A decisão do COI (Comitê Olímpico Internacional) de utilizar o teste do gene SRY para determinar a elegibilidade em provas femininas é “excessivamente simplista”, segundo o cientista que o descobriu.
Em uma importante mudança de sua política, o COI anunciou na semana passada que voltará a introduzir os testes de gênero nos Jogos de Los Angeles 2028, impedindo mulheres transgênero de competir em categorias femininas.
A admissão nas competições olímpicas femininas “está agora reservada a pessoas de sexo biológico feminino”, não portadoras do gene SRY, explicou o COI em um comunicado, após uma reunião de sua comissão executiva.
O COI utilizará “um teste único de detecção do gene SRY”, que busca a presença de um gene no cromossomo Y, conhecido como SRY, como um indicador para determinar o sexo de um atleta. Será realizado por meio de uma amostra de saliva, um swab bucal ou uma amostra de sangue.
A presidente do COI, a zimbabuense Kirsty Coventry, afirmou que “a política que anunciamos se baseia na ciência e foi elaborada por especialistas médicos”.
Mas o professor australiano Andrew Sinclair, que descobriu o gene SRY em 1990, sustentou que não é um teste adequado por si só.
“O COI afirma que o gene SRY é um teste confiável para determinar o sexo biológico e, dessa forma, decidir quem pode competir nas provas femininas”, afirmou em um comunicado emitido na noite de segunda-feira (30). “No entanto, essa política se baseia na ideia excessivamente simplista de que a presença do gene SRY por si só equivale a ser homem”.
“O sexo masculino é muito mais complexo e envolve múltiplos genes além do SRY nas vias de desenvolvimento, assim como hormônios”, acrescentou o cientista. “A presença ou ausência do gene SRY não determina o leque de características sexuais humanas”.
Sinclair, vice-diretor do Murdoch Children’s Research Institute de Melbourne, foi igualmente crítico quando a World Athletics (a federação internacional de atletismo) optou por utilizar o teste para determinar o sexo biológico no ano passado.
“A única coisa que o teste do SRY indica é se o gene está presente ou não”, disse. “Não indica como o SRY está funcionando, se um testículo foi formado, se há produção de testosterona e, em caso afirmativo, se o organismo pode utilizá-la”.
Segundo Sinclair, “o gene SRY por si só não deveria determinar quem pode competir no esporte feminino”.
Sua posição foi apoiada por Vincent Harley, especialista nos cromossomos que determinam o sexo no Centre for Endocrinology and Reproductive Health de Melbourne: “a presença do gene SRY não define o sexo em todos os casos”.
Apoios e discordâncias
“A atleta mulher transgênero pode portar o gene SRY; há poucas evidências científicas de que o gene proporcione vantagens físicas no esporte”, destacou Harley.
Mas nem todos os cientistas concordam.
Peter Koopman, reconhecido como codesenvolvedor do gene SRY, classificou como razoável a decisão do COI.
“Está claro que o COI tinha que fazer algo para abordar a questão da equidade nas competições diferenciadas por sexo”, afirmou Koopman, professor emérito da Universidade de Queensland. “O teste proposto para o SRY é um bom ponto de partida. É baseado na ciência, não é invasivo, é simples de realizar e discreto”.
Segundo Koopman, “embora alguns sustentem que a precisão do teste não é de 100%, pode se tratar de um caso em que o COI não deve permitir que o perfeito seja inimigo do bom”.
Os testes de gênero foram introduzidos pela primeira vez nos Jogos Olímpicos da Cidade do México em 1968 e foram utilizados pela última vez em Atlanta 1996, sendo posteriormente abolidos.
Autor: Folha








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