Em 1995, Simone Regina Lima Queiroz tinha uma carreira de fotógrafa, uma filha recém-nascida e um diagnóstico que mudaria tudo. Keyla nasceu com um câncer raro na base da coluna, e, enquanto Simone acompanhava a menina no hospital, seus próprios exames revelaram que um rim havia parado e que o outro funcionava com 30% da capacidade.
Ficou seis meses internada, mais de três na UTI, fez diálise peritoneal, pegou peritonite e migrou para a hemodiálise vascular. Três sessões por semana, de quatro horas cada uma. A câmera fotográfica ficou de lado, e os equipamentos foram sendo vendidos aos poucos para ajudar a custear o tratamento.
Keyla se curou e cresceu. Hoje tem 31 anos e é designer gráfica em Curitiba. Simone ficou sete anos na hemodiálise antes de conseguir o primeiro transplante, em 2003, no Einstein Hospital Israelita, pelo Proadi-SUS (Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do Sistema Único de Saúde).
O rim funcionou por 13 anos —mais do que ela esperava. Em 2016, Simone voltou para a lista de espera com um problema novo. Seu corpo havia acumulado anticorpos contra a maioria dos potenciais doadores. O nefrologista Marcelino Durão, que cuidou de Simone, explica que há três vias principais pelas quais o organismo pode desenvolver esses anticorpos: a gestação, as transfusões ao longo do tratamento e a realização de um transplante anterior. Simone reunia as três.
Os anticorpos reconhecem o órgão novo como estranho e podem destruí-lo. O painel de anticorpos de Simone chegou a 99% —ou seja, revelou incompatibilidade com 99% dos doadores. Entre 2017 e 2025 o sistema registrou 1.800 ofertas recusadas. “Numa época, num mês só, eu perdi 400 rins”, conta a paciente. Os órgãos eram ofertados, mas, na hora de fazer os exames de rejeição, eles não eram aprovados.
Estima-se que cerca de 30% dos pacientes na lista de espera tenham algum tipo de anticorpo contra doadores. Os chamados hipersensibilizados, aqueles com painel igual ou maior que 80%, representam entre 12% e 15% desse universo.
Quando o médico propôs o protocolo de dessensibilização, tratamento para baixar os anticorpos e viabilizar o transplante, Simone inicialmente disse não. Mas seus acessos vasculares —por onde são feitas as infusões— estavam se esgotando. Braço comprometido, pescoço com trombose; só as pernas restavam, e elas precisavam estar intactas para o transplante. Sem acesso, sem diálise.
“O médico me disse: ‘Simone, você está numa bifurcação. Ou você planeja fazer esse tratamento ou a gente não sabe o que pode acontecer. Você agora não tem escolha’”, lembra.
Depois de iniciar o acompanhamento psicológico, ela chegou à mesma conclusão que o médico. “Eu vi que não tinha jeito: se eu queria viver, eu tinha que batalhar por essa nova oportunidade.”
O tratamento começou em maio de 2024 com uma sequência de vacinas para garantir proteção antes de baixar a imunidade. Em junho vieram as primeiras doses mensais de tocilizumabe, imunossupressor que prepararia o organismo para a etapa seguinte.
O tocilizumabe é um anticorpo monoclonal que bloqueia a IL-6, uma proteína do sistema imunológico responsável por estimular a produção dos anticorpos que inviabilizavam o transplante. O medicamento reduz parcialmente esses anticorpos, e o que sobra é removido pela plasmaférese, procedimento em que o sangue do paciente passa por uma filtragem.
Nos primeiros dias de internação era uma diálise ou uma plasmaférese por dia, mas quando os médicos viram que Simone estava tolerando bem passaram a fazer os dois no mesmo dia. “São tratamentos bastante dispendiosos do ponto de vista financeiro e que expõem os pacientes a um risco maior de infecções”, diz o médico. “Mas isso é necessário para que o transplante, nessa situação, seja viável.”
Ao final, o painel de anticorpos caiu de 99% para 26% —isso significa que 74% dos doadores passaram a ser potencialmente compatíveis. Uma rara janela de oportunidade.
Simone foi chamada no dia 7 de janeiro de 2025, e a cirurgia aconteceu no dia 8. No pós-operatório surgiu uma complicação, uma deiscência —abertura no abdômen por falha na cicatrização que exigiu uma segunda cirurgia na sequência. A alta veio somente dois meses depois, em 1º de março. “Dramático”, resume Durão. “No caso dela não havia outra alternativa.”
Em setembro de 2025, o Ministério da Saúde publicou a portaria 8.041, que inclui diretrizes específicas para a alocação de rins a pacientes hipersensibilizados, com critérios imunológicos que ampliam o acesso a doadores compatíveis.
“Os tratamentos realizados no âmbito do Proadi-SUS são mais complexos e direcionados a grupos específicos de pacientes. Dentre eles, estão aqueles que não possuem condições socioeconômicas de arcar com os custos relacionados ao tratamento”, conta Patrícia Freire, coordenadora do Sistema Nacional de Transplantes do Ministério da Saúde.
Depois da alta, vieram para Simone sete meses de isolamento em casa enquanto a imunidade se reconstituía. Agora já sai, anda na rua, come com poucas restrições.
Simone conta que conversa com o rim que recebeu desde os primeiros dias. “Eu falava: você não é meu, mas eu necessito que você fique comigo. Estou orando pela família que perdeu aquele ente querido que colocou você no meu corpo.”
Autor: Folha








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