Nesta altura todo mundo já deve ter lido ou ouvido que os 11 anos de 2015 a 2025 foram os 11 mais quentes já registrados pela Organização Meteorológica Mundial. Dá para chutar que ninguém prestou atenção, pois são 11 anos ouvindo a mesma coisa.
No entanto, essa é a coisa mais importante a fazer: prestar atenção à coisa mais importante do mundo. Na expectativa desesperada de capturar consciências para o que realmente importa, aqui vai uma pergunta provocante: quanto custa uma viagem de Taylor Swift em seu Dassault Falcon 7X?
Não se trata do preço oficial do jatinho, US$ 54 milhões (R$ 280 milhões, ou 1,4 vorcaro na tabela de festas de noivado); isso é problema da moça. A questão que interessa, numa coluna de ciência e não de fofoca, é saber quanto o querosene queimado custa em termos de impacto sobre o clima, com enchentes, ciclones, secas, ondas de calor, deslizamentos e incêndios.
Uma conta nada trivial. À tarefa se dedicaram Marshall Burke e colegas da Universidade Stanford e do Escritório Nacional de Pesquisa Econômica dos EUA, centro mantido por doações públicas e privadas, com artigo na última revista Nature.
O título em português seria “quantificando perdas e danos do clima consistentes com o custo social do carbono”. Os autores apontam que cálculos de prejuízos da mudança do clima, em geral, só contemplam o custo passado de eventos climáticos extremos gerado por emissões de carbono.
Leva até um século para metade do dióxido de carbono (CO2) lançado hoje na atmosfera ser removida. Outros 20% continuam lá por milênios, contribuindo para reter calor do sol (efeito estufa) e encorpar o aquecimento global.
Burke & cia criaram um cálculo complicado para computar também valores correspondentes a danos continuados. Concluíram que impactos futuros de emissões ficam ao menos uma ordem de grandeza acima dos prejuízos já verificados.
Eis a conta lúgubre: uma tonelada de CO2 emitida em 1990 originou até 2020 estimados US$ 180 em danos (R$ 940); no ano 2100, terá causado um custo adicional de US$ 1.840 (R$ 9.600).
Segundo os autores, só as emissões dos EUA desde 1990 ocasionaram prejuízo mundial de US$ 10 trilhões (R$ 52 trilhões). Desse montante, US$ 330 bilhões (R$ 1,7 trilhão) recaíram na conta do Brasil, proporcionalmente.
Mesmo com o negacionista Donald Trump à solta, não é o caso de vitimismo. Os 2,145 bilhões de toneladas de CO2 emitidos pelo Brasil em 2024 ultrapassam R$ 2 trilhões em danos climáticos já infligidos ao planeta. Até o final do século, bastaria multiplicar isso por dez, alcançando algo como 1,5 PIB do próprio Brasil.
Obviamente são números ilustrativos, sujeitos a enorme incerteza. A faixa de custos passados por tonelada emitida em 1990 se espraia entre US$ 40 e US$ 530, por exemplo. Mas já servem para uma conversa séria sobre perdas e danos.
Ah, sim, viagens de jato. Quem embarcou num voo comercial de longa distância por ano na década passada impôs a outros humanos um prejuízo de US$ 25 mil (R$ 130 mil). E cada voo de Taylor Swift com seu jatinho em 2022 –ou os de Elon Musk, Jeff Bezos e Bill Gates– custará ao mundo US$ 1 milhão em danos climáticos até o final do século.
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Autor: Folha








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