Gabz, 26 anos de idade, está na contagem regressiva para o lançamento de Coração Acelerado, nova novela das 7, que estreia na segunda-feira (12). Na trama, ela interpreta Eduarda, cantora que forma dupla sertaneja com Agrado (Isadora Cruz). As duas vão ser conhecidas como “As Donas da Noite”.
Nascida no Irajá, no Rio de Janeiro, Gabz — registrada como Gabrielly Nunes — adotou o nome artístico por influência do hip hop, no qual está inserida desde a adolescência. “Para mim, é um grande desafio viver uma cantora sertaneja porque eu vim do hip hop. O sertanejo é um gênero completamente diferente, com técnicas vocais próprias. A preparação incluiu até aulas de violão”, diz.
Depois de ter protagonizado a novela Mania de Você (Globo, 2024), Gabz se sente pronta para o atual trabalho e diz que fez uma imersão em Goiás antes do início das gravações. “Foi enriquecedor porque sou muito carioca. Gosto de conhecer culturas e pessoas de diferentes lugares. Fiz muitas amizades e fui a barzinhos”, afirma.
Com o ritmo intenso de gravações, ela considera que namorar um profissional do meio — ela e o ator Jaffar Bambirra estão juntos desde novembro de 2024 — é um facilitador. “Fica mais fácil ter um parceiro que entende (a dinâmica da profissão). Sabemos que precisamos ter os nossos momentos, o dia do casal, longe de tudo, longe de preocupações.”
Quem: Como surgiu o convite para Coração Acelerado?
Gabz: Recebi o convite no fim de 2024. Já conhecia boa parte dos diretores dessa novela, eram pessoas com quem tinha trabalhado. Antes de começar a gravar, fui para Goiás e quis conhecer mais a região. Fiz essa imersão.
Gabz
Manoella Mello
Conseguiu explorar a região?
Eu vivi, eu realmente vivi ali. Acho importante para a nossa profissão. Foi enriquecedor para mim que sou muito carioca. Gosto de conhecer culturas e pessoas de diferentes lugares. Fiz muitas amizades, fui a barzinhos.
Você está com um novo visual. Como foi adotar esse cabelo curtinho?
Inicialmente, imaginava que ela fosse ter cabelão. Quando soube que a personagem teria curtinho e me mostraram o que estavam imaginando, fui entendendo que a estética do cabelo curto tem muito a ver com a Eduarda. Sou de topar tudo. A Eduarda é muito sagaz, muito vanguardista e o cabelo curtinho me trouxe características dela. A Duda é espoleta e o visual dá uma personalidade a ela.
Coração Acelerado terá uma pegada musical forte. Exigiu uma preparação específica?
Nossa novela é uma novela musical. Eu amo isso. Não estamos falando de uma novela com um número musical aqui, outro ali. Coração Acelerado tem personagens com carreira musicais. Vim do hip hop. Para mim, é desafiador viver uma cantora sertaneja. O sertanejo é um gênero completamente diferente, com técnicas vocais próprias. A preparação incluiu até aulas de violão.
Gabz
Estevam Avellar
Como foi entrar no universo sertanejo?
Gosto de música brasileira. Estou me divertindo muito ao estudar essa musicalidade. O sertanejo é profundamente brasileira, com sonoridades que conectam em toda a América Latina. Confesso que escutava mais forró, piseiro… Agora, estou mergulhando mais no universo sertanejo e conhecendo novos artistas. Quando inicio um trabalho, gosto de encontrar o personagem dentro de mim. Comecei a pesquisar sobre os cantores e cantoras negros do sertanejo. E fui descobrindo muitos aspectos legais que nós, aqui do Sudeste, não temos conhecimento. A Eduarda, minha personagem, é supercontemporânea. É uma menina órfã, que veio de baixo e se vira para realizar o sonho de ser cantora.
Quando você era criança, conseguia vislumbrar seria possível trilhar a carreira artística?
Tive uma bolsa de estudos no Tablado (curso de teatro no Rio de Janeiro). Entrei com 8, 9 anos. Não era uma criança que pensava em todas as possibilidades, mas observava os espaços que as pessoas ocupavam. Vim do Irajá, andava muito de transporte público. Lá, os vendedores criam personagens para as vendas. Ainda criança, achava isso demais. Achava que os vendedores dos coletivos também eram artistas.
Gabz
Manoella Mello
Como enxerga a representatividade no meio artístico atual?
Estamos no caminho. Temos artistas, mas também queremos autores e diretores negros. Venho de uma realidade em que o meio artístico é algo muito distante. E, no ano passado, estive no Emmy. No meu bairro e adjacências, ninguém nunca esteve lá. Era um lugar inimagivável para estar. Temos um problema de memória prejudicial. Não podemos esquecer de quem veio antes. Não pode existir o apagamento de figuras.
Quem eram suas referências?
Meu pai sempre me mostrou as nossas referências. Sei quem é Zezé Motta desde que sou muito novinha, fui apresentada aos primeiros trabalhos do Lázaro Ramos. Ainda criança, conheci a Taís Araujo porque cheguei a interpretar um personagem dela na infância. Isso foi um divisor de águas na minha vida. A Taís é um referência para mim. Meu pai, ainda nova, me contou a história da Hattie McDaniel, atriz que foi segregada no Oscar. [Hattie McDaniel foi a primeira pessoa negra a ganhar um Oscar, como Melhor Atriz Coadjuvante pelo filme E o Vento Levou…, mas as leis de segregação racial da época, ela foi forçada a sentar em uma mesa separada dos colegas brancos e precisou de autorização especial apenas para entrar no local da cerimônia].
Gabz
Estevam Avellar
Você já teve a sensação de “cheguei lá”?
Tive diferentes sensações de “cheguei lá”. Quando passei em Malhação, foi uma conquista muito forte. Quando minha família conquistou uma casa própria, foi outro “cheguei lá”. Sei que ainda tenho muito a conquistar, mas acho que o “cheguei lá” tem que ser coletivo. É ótimo que muitas meninas estejam chegando. Não tem mais aquele lance de ser ‘a negra única’ da televisão. Temos que seguir construindo caminhos.
“É ótimo que muitas meninas estejam chegando. Não tem mais aquele lance de ser ‘a negra única’ da televisão”
E fora das gravações? Como aproveita os momentos off?
O ano de 2025 foi muito intenso para mim. Fiz a minha primeira viagem internacional, por exemplo. Sei que preciso ter os meus momentos. Tenho ansiedade diagnosticada. Aprendi na marra que preciso ter o meu momento para mim.
Gabz
Manoella Mello
Quando você teve esse diagnóstico?
Há dois anos, aproximadamente, e cuidava disso mais ou menos. Quando iniciei o trabalho em Mania de Você, percebi que precisava mudar meu estilo de vida. Eu já malhava, me cuidava, mas percebi que precisava me estruturar. Percebi que preciso do meu tempo com minha família, do meu tempo sozinha. Quando fiz Mania de Você, eu tinha o trabalho acima de tudo, aquela necessidade de dar tudo certo. Faço exercícios diariamente antes de gravar. Precisamos deixar a vida gostosinha, dar uma romantizada. Ao fim do dia, nossa cabeça tem que estar bem. Se não estiver, de nada adianta. Nossa geração precisa tomar consciência de que é importante estar bem com a nossa cabeça, sem se importar com pressões externas.
“Precisamos deixar a vida gostosinha, dar uma romantizada. Ao fim do dia, nossa cabeça tem que estar bem”
Consegue estabelecer rotina em seu dia a dia? Curtir o namorado, a família?
A nossa profissão não tem rotina. Ainda bem que namoro um ator, fica mais fácil ter um parceiro que entende isso. Sabemos que precisamos ter os nossos momentos, o dia do casal, longe de tudo, longe de preocupações. Isso não pode ser visto como obrigação. Fico muito feliz em fazer novela porque posso passar mais tempo com a minha avó, conviver mais com ela nessa fase de ‘vovozice’. Valorizo demais. A minha avó era quem me levava às aulas de teatro, de balé… Ela adora me assistir e está superfeliz que vou fazer novela das 7 para não ter ficar acordada até tarde, como numa novela das 9 (risos). Ela tem 85 anos e é uma pessoa muito importante para a nossa família.
Jaffar Bambira e Gabz
Reprodução/Instagram
Sua ligação familiar é forte?
A minha família me mantém sã. Quando era mais jovem, tive uma vida ainda mais corrida. Aos 18, 19 anos, eu viajava, morava em outro estado, trabalhava em duas coisas ao mesmo tempo. Hoje, consigo ter uma tranquilidade maior e proporcionar uma tranquilidade maior para minha família. Minha base é o Rio, mas em séries e filmes, muitas vezes acabamos passando mais tempo em outros lugares.
Você falou do seu início no meio artístico. Como veio a decisão de passar a assinar como Gabz em vez de Gabrielly?
Venho do hip hop e é um universo em que temos essas alcunhas, um ‘vulgo’, para as batalhas. Quando fui para a minha primeira batalha, não planejei nada. Estava aleatória na situação. Escolhi Gabz e acabou ficando. Na minha primeira poesia de slam (competições de poesia urbana), eu começo falando ‘se ao menos eu soubesse meu primeiro sobremome’. Afinal, na história do Brasil, não temos os nossos sobrenomes de origem africana. Os sobrenomes africanos foram modificados. Adotei Gabz como uma forma de mostrar que o hip hop é o meu berço — meu berço com muito orgulho. Escolhi esse nome artístico para lembrar de onde eu vim. Eu costumava brincar falando que mesmo que fosse pro sertanejo, eu iria lembrar que vim do hip hop. E hoje estou como? Fazendo o papel de uma cantora sertaneja (risos).
“O hip hop é o meu berço — meu berço com muito orgulho”
Acha que ainda há muito preconceito com o hip hop, no sentido de ser margilizado e julgado como uma arte menor? Ou isso já mudou?
Como todo ritmo que vem da periferia, o hip hop sofreu alguma resistência. Porém, não tem como negar o crescimento. O hip hop é mais que um gênero musical, é um movimento, é multidisciplinar. O hip hop é uma forma de ver o mundo. Fala sobre a vivência do jovem. Temos histórias de muitas pessoas que ascenderam socialmente pelo hip hop. Quando eu era mais nova — minha mãe que me perdoe, ela nem sabia disso na época — eu saía de casa. Eu e meus colegas íamos disfarçados para as batalhas de rima, passávamos pelo Ceasa (Central de Abastecimento do Estado do Rio de Janeiro, localizada no Irajá, bairro onde Gabz cresceu), para ir em busca dos nossos locais de lazer, para fazer nossa própria arte. Aprendi muito sobre a arte nas batalhas de hip hop.
Gabz
Manoella Mello
Quando o hip hop entrou na sua vida?
Como fã, aos 12, ouvindo Racionais. Depois, entre 15 e 16, comecei a frequentar. Ver as batalhas de rima era a minha opção de lazer perto de casa. Minha primeira batalha foi aos 17 anos. Meus amigos me incentivaram.
Para 2026, o foco é total na novela ou tem planos paralelos?
Como estou em uma novela, o foco tem que ser 110% na novela, mas quero ter projetos além da atuação.
Gabz
Estevam Avellar
Autor Original





