A bomba de combustível é o grande foco de atenção no campo eleitoral. Desde que os Estados Unidos e Israel iniciaram a ofensiva contra o Irã, em 28 de fevereiro, o preço do diesel acumulou alta de mais de 20%, segundo a ANP. A gasolina já ultrapassa R$ 9 em alguns estados.
O fechamento do Estreito de Hormuz, por onde escoa 20% do petróleo mundial, transformou uma guerra distante e sem conexão direta com o Brasil numa crise que chegou ao bolso e, principalmente, à mesa dos brasileiros. Em ano eleitoral, isso pode ter impacto direto na preferência dos eleitores.
Segundo os dados da Palver, que analisa em tempo real mais de 100 mil grupos públicos de WhatsApp e Telegram, o tema dos combustíveis teve seu pico nos dias 18 e 19 de março, quando os caminhoneiros intensificaram a articulação por uma greve nacional.
Gasolina e diesel dominam, mas é Lula quem aparece com mais força no debate, somando aproximadamente 16,3% das menções, contra 6,4% de Bolsonaro e 3,7% de Trump. Nos grupos de mensageria, portanto, a crise do combustível já é, antes de tudo, uma crise de governo.
Entre as mensagens com conteúdo político identificável, 33,9% são críticas diretas ao governo Lula. A narrativa dominante aponta que haveria contradição ao modo como foram tratadas a redução de impostos feita por Bolsonaro em 2022 e o pacote de desoneração anunciado por Lula em 12 de março. Essa linha argumenta que, enquanto a primeira foi tratada como manobra eleitoral, a segunda teria sido vista como responsável.
Os usuários, contudo, não levam em conta a diferença de contexto que serviu de motivação para as decisões. Outra linha forte acusa o governo de ineficiência, uma vez que, no dia seguinte ao anúncio da zeragem do PIS/Cofins sobre o diesel, a Petrobras reajustou o combustível em R$ 0,38, anulando parte do alívio prometido. A Petrobras, nesse caso, entendida também como sendo parte do governo.
Essa frustração não vem apenas de grupos alinhados à oposição. As mensagens mais compartilhadas incluem relatos de caminhoneiros autônomos com diesel acima de R$ 8 no Centro-Oeste e filas em postos de São Paulo. A ameaça de greve, suspensa no dia 19 com prazo de sete dias ao governo, empurrou o debate para fora das bolhas políticas tradicionais, visto que pode afetar o cotidiano dos brasileiros.
Do outro lado, 26,1% das mensagens defendem as medidas do governo, enquanto 26,2% atribuem a culpa da crise a Trump e aos EUA. Essas narrativas se complementam, pois primeiro elencam a guerra no Irã como causa da disparada do petróleo, depois elogiam as ações do Planalto, como a zeragem de tributos federais, a MP da subvenção de R$ 0,32 por litro e a fiscalização em mais de mil postos. A mensagem governista mais encaminhada defende que o povo brasileiro não pode pagar o preço da guerra do Irã.
O problema para o governo é a percepção e também o momento da crise. Mesmo com a liberação do pacote que pode chegar a R$ 30 bilhões até o fim de 2026, o consumidor, nesse momento, percebe o preço subindo, não descendo. A defasagem entre anúncio e efeito real na bomba alimenta a desconfiança e dá munição à oposição.
Flávio Bolsonaro, já competitivo nas pesquisas de segundo turno, colhe o tema eleitoralmente sem precisar propor alternativas concretas.
O que os grupos revelam é que a crise dos combustíveis já ganhou a atenção do debate político. A despeito das ações que estão sendo tomadas, no ambiente digital a realidade é criada por quem chega primeiro com a narrativa mais adequada.
Com nova assembleia de caminhoneiros marcada para o dia 26, a capacidade de negociação do governo e a decisão da assembleia servirão como um termômetro de qual deve ser o tom da corrida de 2026.
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Autor: Folha








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