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Criminalizar a misoginia mobilizou os misóginos – 30/03/2026 – Encaminhado com Frequência

Na última terça-feira (24), o Senado aprovou por unanimidade o PL 896/2023, que equipara a misoginia ao crime de racismo. Os 67 senadores presentes votaram a favor, sem nenhum voto contrário. Enquanto a relatora Soraya Thronicke (Podemos-MS) lembrava que só em 2025 o Brasil registrou quase 7.000 vítimas de tentativas de feminicídio, a autora do projeto, Ana Paula Lobato (PDT-MA), denunciou ter sofrido ameaças de morte e estupro que recebera por defender a proposta. A própria relatora informou também ter sido vítima de ameaças após a aprovação do PL da Misoginia. É interessante observar que o projeto que busca coibir o ódio contra mulheres desencadeou uma série de ataques nas redes sociais. O projeto agora segue para a Câmara dos Deputados.

Segundo os dados da Palver, que analisa em tempo real mais de 100 mil grupos públicos de WhatsApp e Telegram, o tema repercutiu nas redes imediatamente após a votação. No dia seguinte à aprovação, o volume de mensagens sobre o projeto de lei triplicou em relação ao próprio dia do voto. Os dois dias posteriores à aprovação reuniram, juntos, quase 63% de todas as mensagens monitoradas sobre o tema no período. A votação foi tema de intenso debate, e a reação, por parte da direita, deu-se de forma organizada.

Entre as mensagens com posicionamento identificável, a divisão foi quase simétrica, com cerca de 48% contra o projeto e 52% a favor. Mas os enquadramentos se deram com estratégias distintas. A narrativa crítica ancorou-se, de forma dominante, no argumento da censura. Nesta linha, em cerca de 65% das mensagens contrárias a preocupação central era a suposta ameaça à liberdade de expressão. Esse argumento ganhou maior projeção quando Nikolas Ferreira (PL-MG) classificou a proposta como “aberração” e prometeu derrubá-la na Câmara. Chegou a circular nas redes uma versão adulterada do texto, que foi desmentida e deletada após repercussão.

O tema é central também na literatura sobre a “machosfera”, termo que faz referência a um conjunto de comunidades nas quais homens se unem com o intuito de se proteger do que acreditam ser um privilégio estrutural das mulheres. Estudo do DesinfoPop/FGV, publicado no último dia 24, baseado num mapeamento de 85 comunidades masculinistas brasileiras no Telegram, identificou que políticas de gênero são sistematicamente reapresentadas como “ameaças aos homens” ou evidências de “captura feminista do Estado”. A pesquisa analisou mais de 7 milhões de conteúdos publicados entre 2015 e 2025 e conclui que as leis de enfrentamento à violência contra mulheres, principalmente a Lei Maria da Penha, mas não apenas, são alvo de ataques recorrentes dentro dessas comunidades.

Por outro lado, a narrativa de apoio ao projeto de lei organiza-se em torno da violência real. Segundo os dados da Palver, cerca de 10% de todas as mensagens monitoradas sobre o tema fazem referência simultânea ao feminicídio e à violência contra a mulher. Soraya Thronicke sintetizou uma parcela da reação negativa, apontando que o país odeia mais a palavra “feminismo” do que “feminicídio”.

A aprovação unânime no Senado, reunindo esquerda, direita e centro, é politicamente incomum. Nenhum senador votou contra, incluindo Flávio Bolsonaro, pré-candidato à Presidência, e que vem tentando se posicionar de forma moderada visando o eleitorado mais ao centro. A estratégia pragmática, mesmo sendo compreendida por uma parte dos apoiadores, foi criticada pela base mais radical, que o trata como traidor. O PL ainda tem longa caminhada pela Câmara, e a principal batalha certamente se dará na tentativa de evitar que as narrativas polarizem a opinião pública e, dessa forma, pressionem os políticos não pela racionalidade que o tema exige, mas pelas questões ideológicas, principalmente por se tratar de um ano eleitoral.


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Autor: Folha

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