O YouTube decidiu acrescentar uma ferramenta para limitar o acesso de menores ao Shorts, uma seção da plataforma que lembra o TikTok, após “concluir que os formatos mais curtos podem levar a um consumo maquinal de conteúdo”, disse a diretora de assuntos governamentais da empresa, Alexandra Veitch.
Na semana passada, a plataforma de vídeo lançou controles parentais para permitir que os pais definam um teto de tempo ou bloqueiem o acesso de crianças e adolescentes ao Shorts, além de lembretes de “hora de dormir” e de “tome um tempo”.
Veitch, que conversou com a Folha por videoconferência do seu escritório em Washington, diz que nenhum dos concorrentes, TikTok e Instagram com os Reels, permite o bloqueio total ao acesso de vídeos curtos. “O Instagram não tem ferramenta alguma enquanto o TikTok permite limitar o acesso a cinco minutos. Nós vamos até o zero e estamos tentando dar um exemplo ao setor.”
O público menor de idade da plataforma é relevante e mais engajado do que a média dos usuários. O perfil mais seguido do YouTube, MrBeast, já divulgou que a faixa etária mais comum entre seus fãs é a de 13 a 17 anos. No Brasil, o canal do ator Luccas Neto tem 53,5 milhões de assinantes.
De acordo com a diretora de assuntos governamentais, o YouTube abre mão de negócios para tornar o site mais saudável para crianças e adolescentes. “Nós somos a única companhia que impede que marcas direcionem seus anúncios a menores de idade”, diz. E os anúncios direcionados, acrescenta ela, acertam mais e, por isso, vendem mais.
A diferença do YouTube para a concorrência, afirma a executiva, é justificada por uma ferramenta de verificação de idade que chega ao Brasil nesta sexta-feira (23).
O recurso funcionará com base no comportamento do usuário, analisando o que e com que frequência a pessoa busca e assiste —até o que comenta. “Quando verificarmos que um usuário tem menos de 18 anos, nós vamos desligar os anúncios personalizados.” Antes, a idade no site era declarada.
De acordo com Veitch, o novo recurso não irá solicitar dados além do que os já coletados pelo YouTube nem envolverá reconhecimento facial, como fazem outras plataformas —isso só é possível porque a plataforma retém uma enorme quantidade de informações sobre as pessoas.
Quem for marcado como menor de idade erroneamente, poderá recorrer apresentando um documento ou cartão de crédito. Esses dados serão descartados após a avaliação do recurso, diz o gigante dos vídeos.
A executiva diz que a expansão da tecnologia para o Brasil já estava no cronograma da empresa ainda antes da aprovação do ECA Digital tornar a verificação de idade obrigatória a partir do próximo mês de março —a fiscalização deve começar só no segundo semestre do ano que vem, por decisão da ANPD (Autoridade Nacional de Proteção de Dados).
Porém, o YouTube começou a usar a ferramenta de verificação de idade em alguns países da Europa em fevereiro do ano passado, após reveses judiciais. Em julho, a empresa decidiu levar o recurso para os Estados Unidos de forma voluntária.
O YouTube é controlado pela Alphabet, também dona do Google. A tecnologia deve chegar a todas as plataformas do conglomerado no país.
“O Brasil é um mercado prioritário para o Google e tem a quinta maior base de usuários do YouTube.”
A plataforma de vídeo, além de bloquear para menores de idade os conteúdos que mencionem, por exemplo, suicídio, aborto ou contenham violência explícita, irá adaptar o algoritmo de recomendação para indicar conteúdo mais adequado para o público mais jovem —essa é uma das tecnologias mercadológicas para manter o usuário mais tempo online.
“Se uma adolescente estiver procurando uma atividade física, em vez de indicar um exercício que seria propício para mim, que tenho 45 anos, ele vai direcionar para um esporte que faça sentido”, afirma a executiva.
Ao mesmo tempo, o YouTube atualizou as regras para temas considerados ‘polêmicos’, a exemplo de aborto e automutilação. A mudança permite o pagamento por anúncios em vídeos com debates que não apresentem conteúdo visual explícito.
A medida, segundo a empresa, visa dar mais liberdade para os produtores de vídeos. “O sustento dos criadores de conteúdo depende fundamentalmente da publicidade, e a monetização é o motor que impulsiona o ecossistema do YouTube”, diz Veitch.
Ela ressalva que o fato de um vídeo gerar receita não garante que ele seja recomendado para menores.
“Para conteúdos considerados inadequados para o público jovem, a política da plataforma prevê uma redução no alcance e no número de visualizações, independentemente de o vídeo estar ou não monetizado.”
RAIO-X – YOUTUBE
Faturamento (2024, dado anual mais recente): US$ 54,2 bilhões, no mundo (inclui receita de anúncios e assinaturas Premium/TV)
Audiência: Mais de 2,7 bilhões de usuários ativos por mês
Funcionários: 183.323 (total da holding Alphabet)
Principais concorrentes: TikTok, Meta (Instagram e Reels), Netflix e Disney+
Autor: Folha







