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Psicodélicos: viagens longas mais terapêuticas – 15/01/2026 – Virada Psicodélica

Por força do custo de longas sessões para monitorar o estado alterado de consciência do paciente, não será trivial incorporar à clínica terapias psicodélicas que talvez terminem regulamentadas neste 2026. Há duas estratégias concorrentes para contornar a dificuldade, mas a neurociência prospecta uma terceira via para obter o máximo rendimento de substâncias como ibogaína, LSD, psilocibina, dimetiltriptamina (DMT) e MDMA (ecstasy).

A primeira estratégia lembra a fábula da formiga e da cigarra: trata-se de mobilizar esses compostos para trabalhar, e não para encantar. Busca-se burilar moléculas para eliminar o efeito psicodélico e reter só a indução de neuroplasticidade (novas conexões cerebrais), tida como fundamento do benefício terapêutico. Seriam drogas inovadoras, apelidadas de psicoplastógenos.

Ido Hartogsohn considera essa via uma forma de sanitização dos psicodélicos, de modo a encaixá-los na moldura apertada da biomedicina conformacionista, que deixa intocadas as raízes sociais e culturais do sofrimento psíquico. Algo na mira do Pentágono, por exemplo, às voltas com uma epidemia de suicídios de ex-combatentes, na casa de 17,6 POR DIA de 2001 a 2022, com as guerras do Afeganistão e do Iraque e inúmeras incursões em países como há pouco na Venezuela.

Para o pesquisador da Universidade Bar-Ilan (Israel), o modelo implícito de subjetividade privilegia a funcionalidade, a previsibilidade e a regulação emocional em detrimento do confronto, da ruptura ou da transformação: “A jornada psicodélica, antes vista como uma imersão significativa na profundidade psicológica, torna-se ineficiente, arriscada e desnecessária”, interpreta.

“A cura passaria a ser uma questão de modular a neuroquímica para restaurar o equilíbrio afetivo sem as texturas complexas e imprevisíveis da experiência.”

A segunda estratégia remete à competição da lebre com a tartaruga. Pretende-se abreviar o efeito psicodélico para incrementar a relação custo-benefício e favorecer a assimilação pelo sistema de atenção em saúde mental.

É a via preferida por grupos como o de Dráulio de Araújo na UFRN e como a empresa Beckley Psytech. O primeiro estuda a inalação de DMT, substância presente na ayahuasca, para eventual incorporação como antidepressivo no SUS. A segunda persegue lucros com o composto aparentado 5-MeO-DMT, também inalável e para tratar depressão.

A corrida ainda está no começo, e o desenlace da fábula sugere cautela com o favoritismo da lebre. Uma razão para isso está nos estudos de Gül Dölen, da Universidade da Califórnia em Berkeley, como assinalou Reilly Capps no Substack. Seu grupo mostrou que o impacto comum a muitos compostos psicodélicos está na reabertura do período crítico de aprendizado social, como ocorre na infância.

Mais importante que a plasticidade, afirma, é a metaplasticidade fomentada por eles. Não tanto a quantidade de novas conexões, que afinal se multiplicam até em processos deletérios como dependência química, mas a prontidão do cérebro para usar as ligações facilitadas em rotas inovadoras de aprendizado.

O laboratório de Dölen também comprovou que essa janela alargada por onde fluem novos pensamentos permanece mais tempo aberta quanto mais longa for a experiência psicodélica. Ibogaína e LSD, cujas viagens podem durar mais de uma dezena de horas, seriam em teoria até mais benéficas que psilocibina e DMT, por exemplo.

Essa terceira via desloca o foco do efeito agudo das substâncias para o que se chama de “afterglow”, efeito residual que acompanha o psiconauta nos dias, semanas ou meses seguintes. Para o bem ou para o mal: sem contar com apoio psicoterapêutico ou condições reais para reorganizar a vida, reativar o período crítico de plasticidade, com psicoplastógenos que seja, pode deixar o caminho livre para frustração e desespero.

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Autor: Folha

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