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Guerra no Irã dá fôlego à Rússia, mas não resolve contas de Putin

Antes do início da guerra de Israel e Estados Unidos contra o Irã, a Rússia vivia um cenário econômico pessimista.

A decisão da Índia de parar de comprar petróleo russo, após pressão do governo Trump, e a paralisação de 40% da capacidade do país de exportação da commodity (índice calculado pela agência Reuters com base em dados de mercado), devido a ataques da Ucrânia à sua infraestrutura do setor e à apreensão de petroleiros, deixavam um horizonte nebuloso para o regime do ditador Vladimir Putin.

Porém, veio o conflito no Irã, e as altas nos preços do petróleo e do gás devido ao bloqueio do estratégico Estreito de Ormuz pelo regime dos aiatolás, aliadas a uma retirada parcial das sanções americanas às exportações de energia russas, deram um alento a Moscou.

Colaborando com o Irã com drones, inteligência militar e ajuda humanitária, o desejo de Putin é de uma guerra longa, para que os cofres russos continuem contando com a renda extra.

Porém, especialistas têm apontado que nem o conflito no Oriente Médio poderá ser capaz de resolver um grande gargalo russo dos últimos anos: o déficit público.

O déficit orçamentário consolidado da Rússia saltou de 1,7% do PIB para 3,9% em 2025.

“Graças à alta dos preços do petróleo, é improvável que o pior cenário para a Rússia se concretize. Mas o déficit inevitavelmente continuará a aumentar devido à queda nas receitas não provenientes de petróleo e gás”, afirmou o analista econômico Sergei Shelin, em artigo para o jornal The Moscow Times.

O especialista destacou que a grande preocupação para Putin é que os gastos da Rússia com a guerra na Ucrânia “têm superado as projeções todos os anos desde 2022”.

De acordo com dados do Banco Mundial, as despesas militares da Rússia subiram de 3,6% do PIB em 2021, ano anterior ao início da guerra no leste europeu, para 7,1% em 2024.

Em entrevista à Gazeta do Povo, o economista e doutor em relações internacionais Igor Lucena afirmou que acredita que a guerra no Irã terá uma resolução em breve e que o alívio para a Rússia gerado pelo conflito será apenas temporário.

Mesmo com uma “economia de guerra”, em que os investimentos em defesa atenuam as perdas que outros setores econômicos sofrem com as sanções, o analista destacou que a situação das contas do Estado russo não é sustentável.

“Você não pode crer que a economia russa vai conseguir se sustentar dentro desse modelo por mais três, quatro anos”, disse Lucena.

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  • Guerra no Irã abre vantagem estratégica para Putin

  • Como – e por que – a Ucrânia está ajudando os EUA na guerra contra o Irã

O especialista afirmou que há setores com potencial para diversificar a economia da Rússia e fazê-la deixar de ser tão dependente das exportações de energia, como as indústrias de carros, luxo e turismo, mas Putin não tem interesse que tal diversificação aconteça.

“A interferência do governo no comando das empresas [por meio de aliados do ditador] e a necessidade de explorar cada vez mais o setor estatal e tentar fazer com que outros países sejam dependentes da capacidade energética russa impedem isso”, afirmou Lucena.

“Isso é uma base também da sua manutenção do poder. A partir do momento em que Putin liberasse o fluxo de capital para que empresas começassem a se tornar gigantes internacionais, ele perderia poder político para o poder econômico”, acrescentou.

Putin descarta cortes nos gastos por ora

Para reforçar seu caixa, a Rússia vendeu cerca de 15 toneladas métricas de ouro de suas reservas nos dois primeiros meses do ano, a maior quantia desde 2002, segundo dados do Conselho Mundial do Ouro.

Além disso, segundo informações da agência EFE, na sexta-feira passada (27) o Kremlin admitiu que ao menos um oligarca se ofereceu para financiar a guerra na Ucrânia em uma reunião a portas fechadas com o ditador, que, segundo meios de comunicação independentes, pediu doações para poder continuar a agressão a Kiev diante do crescente déficit público.

Mesmo com as contas fora de controle, o regime de Putin não deve por enquanto implementar cortes nos gastos públicos para tentar aliviar o rombo.

No início de março, fontes da Reuters apontaram que a Rússia estaria cogitando cortes de 10% em gastos “não sensíveis” este ano, tesourada que, obviamente, não incluiria cortes nos gastos militares. Entretanto, na sexta-feira passada, fontes da agência Bloomberg relataram que esse ajuste foi descartado.

Autor: Gazeta do Povo

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