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Casas de banho são refúgio para suar com desconhecidos – 29/03/2026 – Equilíbrio

A única coisa escrita num portão azul na rua Mourato Coelho, na Vila Madalena, zona oeste de São Paulo, é: sanus per aquam —em português, “saúde pela água”, frase que deu origem ao termo spa. Ao entrar, o celular vai para o armário e as pessoas para a sauna. Ali fica o Banho Urbano, onde a ideia é relaxar e não ficar de olho em notificações. O mundo que espere.

Nesse oásis, lavar-se vai além do chuveiro e vira ritual com liturgia própria sem distinção de gênero. Basta guardar suas coisas e caminhar até os fundos da casa, um jardim com piso branco de pedra e paredes cobertas por uma trepadeira que parece ter tomado conta do pedaço.

Três chuveiros são um convite para o primeiro passo da experiência: uma boa ducha. Roupão e toalha ficam num gancho. A nudez é essencial nas áreas de banho, exceto aos finais de semana, quando o uso de roupas de banho é opcional.

É importante ressaltar que esse não é um ambiente sexual nem é tolerada nenhuma atitude desse tipo. Segundo o sócio fundador Milton Souza, 47, a razão para despir-se é a higiene. “Dá para usar roupa, que nem a galera no BBB, mas não vai se limpar direito”, diz.

O banho é uma espécie de preparativo pelo que vem à frente. Basta atravessar a pequena portinha da sauna para ser recebido pelo calor. Um forno à lenha com pedras em cima esquenta o ambiente. O termômetro marca 70°C. O suor é tanto que a expressão “suado como tampa de marmita” parece uma definição oportuna.

Para quem gosta do mormaço, basta jogar um pouco d’água nas pedras, prática que ganha cara de cerimônia no aufguss, rito alemão em que um mestre de sauna derrama água com óleos essenciais sobre as pedras e usa uma toalha para circular o vapor. Aqui a cerimônia é batizada de bafão, uma versão tupiniquim bem mais calorosa que a original.

Se 70°C parece muito, há uma alternativa. A sauna a vapor não passa dos 46°C. O interior é todo branco, com uma espreguiçadeira de um lado e um banco do outro, abaixo de uma janela estreita. É como estar nas nuvens —não no sentido figurado, o vapor é intenso e a visibilidade baixíssima.

Seja qual for a escolha, a regra é a mesma: ficar o tempo que conseguir. O limite é individual e varia com o tipo de sauna. É importante sempre escutar o próprio corpo, principalmente nas primeiras vezes. Quando sentir que não aguenta mais, é hora de entrar na banheira gelada.

O calor dilata os vasos e a pressão cai. Na água fria, o organismo reage ao contrário: vasos contraem e a pressão sobe. Esse movimento vascular, em decorrência da alternância de temperatura, é chamado de terapia de contraste e “funciona como um treino leve para o sistema cardiovascular”, segundo o clínico geral Lucas Albanaz. Ele, que é diretor médico do hospital Santa Lúcia Gama, em Brasília, diz que a prática pode estimular o sistema nervoso autônomo e produzir sensação de relaxamento.

O médico alerta que a terapia não é para todos. De acordo com cirurgião vascular Breno Caiafa, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Angiologia e Cirurgia Vascular, pacientes com doença arterial, cardiopatia instável ou idosos devem ter cautela. “Esse choque de temperatura pode desencadear resposta adrenérgica [reação fisiológica do corpo] intensa, com elevação abrupta da pressão arterial”, diz.

Pessoas saudáveis são mais propensas a se beneficiarem com a prática, segundo ele. Para atletas, “essa alternância pode ajudar na recuperação muscular, reduzir edema leve e modular a percepção de dor”.

Como em qualquer prática que impacte o sistema cardiovascular, é sempre importante consultar um médico antes. Caiafa diz que a reposta não é sempre previsível e “o que é benéfico para um, pode não ser indicado para outro”.

Nem mesmo a cultura da sauna é uniforme. Na Finlândia, a tradição é tão enraizada que a Unesco a reconheceu como patrimônio cultural imaterial da humanidade. Entrar vestido numa casa de banho alemã é praticamente um tabu. Já no Japão, existe até um guia dedicado a ranquear as melhores —o Saunachelin.

No Brasil, a ideia de ficar pelado com estranhos ainda é atípica. “Tem gente que confunde as coisas e vem aqui com as intenções erradas”, diz Milton, que criou um protocolo para novos clientes do Banho Urbano. Homens cis-gênero devem ser indicados por alguém que já frequenta ou esperar uma sessão guiada. “Ela serve para introduzir essa cultura para quem não conhece. Juntamos um grupo para começarem a entender a proposta”.

Toda mudança passa por um grupo de funcionários composto em maioria por mulheres. Uma delas, Sofia Maluf, é companheira de Milton e ajudou a implementar medidas para deixar o espaço mais seguro para o público feminino. “A gente nunca teve nenhum problema com mulheres. Incluí-las nessa restrição seria injusto, já que o problema vinha exclusivamente de homens”, conta.

Muitas relataram que a experiência as ajudou com inseguranças em relação ao próprio corpo. Sofia é uma delas. “Eu nunca tinha vivido uma experiência desse tipo antes de vir para cá. Mudou a minha relação comigo mesma. Ainda tenho algumas questões, mas melhorou muito”.

O espaço funciona desde 2022 e já passou por diversas mudanças nas políticas internas. Para Milton, a falta de familiaridade com o banho público é o principal motivo. “A nudez não é o foco, não somos um espaço nudista ou naturista, aqui é casa de banho. Na sua casa você não toma banho para ficar pelado”. A sessão de duas horas sai por R$ 135; a de três, R$ 160.

Banho Urbano, r. Mourato Coelho, 1.095, Vila Madalena, tel. (11) 93912‑9482‬, banhourbano.com.br

Conheça outros lugares para usar sauna em São Paulo

Balneário Maria José

Exclusivo para homens, o espaço funciona desde 1970. O slogan é ‘Você merece!’, e a estrutura faz jus: oferece sauna finlandesa, seca e a vapor —nesta última, com infusão de ervas frescas. A roupa de banho é opcional e a estadia sai por R$ 124,90, sem limite de tempo.

Balneário Maria José, r. Barra do Tibagi, 562, Bom Retiro, tel. (11) 3221-5421, balneariomariajose.com.br

Estudio Enso

O salão de beleza oferece sauna exclusivamente feminina (seca e vapor), além de ducha. A sessão de três horas custa R$ 50 —as clientes devem usar roupa de banho. Todo atendimento é feito por mulheres.

Estúdio Ensō, r. Gualaxo, 285, 2º andar, Tênis Clube Paulista, Aclimação, tel. (11) 91771-2853, studioenso.com.br

Kontrast

A poucos passos da Faria Lima, sauna serve para networking. Um ‘social wellness club’ que oferece banheiras de gelo e saunas, sem restrição de gênero. O regulamento pede o uso de roupas de banho. Sessões a partir de R$ 189 (uma hora); membros pagam taxa fixa mensal, têm acesso livre e um rooftop exclusivo.

Kontrast, av. Rebouças, 2.581, Pinheiros, tel. (11) 98470-5742, kontrast.com.br

Autor: Folha

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