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Como vinhos de altitude transformam a região mais fria do Brasil

Quando plantou as primeiras mudas de uva há quase 25 anos, no frio da serra catarinense, o empresário Everson Suzin apostava em um projeto incerto. Hoje, ele integra um setor que cresce acima de 900 metros de altitude e ajuda a consolidar a região como referência nacional em vinhos finos — os chamados vinhos de altitude.

O que parecia improvável no início dos anos 2000 — produzir rótulos de alta qualidade em uma das regiões mais frias do país — virou uma atividade sofisticada, em expansão e com reconhecimento de mercado. A trajetória de Suzin acompanha a evolução do setor.

O investimento surgiu a partir de um movimento de empresários locais, incentivados por estudos técnicos e experiências internacionais. “A Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina (Epagri) dizia que a região tinha potencial. Meu pai foi para a Itália, gostou do que viu, e eu ergui a bandeira do vinho”, afirma o empresário.

Sem conhecimento prévio, o caminho foi estudar. “A gente não sabia nada, mas via potencial”, conta. Ao longo dos anos, ele acumulou especializações e até um mestrado em vitivinicultura. “É estudo contínuo.”

Apesar da valorização, o retorno é gradativo. “O payback — tempo necessário para recuperar o capital investido — pode chegar a 12 ou 15 anos”, afirma. Segundo Suzin, o diferencial está na agregação de valor. “Produzir só a uva não se paga como outras culturas. O ganho está no vinho — mas exige estrutura, investimento e marca”.

parreira carregada com uvas verdes usadas para vinhos de altitude
Na serra catarinense, a produção de vinhos de altitude combina clima rigoroso, técnica e investimento. (Foto: Matheus Luís Docema/Acervo pessoal)

A Vinícola Suzin, localizada em São Joaquim (SC), produz entre 90 e 105 toneladas de uva por ano, o que resulta entre 45 mil a 60 mil garrafas para vinificação própria, conforme a safra. O restante da uva é vendida para outras vinícolas da região.

O principal risco segue sendo o clima. Geadas tardias podem comprometer toda a produção. “Tivemos geada em novembro que destruiu o vinhedo inteiro”, relata o empresário.

Ao mesmo tempo, é esse ambiente que propicia a identidade do produto. A colheita tardia permite maior maturação das uvas. O resultado são vinhos com teor alcoólico elevado (até 15,9%), boa acidez, taninos mais concentrados e maior intensidade de cor.

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Altitude, frio e solo criam vinhos mais complexos

Os vinhos de altitude têm como diferencial a combinação de clima, solo e altitude. Segundo o pesquisador em fitotecnia da Epagri, Matheus Luís Docema, o frio, a amplitude térmica e a radiação solar fazem com que a uva amadureça mais lentamente. “Isso favorece a concentração de aromas e o equilíbrio entre açúcar e acidez”, explica.

Os solos rasos e pedregosos limitam a produtividade e elevam a qualidade da fruta. O ciclo mais longo da videira também contribui para vinhos mais estruturados e complexos. Entre as principais cultivares estão Cabernet Sauvignon, Merlot, Pinot Noir, Cabernet Franc, Montepulciano e Sangiovese, além de Sauvignon Blanc e Chardonnay.

De acordo com a Epagri, Santa Catarina tem cerca de 40 propriedades vitivinícolas. Destas, 27 integram Vinhos de Altitude Produtores e Associados de Santa Catarina, que detém a Indicação de Procedência (IP), reconhecida em 2021 pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (Inpi).

As 27 propriedades somam aproximadamente 250 hectares de vinhedos em altitude e uma produção anual próxima de 1 milhão de garrafas. A certificação não abrange todos os produtores e exige regras rigorosas: uso exclusivo de Vitis vinifera, cultivo acima de 840 metros e limites de produtividade.

Também há exigências mínimas de maturação — 12% de graduação alcoólica potencial para tintos, 11,5% para brancos e 11% para rosados. O selo garante origem, qualidade e rastreabilidade.

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Faturamento cresce 593% em uma década

A vitivinicultura de altitude se consolidou como um vetor econômico relevante na serra catarinense. De acordo com dados da Associação Vinhos de Altitude Produtores e Associados, as 27 vinícolas que integram a entidade geram cerca de 800 empregos diretos e indiretos.

Em dez anos, a área plantada cresceu 315%, passando de 74,8 hectares, em 2013, para 235,5 hectares em 2023. O faturamento avançou 593% no período, passando de R$ 7,55 milhões para R$ 44,81 milhões.

A eficiência também aumentou, com crescimento de 88% no faturamento por hectare. As vinícolas associadas estão distribuídas pelos municípios de São Joaquim, Videira, Urubici, Urupema, Campo Belo do Sul, Rancho Queimado e Bom Retiro. A produção anual gira em torno de 1 milhão de garrafas e quase triplicou.

uma carreta com caixas vermelhas com uva dentro e um homem arrumando elasA altitude e o clima da região são a combinação para uma maturação lenta das uvas e vinhos com maior intensidade e estrutura. (Foto: Divulgação/Vinícola Suzin)

A qualidade acompanha o avanço. Nos últimos quatro anos, foram lançados 260 novos rótulos, que somam cerca de 180 premiações. O enoturismo é um dos principais motores desse crescimento e responde por 38% do faturamento — R$ 17,04 milhões em 2023. Em 2024, 55 mil garrafas foram certificadas após análises técnicas, reforçando o padrão de qualidade dos vinhos catarinenses.

Um dos principais impulsionadores desse movimento é a Vindima de Altitude de Santa Catarina, realizada há mais de uma década e que ocorre entre março e maio, atraindo cerca de 50 mil visitantes por ano.

O impacto se espalha pela economia regional. Hotéis e pousadas registram alta ocupação fora da temporada de inverno, restaurantes ampliam a oferta e a qualificação profissional abre novas oportunidades. “A representatividade do setor vai além da produção. Há impacto direto na qualidade de vida, no surgimento de novos negócios e na formação profissional”, afirma Diego Censi, presidente da associação.

Autor: Gazeta do Povo

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