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Como a exposição à magreza extrema afeta as mulheres – 07/04/2026 – Equilíbrio

As clavículas salientes e os braços finos das celebridades no tapete vermelho do Oscar deste ano chamaram tanta atenção quanto os filmes indicados. O padrão de beleza super magro voltou à tona e ganhou dimensão extrema, em meio ao avanço do conservadorismo e da popularização das canetas emagrecedoras.

Esse fenômeno é causado por um conjunto de fatores políticos e tecnológicos e não é novidade, afirma o publicitário Rodrigo Sanches, doutor em psicologia pela USP e pesquisador da imagem feminina na mídia. “Não é de hoje que a estética da magreza é associada à beleza, mas esse corpo foi sendo emagrecido nas últimas décadas, e as pessoas viram que há recursos rápidos para emagrecer.”

Nos anos 1990 e 2000, o corpo magro objeto de desejo fazia parte da estética que ficou conhecida como “heroin chic”.

“Esse modelo passa a ser apresentado mais uma vez como sinônimo de beleza e sucesso”, diz Mariana Kehl, psicóloga clínica e professora de psicologia da PUC-SP. “Toda vez que a cultura estreita demais essa definição, ela amplia o sofrimento. Essa pressão cultural é difusa, repetitiva e muito bem embalada.”

As mulheres são mais afetadas por um contexto histórico, completa Kehl. “O corpo feminino é historicamente mais vigiado, avaliado e moralizado. A mulher aprende precocemente que a aparência não é só uma dimensão da vida, é uma espécie de critério de valor social.”

Rodrigo Sanches ressalta que os corpos que desfilam no tapete vermelho são produzidos esteticamente para aquele momento, funcionando como uma vitrine, e é importante fazer essa distinção. “Essa imagem é vendida como algo natural, como se todas as mulheres tivessem recursos financeiros e tempo para viver da imagem”, diz.

Essa construção atende ao que ele chama de “indústria da dieta, beleza e boa forma”, empenhada em promover também procedimentos estéticos e cirúrgicos.

Essa magreza exagerada das celebridades ganhou até nome: “Hollyweird”, junção de Hollywood e “weird” (estranho, em inglês). A estranheza gera discussão, afirma o pesquisador. Os padrões são quase sempre inatingíveis: quanto mais magro, mais difícil de atingir, e quem chega lá ganha um atestado de sucesso, diz Sanches. Isso cria uma distinção social, que separa quem tem recursos para alcançar tal ideal.

O magro ao extremo também voltou às passarelas. Dos 7.817 looks apresentados em 182 desfiles na temporada outono/inverno 2026, 97,6% eram dos tamanhos 0 a 4 nos Estados Unidos (similar às peças que vão do 34 ao 38 no Brasil), de acordo com o relatório de inclusividade de tamanhos da Vogue Business. Não por acaso, marcas como Zara e Marks & Spencer foram proibidas de veicular anúncios com modelos muito magras.

Segundo Vanessa Hikichi, especialista em tendências da consultoria WGSN, a ascensão do Ozempic e medicamentos similares está transformando a nossa relação com própria imagem corporal e a percepção de magreza. Para ela, a indústria da moda reflete essa tendência em resposta ao desejo do consumidor por padrões mais medicalizados.

Em contraste, o movimento “body positive”, que celebra corpos diversos, tem perdido força. Para Hikichi, isso aconteceu porque as iniciativas acabaram absorvidas pelo mainstream e esvaziadas por estratégias de marketing, sem mudanças estruturais profundas.

As mulheres são submetidas a estímulos que promovem padrões de beleza irreais a todo o momento, no shopping, na publicidade, no cinema e na TV, afirma Sanchez. “Automaticamente, vou querer ser magra. A partir do momento em que não estou de acordo com um padrão que valoriza a magreza, vou ser uma pessoa frustrada.” As redes sociais, afirmam os especialistas, amplificam essa comparação.

Modas vêm e vão e fazem com que algo antes considerado feio passe a ser visto como atraente. “Tendências são moldadas por uma combinação de mercado, mídia e tecnologia”, afirma Hikichi, da WGSN. “A imagem tem a força de moldar a forma como nós pensamos o belo e o feio. Beleza é uma construção social histórica, política e econômica”, completa Sanches.

Tentar acompanhar esses padrões adoece mulheres. A exposição repetida a corpos inatingíveis altera a forma como a mulher se enxerga e provoca insatisfação com o próprio corpo, piorando o humor e a autoestima, diz Mariana Kehl. “A mulher está carregando um peso que não é dela, é da cultura.”

A internalização do ideal da magreza vira um problema quando a mulher passa a organizar a vida em torno do peso e da aparência, acrescenta a psicóloga. Quando ela consegue olhar para essa imagem e entender que se trata de uma construção, o efeito da comparação diminui, diz a psicóloga.

Com a popularização das canetas emagrecedoras, alcançar esse padrão ficou mais fácil e bem mais rápido.

Karen de Marca, vice-presidente da SBEM (Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia), alerta para os riscos do uso desses medicamentos por pessoas que não preenchem os critérios do tratamento ou sem orientação médica. “A pessoa que não quer de jeito nenhum ganhar peso passa a utilizar a medicação porque vê resultado naquelas que utilizam.” Ela afirma ainda que observa, em meio à onda de magreza, mais pacientes adquirindo distúrbios alimentares.

Ana Clara Floresi, psiquiatra colaboradora do Ambulim – Programa de Transtornos Alimentares do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, relata que a principal demanda de atendimento é de anorexia extrema. Ela também diz notar um movimento de adoecimento mais precoce, que surge na pré-adolescência.

Segundo a Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar, do IBGE, 36,1% das adolescentes brasileiras se declararam insatisfeitas ou muito insatisfeitas com a própria imagem (o dobro dos meninos) e 31,7% delas afirmam tentar emagrecer. O levantamento foi feito em 2024 com 12,3 milhões de estudantes de 13 a 17 anos das redes pública e privada.

Transtornos alimentares são causados por uma junção de fatores, afirma Floresi, e podem acometer qualquer pessoa —mulheres e adolescentes, porém, têm risco maior. Esses transtornos podem causar depressão e ansiedade, reduzindo a qualidade de vida. De acordo com a psiquiatra, o início de uma dieta costuma ser o gatilho. “Emagrecer não é indicado para todo mundo e não é para ser feito por conta própria, com base no que a influenciadora sugeriu”, afirma.

Um corpo extremamente magro pode apresentar diversos problemas, como cansaço, queda de cabelo, náusea, distúrbios menstruais, alterações de sono e deficiência vitamínica, lista Karen de Marca, da SBEM. Algumas pessoas podem desenvolver sarcopenia, a perda de massa e força muscular.

O emagrecimento excessivo é prejudicial em todas as faixas etárias, mas há diferenças em como o corpo reage. Na adolescência, pode impactar os hormônios e a função reprodutiva, com implicações como ausência de menstruação e hipogonadismo (baixa produção de estrogênio e progesterona).

Ao final dos 20 anos e início dos 30, os efeitos incluem amenorréia (ausência de menstruação) e infertilidade. A partir dos 40, a magreza gera complicações como osteopenia e fragilidade óssea. Transtornos alimentares após essa idade são menos comuns, mas igualmente perigosos, afirma Floresi, do Ambulim. “A pressão estética não poupa ninguém.”

Autor: Folha

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