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Por que o público busca pela família de famosos? – 23/01/2026 – Equilíbrio

Quando um artista recebe uma grande honraria, seja no cinema ou na música, é natural que o interesse do público se volte para a obra que o consagrou. Ainda assim, em meio às buscas, costuma se destacar um tipo específico de curiosidade: a vida pessoal, que frequentemente serve de matéria-prima para o prazer da fofoca.

No cinema, exemplos não faltam. Foi o que se observou quando Wagner Moura venceu o Globo de Ouro de melhor ator em filme de drama por “O Agente Secreto“. Entre as pesquisas mais frequentes sobre o ator após o prêmio estavam aspectos de sua vida privada, como “quem é a esposa” e “quem são os filhos“.

Situação semelhante havia ocorrido no ano anterior com Fernanda Torres, vencedora também do Globo de Ouro por “Ainda Estou Aqui“. Dados do Google Trends indicam que, nos dois casos, houve picos de buscas por informações sobre os filhos dos artistas.

Segundo especialistas, o fenômeno tem raízes simples. Ele se apoia em um traço humano fundamental: a curiosidade. A psicanalista Maria Homem, que também é professora e escritora, a define como uma pulsão básica, quase basal, da experiência humana.

Há também um componente de identificação com figuras públicas. “Quando a gente vê esse lado corriqueiro, familiar, trazemos essa personagem de volta para o nosso cotidiano. O ator foi premiado com uma das maiores honrarias do cinema e, ao mesmo tempo, vive coisas comuns: é casado, tem filhos”, explica o doutor em ciências sociais Luís Mauro Sá Martino.

De acordo com ele, esse mecanismo reduz a distância simbólica entre o famoso e a pessoa comum. Assim, a celebridade deixa de ser percebida apenas como alguém fora da realidade e passa a parecer mais próxima quando surgem sinais de rotina e vida doméstica.

Martino acrescenta que a curiosidade também envolve imaginação e projeção. “Saber da vida de outras pessoas, sobretudo das famosas, alimenta a nossa imaginação. É um material precioso para sustentar alguns dos nossos sonhos e para construir imagens sobre quem essas pessoas são.”

Esse processo se conecta diretamente à lógica da fofoca. A vida alheia fornece o alimento necessário para que se construam narrativas, se reorganizem fatos e se criem versões sobre a realidade, muitas vezes desvinculadas do prêmio que tal artista ganhou.

Há, no entanto, um efeito colateral. Esse interesse desloca o foco daquilo que sustenta a trajetória pública dessas figuras e faz com que se perca a oportunidade de aprofundar a conversa sobre o trabalho e o processo criativo do artista, diz a psicanalista Carol Romano, autora do livro “Por que as Relações Importam (Tanto)?”, da editora Amarilys.

Perguntas como “quem é a esposa de Wagner Moura” acabam recebendo mais atenção do que o fato de ele ter conquistado um prêmio internacional.

Para Maria Homem, é justamente na superfície que se projetam conteúdos mais profundos do inconsciente. O exame da aparência e da vida íntima de uma celebridade revela angústias do próprio público relacionadas a status, poder, dinheiro e ao lugar que cada um ocupa no grupo social.

“O que está em jogo, consciente e inconscientemente, é qual é o meu valor. E o valor é sempre relativo: o que eu valho depende do que o outro vale e do que o outro acha que eu valho”, afirma Homem.

Nesse contexto, a vida privada do artista passa a operar como um produto de fácil consumo. Na lógica da cultura do espetáculo, relações, aparência e rotina transformam-se em mercadorias simbólicas, prontas para circulação.

Esse processo se insere em um movimento mais amplo de esvaziamento do interesse pelo que é público (ideias, política, arte) em favor de uma invasão e supervalorização do privado.

“Essa indústria cultural vai focando cada vez mais o indivíduo. É um tipo de soft power que, desde a invenção do cinema, no fim do século 19, passou a mostrar o interior das casas e das vidas. A televisão intensificou isso, e as redes sociais levaram essa lógica à enésima potência”, afirma Maria Homem.

O peso da imagem chega a tal ponto que parte do público se pergunta, por exemplo, se Wagner Moura tem Instagram –o que não tem. Para Homem, essa ausência frustra a lógica da validação constante ao mostrar que o ator pode exercer sua potência artística sem transformar sua vida cotidiana em conteúdo ou mercadoria. Justamente por isso, a curiosidade em torno de sua intimidade tende a se intensificar.

Autor: Folha

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