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Sugerir boicote à Copa nos EUA é, no mínimo, ingênuo – 23/01/2026 – Marina Izidro

Até que demorou para esse assunto aparecer.

Faz meses que Donald Trump tenta roubar para si os holofotes da Copa do Mundo. Ameaçou tirar partidas de cidades-sede que considera inseguras; proibiu torcedores de Irã, Haiti, Senegal e Costa do Marfim de entrarem nos Estados Unidos, por questão de segurança; disse aos coanfitriões que adoraria que o Canadá fosse o 51º estado norte-americano e que não descartaria invadir o México militarmente para combater cartéis de drogas. Tudo devidamente ignorado pelo restante do mundo e pelo presidente da Fifa, Gianni Infantino.

Só que, nos últimos dias, a crise diplomática criada com a Europa pela ameaça de anexar a Groenlândia fez alguns políticos clamarem: em retaliação, os europeus devem boicotar o Mundial! Nenhum dos autores da ideia é muito relevante, é verdade, mas foi o suficiente para despertar o debate.

Boicotes esportivos são tão antigos quanto a prática do esporte em si. Nos Jogos Olímpicos da Antiguidade, em 332 a.C., a cidade de Atenas ameaçou sair do evento por não ter gostado da acusação de que um de seus atletas estaria participando de um esquema de apostas.

Entre os mais famosos, estão os da época da Guerra Fria, quando os Estados Unidos e aliados não foram aos Jogos Olímpicos de Moscou-1980, e a União Soviética liderou um boicote à edição de Los Angeles, quatro anos depois.

Houve pedidos de represália à Copa do Mundo da Rússia em 2018 por causa da anexação da Crimeia; à do Catar, em 2022, por questões de violação de direitos humanos; o tema voltará antes de a Arábia Saudita receber o Mundial de 2034. O ponto é: qual o propósito de um boicote esportivo para resolver uma questão geopolítica? Normalmente, nenhum. Não acaba com o problema e só pune que não tem nada com isso: os atletas.

Sobre a Copa que começa em junho, alguns países se pronunciaram. A Confederação de Futebol da Holanda disse que posicionamento político é assunto para o governo. A ministra do Esporte da França deixou claro que o país nem cogita a possibilidade. Aqui no Reino Unido, que tem fortes relações comerciais e políticas com os Estados Unidos, seria algo impensável. Inglaterra e Escócia nunca desistiriam do Mundial.

Falar sobre boicote a um evento sediado nos Estados Unidos é, no mínimo, ingênuo. Se o futebol é o ópio do povo, tirar do Mundial um país classificado seria a morte política de quem tomasse essa decisão. Nenhum líder de governo europeu faria algo tão impopular, ou arriscaria perder oportunidades de negócios com os norte-americanos. Além disso, qual a justificativa de fato? Apesar de às vezes não parecer, os Estados Unidos são um país democrático. Os outros dois anfitriões não têm nada a ver com as loucuras de Trump.

O que poderia acontecer é uma maior rigidez antes da escolha de quais nações terão o privilégio de sediar Copas e Jogos Olímpicos, principalmente quando se trata de regimes autoritários. Organizações esportivas precisam melhorar a forma como lidam com questões geopolíticas, se modernizar em vez de só repetirem o discurso de que “esporte e política não se misturam” ou que “o esporte tem o poder de unir o mundo”.

Hoje em dia, nem é preciso ser especialista no assunto para saber que isso é papo furado.

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Autor: Folha

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