Nas embalagens coloridas dos ovos de Páscoa pendurados nos túneis formados nos corredores dos supermercados nessa época do ano, há uma diferença que pode pesar na saúde: a quantidade de cacau presente no produto. Segundo especialistas ouvidos pela Folha, quanto menor a quantidade de cacau, pior é a qualidade nutricional do chocolate. Isso porque, no lugar dele, os fabricantes incluem mais açúcar e gordura.
O problema é que, na prática, rótulos de ovos de Páscoa e barras de chocolate não mostram a quantidade de cacau presente no produto, o que dificulta a escolha do consumidor por opções mais saudáveis —ou menos prejudiciais à saúde.
“O ideal é sempre optar por produtos que informem a porcentagem de cacau, para que seja possível escolher aqueles com maior concentração. Quando essa informação não está presente, já é um indicativo de que não se trata de um bom chocolate do ponto de vista nutricional”, diz a bióloga e nutricionista Yasmim Duro, especialista em emagrecimento e metabolismo.
Na ausência de informação clara sobre o teor de cacau, a escolha do produto pode ser feita por outros critérios. Um dos principais é observar a quantidade de ingredientes. “Quanto menor for a lista, melhor”, diz Duro, pois isso geralmente indica menor presença de aditivos, como aromatizantes, gorduras e açúcares.
Também é importante verificar a posição do açúcar na lista de ingredientes. Em muitos casos, ele aparece como o primeiro item, sinal de que está presente em maior quantidade. Além disso, o açúcar pode surgir com outros nomes, como sacarose, o que pode confundir o consumidor e mascarar sua real presença no produto.
“Se o açúcar aparece como primeiro ingrediente, estamos diante de um chocolate com baixa densidade de cacau. O ideal é que os primeiros itens sejam massa de cacau, liquor de cacau ou cacau em pó”, diz o nutrólogo Murilo Monteiro.
Outro ponto de atenção é a tabela nutricional, diz Duro, especialmente o item “açúcares adicionados”. Diferentemente dos açúcares naturalmente presentes nos ingredientes, esses são incluídos durante a fabricação para adoçar o produto. Assim, quanto menor a quantidade de açúcares adicionados, melhor tende a ser a qualidade nutricional do chocolate.
“Chocolates que contêm menos de 10 gramas de açúcar por porção —cerca de 25 gramas— geralmente apresentam maior concentração de cacau”, afirma Monteiro.
Na avaliação do Idec (Instituto de Defesa do Consumidor), as regras atuais de rotulagem não garantem transparência suficiente ao consumidor. Embora os ingredientes sejam listados em ordem decrescente de quantidade, a ausência de informação sobre o percentual de cacau dificulta a compreensão real da composição.
Uma regra da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) estabeleceu que, para o alimento ser considerado chocolate de verdade, precisa ter no mínimo 25% de cacau —com exceção do branco, que exige ao menos 20% de manteiga da fruta. Abaixo disso, o rótulo precisa dizer “cobertura sabor chocolate” ou “alimento sabor chocolate”.
Essa diferença aparece nas prateleiras de forma pouco visível, geralmente em letras pequenas na embalagem, enquanto a palavra “chocolate” ganha destaque em tamanho muito maior.
Mas nem mesmo rótulos que indicam altos teores de cacau são totalmente confiáveis. Um estudo publicado em janeiro deste ano na revista Food Chemistry por uma equipe do Centro de Energia Nuclear na Agricultura da Universidade de São Paulo (Cena-USP), em Piracicaba, analisou 211 amostras de 116 marcas de chocolate em barra vendidas no país.
Os resultados mostram que chocolates ao leite, branco e meio amargo, independentemente da classificação, apresentavam entre 25% e 30% de cacau. Já os produtos rotulados como amargos, que diziam ter 60% de cacau, tinham, na verdade, entre 25% e 30% também.
“Na prática, o consumidor brasileiro vem sendo exposto a produtos que não entregam os benefícios associados ao cacau e, quando consumidos em excesso, podem contribuir para problemas como obesidade, resistência à insulina e outras doenças metabólicas”, diz Eunice Gutzeit, vice-presidente da ANPC (Associação Nacional dos Produtores de Cacau).
Segundo a ANPC, em 2024, o mercado internacional do cacau registrou uma alta histórica, superando US$ 11 mil por tonelada, impulsionada pela quebra de safra na África, principal região produtora mundial, causada por eventos climáticos extremos e doenças nas lavouras.
No Brasil, a produção anual gira em torno de 200 mil toneladas, enquanto o consumo varia entre 250 mil e 270 mil toneladas, segundo a Abicab (Associação Brasileira da Indústria de Chocolates, Cacau, Amendoim, Balas e Derivados). A diferença é suprida por importações, o que fez com que a alta do preço lá fora também impactasse os preços no mercado brasileiro.
“Foi justamente durante esse período de alta que houve uma substituição significativa do cacau em grande parte dos produtos, com aumento do uso de gorduras vegetais e redução do teor de cacau, impactando negativamente a demanda pela amêndoa”, diz Gutzeit.
Os grandes fabricantes do chocolate não compram cacau, mas outros dois componentes da fruta: a massa, responsável pelo sabor e pela cor, e a manteiga de cacau, a gordura nobre que dá textura e cremosidade ao produto. É essa manteiga que diferencia a qualidade do chocolate.
“Como a manteiga de cacau é o ingrediente mais caro, muitas indústrias utilizam quantidades menores e recorrem a gorduras vegetais para ajustar textura e custo”, diz Lucas Rocha, chefe de confeitaria do Le Cordon Bleu Brasil.
A manteiga de cacau tem um ponto de fusão próximo a 34 °C, ligeiramente abaixo da temperatura da boca humana, o que permite que o chocolate derreta rapidamente ao ser consumido. Já as gorduras vegetais costumam fundir acima de 38 °C. Por isso, não derretem completamente na boca, e podem deixar uma sensação residual mais pesada, como um “gosto de parafina”.
“Quando a manteiga de cacau aparece antes das gorduras vegetais [na lista de ingredientes], significa que está presente em maior quantidade. Se ocorre o contrário, o produto tende a ter menor qualidade. Embora existam gorduras vegetais de melhor padrão, elas não se equiparam à manteiga de cacau”, explica Rocha.
Segundo Duro, a substituição de manteiga de cacau por outras gorduras vegetais, sobretudo as hidrogenadas, “é uma grande piora” para a saúde.
“Esse excesso de gordura não está associado apenas ao ganho de peso, mas também pode impactar a saúde de outras formas, como o aumento do colesterol LDL (o chamado “colesterol ruim”) e até o surgimento de alterações na pele, como acne”, diz
A partir do final de 2024, o mercado iniciou um processo de ajuste, e os preços passaram a cair de forma contínua. Nesta terça-feira (31), a cotação girava em torno de US$ 3.284 por tonelada, às 13h30, o que representa aproximadamente R$ 17,14 por kg, considerando a cotação do dólar no mesmo horário.
Mesmo com a queda no preço do cacau, a substituição do ingrediente por gorduras vegetais adotada durante a alta continua em muitos produtos.
“Ao reduzirmos a quantidade de cacau, o produto deixa de oferecer níveis benéficos desse ingrediente, comprometendo sua qualidade nutricional e tornando-a inadequada”, afirma a nutricionista Polyana Baptista Gomes, dos hospitais Santa Paula e Samaritano Paulista.
O cacau é o principal responsável pelos efeitos positivos atribuídos ao chocolate. Rico em flavonóis e polifenóis, compostos bioativos com ação antioxidante, está associado à proteção cardiovascular, melhora da circulação, regulação da pressão arterial e redução de processos inflamatórios.
Além disso, o cacau contém substâncias como a feniletilamina e a teobromina, relacionadas à sensação de bem-estar, assim como minerais essenciais, como magnésio e ferro.
“Quanto mais cacau, melhor para a saúde”, diz o médico nutrólogo Durval Ribas Filho, presidente da Abran (Associação Brasileira de Nutrologia). Ele afirma, porém, que isso não torna o chocolate isento de açúcar e calorias
Yasmim Duro diz que os benefícios do cacau só são observados de forma mais consistente em chocolates com maior concentração do ingrediente. “Para falar em propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias, é preciso, no mínimo, 70% de cacau”.
É consenso entre os especialistas que o ideal é priorizar chocolates com essa porcentagem de cacau e ingerir em torno de 20 a 30 gramas por dia, o equivalente a dois ou três quadradinhos de uma barra de chocolate.
Projeto de lei sobre quantidade de cacau
A ausência de critérios claros sobre o teor de cacau nos produtos levou à formulação de um projeto de lei que estabelece um percentual mínimo de cacau para os chocolates no país. O projeto tem origem no Senado e foi apresentado pelo senador Zequinha Marinho (Podemos-PA), que resgatou uma proposta de 2015 da então senadora Lídice da Mata (PSB-BA).
Em 17 de março, a Câmara dos Deputados aprovou o texto com algumas mudanças. O conteúdo foi analisado e recebeu relatório do deputado federal Daniel Almeida (PCdoB-BA), responsável por incorporar sugestões, inclusive de representantes do setor produtivo. Agora, a proposta volta para o Senado. Se o projeto for aprovado, as novas regras passarão a valer um ano depois da sanção pelo presidente Lula.
Pela proposta, produtos com pelo menos 35% de sólidos totais de cacau passam a ser classificados como “chocolate”, deixando de lado denominações como “meio amargo” e “amargo”. Esses itens também não poderão conter mais do que 5% de gorduras vegetais. Além disso, estabelece a obrigatoriedade de que a embalagem tenha a frase “Contém X% de cacau”.
O projeto de lei também define percentuais mínimos de cacau para cada categoria de produto, com o objetivo de padronizar o mercado e dar mais clareza ao consumidor. Pela proposta, o chocolate deverá ter pelo menos 35% de cacau; o chocolate ao leite, 25%; o chocolate branco, no mínimo 20% de manteiga de cacau; o chocolate em pó, 32%; e o chamado chocolate doce, 25%. Já os produtos classificados como “sabor chocolate” poderão ter a partir de 15% de cacau.
Segundo a ANPC, o uso de termos como “sabor chocolate” apenas confunde o consumidor e mascara produtos com baixo teor de cacau. A entidade defende que a palavra “chocolate” seja usada somente em produtos com, no mínimo, 35% de cacau.
Procurada para comentar o impacto da proposta na qualidade nutricional dos chocolates, a obrigatoriedade de informar o teor de cacau nos rótulos e a eventual necessidade de revisão das normas atuais, a Anvisa disse que, em casos de projetos de lei em tramitação, limita-se a análises técnicas do conteúdo.
Segundo a agência, não é possível antecipar posicionamentos ou mudanças regulatórias enquanto o processo legislativo ainda estiver em andamento.
Para Gutzeit, da ANPC, esse projeto representa um passo necessário para corrigir uma distorção que se consolidou no mercado brasileiro, com produtos com pouco cacau, muito açúcar e gorduras substitutas sendo vendidos como chocolate.
“Mais do que uma pauta econômica, trata-se de uma questão de saúde pública, pois envolve a qualidade dos alimentos que chegam à mesa das famílias brasileiras e seus impactos no longo prazo”, diz.
Autor: Folha








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