
O que isso tem a ver com uma coluna de esporte? Tudo. Todos esses mundos estão conectados.
A Finlândia, assim como o Brasil, é um país cercado de natureza e lugares para se explorar ao ar livre —o que tem relação direta com emoções positivas. E, ao trocarmos a solidão das telas pela prática de esportes e de atividade física, experimentamos a vivência em comunidade. Aprendemos a tomar nossas próprias decisões em vez de sermos influenciados por opiniões, falsas promessas e mentiras de quem nunca vimos na vida.
Parece natural e intuitivo, mas, às vezes, são precisos relatórios, documentários e séries para se ouvir e ver o óbvio. Em tempos de discussão sobre banimentos de redes sociais para menores, são mais uma amostra de que não existe nada mais incrível e enriquecedor do que o mundo real.
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Autor: Folha



















