quinta-feira, março 26, 2026
28.4 C
Pinhais

Por que a comida desce pelo tubo errado? – 26/03/2026 – Suzana Herculano-Houzel

Minha mãe não come mais pipoca. Lépida e fagueira aos 80 anos, mas tendo tido vários sustos com engasgos, ela teme novos episódios e evita comer tudo o que tenha pedacinhos que possam descer pelo lado errado e bloquear a respiração. A causa do problema é o que poderia ser chamado de um erro grave de design, se tivesse sido de fato planejado por alguém: a entrada compartilhada pela mesma abertura, a faringe, no fundo da boca, de ar e comida que depois devem seguir cada um pelo seu próprio tubo, respectivamente a laringe e o esôfago.

É bem ideia de jerico, mesmo. O equivalente em engenharia seria criar uma garrafa térmica onde se jogam água e pó de café juntos, mas, como essa garrafa foi feita com duas saídas diferentes, uma para cada coisa, o engenheiro espera que a água ache magicamente a sua saída e escoe pelo tubo certo com zero pó de contaminação e sem entupimentos impedindo sua passagem. Não vai acontecer.

A versão biológica da coisa funciona porque, na garganta, os dois tubos não são estáticos, e existe um cérebro coordenando como eles se movem. O ato de engolir, que envolve vários músculos, seus nervos e os neurônios de origem que controlam a coisa toda, inclui a elevação da laringe (o tubo que leva aos pulmões) ao encontro de uma cartilagem bem em seu topo, a epiglote. Você pode comprovar isso agora mesmo: coloque os dedos na garganta, logo abaixo do seu queixo, e engula em seco, e você sentirá a laringe subindo conforme você engole.

O ato de engolir, portanto, move a laringe contra a epiglote, efetivamente fechando a laringe e impedindo a passagem de água e comida por ela, que assim só podem descer pelo tubo “certo”: o esôfago, a caminho do estômago. Na enorme maioria dos milhões de engolidas ao longo de uma vida humana, dá tudo certo. Mas engasgos acontecem se a movimentação for incompleta, descoordenada, ou quando, na ânsia de dizer algo, se inspira para falar enquanto ainda há água, saliva ou comida na faringe. O risco de morte nesses casos é enorme e real, caso um pedaço de comida obstrua a passagem de ar, ou acabe nos brônquios, causando pneumonia.

Mas nada disso responde à pergunta mais básica: como é que acabamos com um sistema desses? E isso não se aplica apenas a nós humanos; todos os vertebrados que respiram ar têm o mesmo problema de um só canal de entrada para ar, água e comida. A resposta tradicional, “porque isso é vantajoso e foi selecionado”, é absolutamente insatisfatória.

Descobri recentemente uma resposta muito melhor, estudando como o sistema respiratório evoluiu. São raros os animais que possuem um: apenas artrópodes (como insetos e crustáceos), os moluscos cefalópodes (como o polvo), e os vertebrados (como nós). Em cada um desses animais, o sistema respiratório se forma de um jeito diferente. Em insetos, as traqueias são dobras da pele que adentram o corpo na forma de canais, com zero risco de entupimento por comida. Em vertebrados, os pulmões crescem a partir de abas do tubo digestivo. Como o lado de dentro do tubo digestivo ainda é o lado de fora do corpo (não é extraordinário se dar conta disso?), os pulmões trocam ar com o mundo literalmente na aba do tubo digestivo, levando ar ao interior do corpo.

É o que é, e em geral funciona, então… estamos aqui. No mais, é fazer uma coisa de cada vez, com atenção: ou bem se come, ou bem se fala.


LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

Autor: Folha

Destaques da Semana

Temas

Siga-nos

Conheça Nosso Guia de Compras

spot_img

Artigos Relacionados

Categorias mais Procuradas