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Publisher da Folha anuncia acordo com empresa de IA – 01/04/2026 – Economia

O publisher da Folha e presidente do Conselho de Administração do Grupo Uol, Luiz Frias, disse na noite desta segunda-feira (30) que está prestes a fechar um acordo de licenciamento de conteúdo com uma empresa de inteligência artificial. Mas não revelou o nome da companhia.

Frias deu a declaração durante uma gravação ao vivo do programa A Hora, no Festival Uol Prime de Jornalismo. Ele e o diretor de conteúdo do Uol, Murilo Garavello, foram entrevistados pelos jornalistas Thais Bilenky e José Roberto de Toledo no auditório da Faap (Fundação Armando Álvares Penteado), em São Paulo. O evento fez parte das celebrações de 30 anos do portal.

“Parece que estamos assinando um contrato de conteúdo com… Posso dizer ou não posso dizer? Em vias de acertar um contrato de conteúdo com [uma empresa de] IA”, afirmou Frias, o que fez Toledo insistir em saber mais detalhes.

“Assim que assinarmos, vocês vão ser os primeiros a saber”, emendou.

A revelação veio assim que a inteligência artificial foi mencionada pela primeira vez, e o tema monopolizou quase toda a conversa entre o empresário e os jornalistas. A Folha já tem um acordo de conteúdo com outra empresa de IA.

Frias disse haver um “consenso praticamente estabelecido” de que a transformação trazida por essa tecnologia será maior do que a Revolução Industrial, na segunda metade do século 18, ou o aparecimento da própria linguagem.

“Outro consenso também já bastante estabelecido é que, pela dimensão dessa transformação, ela precisa ser abraçada com muitos cuidados”, disse.

Para Frias, a importância do conteúdo jornalístico para as empresas de IA —no treinamento de seus modelos de linguagem, por exemplo— é um indicador de que esse conteúdo não vai desaparecer na era da nova tecnologia.

“Ficaria preocupado se [essas empresas] não quisessem firmar contratos como esse a que me referi há pouco”, disse. “A IA tem que trabalhar sobre uma gigantesca base de dados e uma capacidade de processamento também gigantesca. E ela se alimenta muito do jornalismo profissional. E o jornalismo continua investigando, fazendo as perguntas embaraçosas… Ou deveria.”

A apropriação do conteúdo jornalístico por empresas de IA é um dos debates mais acalorados do mercado de mídia mundial. E há duas frentes de embate. Em primeiro lugar, está a apropriação de conteúdo jornalístico para treinar modelos de linguagem sem pagar por isso. Em segundo, vem o fato de os chatbots terem potencial para substituir os mecanismos de busca —o que faz soar o alerta para o modelo de negócios do jornalismo.

O confronto entre empresas de IA e veículos de imprensa tem levado a disputas judiciais pelo mundo. Nos Estados Unidos, por exemplo, o The New York Times processa a OpenAI pelo uso de seus textos sem autorização pelo ChatGPT. Em agosto do ano passado, no Brasil, a Folha iniciou uma ação semelhante, requerendo que a dona do chatbot pare de coletar e usar, sem autorização e pagamento, o conteúdo do jornal.

Frias alertou que vê as ações judiciais como uma ferramenta importante quando houver uso indevido de conteúdo das empresas do Grupo Folha.

“Não é possível que uma tecnologia se aproprie de um conteúdo que custa caro para ser feito e o utilize para fins comerciais”, afirmou.

O publisher reconheceu que a nova tecnologia vai forçar as empresas de mídia a passar por adaptações semelhantes às da época do surgimento do Google. Os mecanismos de busca, afinal, oferecem links e levam tráfego para os veículos de mídia, que podem monetizar a audiência. Já os chatbots entregam o conteúdo completo na sua própria interface.

“Não temos resposta sobre tudo o que vai acontecer e não sabemos direito a profundidade dessas mudanças. Mas a capacidade de se adaptar a elas vai ser fundamental”, disse Frias.

Na entrevista ao videocast do Uol, o publisher da Folha também mostrou sua visão de como a IA deve ser usada pelos jornalistas —sem substituir o julgamento final de um profissional de imprensa.

“Percebemos a tecnologia como uma ferramenta, deve ser usada para ajudar em pesquisa, no manuseio de dados volumosos. Mas ela não deve substituir o discernimento do jornalista sobre o que está escrevendo nem a revisão final do jornalismo”, afirmou.

Diante do debate sobre as mudanças no mercado de trabalho, tema recorrente quando se fala de IA, Frias disse acreditar que dois traços fundamentalmente humanos serão cruciais nos empregos do futuro: resiliência e adaptabilidade.

“A própria história do ser vivo no planeta mostra que a resiliência é um atributo sobretudo humano. E, quanto à adaptabilidade, Darwin dizia que quem sobrevive não é o mais forte ou o mais inteligente, mas aquele que se adapta melhor às mudanças. Isso vale para a espécie humana.”

Frias também se mostrou cauteloso nas apostas quanto à nova tecnologia e seus efeitos no mercado de trabalho. Apesar dos discursos de magnatas do Vale do Silício, ressaltou, a adoção corporativa da IA pode ser mais vagarosa.

“No caso do emprego, quem contrata e investe são as empresas. Elas costumam ser mais cautelosas e avessas ao risco do que o público em geral. Essa mudança será feita com essa ressalva. As empresas têm um cuidado maior com segurança. Vai acontecer, mas talvez não na velocidade prevista pelo Elon Musk.”

O publisher concluiu sua fala com uma aposta sobre o futuro: para ele, “as coisas mais importantes” vão ser aquelas que o ser humano julgar como tais. “E a capacidade de perceber o que de fato é importante talvez seja uma característica mais humana do que algo que a máquina possa superar.”

Autor: Folha

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