sexta-feira, abril 3, 2026
25.1 C
Pinhais

Livro narra luto depois de tragédia em Áquila – 03/04/2026 – Equilíbrio

Em uma noite de abril, as gêmeas Caterina e Olivia dormiam aninhadas no sofá, quando a terra começou a tremer. No meio de móveis se batendo e espelhos quebrando, elas e Marco —filho de Olivia— refugiaram-se sob a mesa de jantar. Quando o tremor deu lugar ao silêncio, Caterina e o sobrinho escaparam pela janela, mas Olivia voltou para buscar calças e sapatos para o filho. Foi nesse instante que um pilar de sustentação ruiu, soterrando Olivia. Horas depois, os bombeiros a encontraram sem vida, com os dedos ainda estendidos na direção do jeans de Marco.

A forma como Caterina tenta reconstruir sua vida enquanto lida com seu próprio luto, com sua mãe e com a criação de Marco conduzem a narrativa de “Bella Mia”, livro escrito pela italiana Donatella Di Pietrantonio e lançado pela Relicário Edições.

O abalo sísmico que ambienta a narrativa é o que aconteceu de fato em 2009, na cidade de Áquila, na Itália, e que deixou 308 mortos, mais de 1.500 feridos, 15 desaparecimentos, centenas de edifícios em ruínas e milhares de desabrigados. Naquela noite, Pietrantonio estava em sua casa na cidade de Penne, a 80 km do epicentro, e mesmo assim o sentiu de forma intensa, descrito como um “tempo interminável”.

A autora morou por cerca de cinco anos em Áquila, onde cursou odontologia. À Folha, ela conta que escrever sobre um lugar ao qual se está afetiva e emocionalmente ligada é uma prova árdua, principalmente se narra o trecho mais dramático de sua história.

“Narra-se um luto coletivo que, no entanto, é também meu próprio luto, utilizando uma dor pessoal como instrumento de conhecimento e reconhecimento da dor alheia. A personagem Caterina é, ao mesmo tempo, protagonista, testemunha e voz de um trauma que atingiu toda uma comunidade”, diz.

Ela não se diz pretensiosa a ponto de pensar que seu livro possa ter ajudado os habitantes de Áquila a elaborar o luto, mas diz acreditar que “a arte e a literatura tenham a função de fragmentar o bloco de pedra da dor e deixar que, entre os estilhaços, passe um pouco de luz”.

É também pela arte que Caterina consegue nomear e elaborar seu luto individual. A personagem descreve como a argila atinge a mesma temperatura da sua pele e carimba na massa as suas próprias “linhas da vida, do coração e do destino”.

Ela tinha se acostumado a viver na sombra da irmã, em uma posição confortável e defensiva, a única que considerava sustentável para si. Quando Olivia morreu, a gêmea se viu exposta e obrigada a assumir um protagonismo que não desejava.

Como se não bastasse sustentar a si própria e o seu luto, Caterina se descobre mãe ao ter que cuidar do sobrinho, um adolescente tímido e ranzinza. Marco expressa sua dor por meio do silêncio, usando fones de ouvido e recusando-se a falar.

O ressentimento em relação ao pai, Roberto, é um ponto em comum na família. A mãe das gêmeas o culpa pela morte da filha, dizendo que, se não fosse a separação, ela não teria se mudado para a cidade e estaria viva. Desde o primeiro momento após o terremoto, ela buscou socorro em Deus, rezando constantemente pela filha morta.

A sua devoção e sacrifício é outro ponto chave no conflito geracional que se apresenta na história. Principalmente no entendimento do que e como ser mulher.

Enquanto a mãe representa um modelo de mulher ancorado no serviço ao outro, as filhas são descritas como mulheres contemporâneas, libertadas e autônomas, que não se definem necessariamente por meio de uma figura masculina.

Para Caterina, a emancipação feminina é a liberdade de sofrer e se reconstruir de forma individual, sem estar presa aos modelos tradicionais de cuidadora eterna que a mãe acredita dever ocupar.

Para a autora, esse movimento é um percurso histórico de emancipação feminina que se manifesta dentro de uma mesma família.

Elaborar o luto, segundo Pietrantonio, é conservar a “luz das estrelas mortas” enquanto se caminha com as próprias pernas em direção a uma autonomia que a tragédia, paradoxalmente, a forçou a conquistar.

Ela afirma que todos vivem o luto de maneira singular, mas “a grande diferença reside na capacidade de integrar a perda na nova vida que vem depois, na qual a pessoa amada faz falta de modo doloroso, mas sua presença persiste na memória, na bagagem de vida de quem fica”.

Autor: Folha

Destaques da Semana

risco de R$ 13 bilhões a investidores

O Banco Central determinou em 2024 duas auditorias sobre...

Rio em SC ganha título de “Pantanal do Sul” pela pesca do robalo

As águas calmas do rio Palmital, em Garuva, no...

Macron diz que Trump não está sendo “sério” no Irã

O presidente da França, Emmanuel Macron, fez nesta quinta-feira...

Temas

Siga-nos

Conheça Nosso Guia de Compras

spot_img

Artigos Relacionados

Categorias mais Procuradas