Até pouco tempo, o nome de Nick Land circulava apenas entre subcorrentes acadêmicas e políticas. No entanto, com o avanço da inteligência artificial, seu nome passou a ser citado por bilionários de tecnologia como Elon Musk. Chegou inclusive a virar assunto no programa de Tucker Carlson nos Estados Unidos, sinal de que entrou no “mainstream”.
Land é um dos principais expoentes do pensamento chamado de “aceleracionismo tecnológico”. Na sua visão, a humanidade não tem nada de especial e seu destino é ser substituída por tecnologias inteligentes. Ele enxerga o capitalismo em si como a primeira forma de “inteligência artificial”. Ao avançar, toma decisões para perpetuar a si próprio, sem apego nenhum ao ser humano, suas tradições e instituições. Tudo é consumível no seu movimento prometeico.
Land não chegou nessas ideias em uma linha reta. Ao contrário. Sua carreira intelectual começou na Unidade de Pesquisa de Cultura Cibernética (CCRU) da universidade de Warwick, cofundada por ele em 1995. Lá, era conhecido por fazer performances misturadas com trabalho acadêmico. Em uma, ele rolava no chão enquanto grunhia no microfone ao som de música eletrônica. O que deixava colegas indignados, que olhavam para aquilo torcendo o nariz enquanto abandonavam a sala dizendo “alguns de nós ainda somos marxistas”. E vale lembrar que o CCRU foi também o berço de Mark Fisher, o K-Punk, pensador muito diferente de Land e que já chamei aqui na coluna de “um dos mais potentes para entender o mundo contemporâneo”.
No seu período em Warwick, as ideias de Land eram o oposto das de hoje. Ele postulava que a principal forma de agência humana era justamente a oposição ao capitalismo. O problema filosófico que ele sempre atacou foi o da centralidade do ser humano. Na sua visão, a existência da morte mostra que somos limitados e não temos nada de especial. Seu pensamento, no entanto, mudou radicalmente. Ele teve uma crise nervosa no início dos anos 2000 (creditada por alguns de seus estudantes ao uso de anfetaminas) e se retirou da vida pública por mais de uma década.
Quando retornou, havia mudado sua perspectiva a partir de uma releitura de Deleuze e Guattari. Ele pegou o modo como a dupla descreve o funcionamento do capitalismo de forma crítica e se livrou da crítica. Colocou o capitalismo como a forma mais importante de “inteligência”, que seria mais uma prova da sua tese de que a humanidade não é central.
Para Land, o capitalismo (ainda mais agora com a inteligência artificial) não precisará mais do trabalho humano. Será capaz de produzir e avançar sozinho, tornando os humanos finalmente supérfluos. Essa é sua ideia de aceleracionismo.
O que acho disso tudo? Estou na companhia do filósofo Yuk Hui. Ele certa vez me disse que estamos diante da inversão presente na parábola do “Grande Inquisidor” de Dostoiévski nos Irmãos Karamazov, em que a salvação passa a vir daquilo que só o diabo pode oferecer. Se você não a leu, leia. Se já leu, releia.
Já era – solucionismo tecnológico
Já é – ceticismo tecnológico
Já vem – aceleracionismo tecnológico?
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Autor: Folha








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