A Federação Mundial de Obesidade estima que 38% dos brasileiros com idade entre 5 e 19 anos vivam atualmente com sobrepeso ou obesidade. Os medicamentos análogos de GLP-1, usados no tratamento de diabetes tipo 2 e obesidade e conhecidos como canetas emagrecedoras, amplamente utilizados por adultos para perda de peso, podem ser considerados seguros para crianças e adolescentes?
O endocrinologista Fábio Trujillo, presidente da Abeso (Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica), afirma que, para adolescentes maiores de 12 anos que tenham obesidade, o uso desses medicamentos deve ser sempre associado a um programa de mudança do estilo de vida, com alimentação adequada e prática de atividade física.
“A avaliação tem que ser muito criteriosa e levar em consideração vários fatores, como qual é o grau de puberdade, se ele [paciente] tem muitas comorbidades ou não”, diz o médico, que também é coordenador do Departamento de Obesidade da SBEM (Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia).
Dos medicamentos autorizados pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) e vendidos de forma regular no país, Victoza e Lirux (liraglutida) trazem na bula uso indicado a partir dos 10 anos de idade. Saxenda e Olire (liraglutida) têm indicação a partir dos 12 anos, assim como Wegovy e Poviztra (semaglutida). Já os medicamentos Ozempic e Rybelsus (semaglutida) e Mounjaro (tirzepatida) são indicados pelos fabricantes apenas para pessoas com mais de 18 anos.
Dados do SNGPC (Sistema Nacional de Gerenciamento de Produtos Controlados) obtidos pela Folha mostram que, em janeiro de 2026, foram vendidas 3.385 caixas de medicamentos análogos de GLP-1 prescritos para crianças e adolescentes até 18 anos. O número é pequeno na comparação com a venda total no mesmo período (443.815 caixas), mas dá pistas sobre o acesso da população dessa faixa etária a esse tipo de medicamento.
Essa base de dados ligada à Anvisa, que é preenchida por farmácias privadas com informações sobre as vendas de remédios controlados, mostra também que 2.542 caixas desses medicamentos foram vendidas fora da idade recomendada pelos fabricantes.
Em nota, a Anvisa diz que “o registro dos dados no SNGPC é de responsabilidade das farmácias e drogarias e deve ser feito de acordo com a prescrição. Como a variável ‘idade’ é um campo aberto, pode haver, dentro do universo total, erros de digitação, assim como é possível a prescrição fora das especificações da bula, o chamado uso ‘off label’“.
À Folha o CFF (Conselho Federal de Farmácia) afirma que os análogos de GLP-1 só podem ser dispensados mediante prescrição e retenção da receita e que a responsabilidade da prescrição é do médico.
“Cabe ao farmacêutico a análise da prescrição focando na segurança do paciente e na efetividade terapêutica, verificando aspectos legais e clínicos”, afirma o CFF. O órgão acrescenta que, quando houver dúvida quanto à indicação, “é recomendado que o farmacêutico entre em contato com o prescritor para esclarecimentos”.
Felipe Henning Gaia Duarte, presidente da SBEM Regional de São Paulo, diz que há estudos sobre eficácia e segurança do uso da tirzepatida por crianças e adolescentes, mas que a literatura científica ainda é escassa e que as evidências estão em construção.
Por isso ele afirma que o uso das canetas por menores de idade só deveria ser considerado em situações atípicas e severas, como em caso de falha ou resposta insuficiente de outros medicamentos, obesidade grave com comorbidades ou como alternativa à cirurgia bariátrica. “Mesmo assim existiria a necessidade do preenchimento do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido pelos pais e, no melhor cenário, o indivíduo deveria ser acompanhado em algum estudo clínico.”
Fábio Trujillo diz que, para crianças menores de 12 anos, a prescrição “off-label” pode ocorrer em situações muito específicas e de forma extremamente cuidadosa, já que as evidências científicas são limitadas.
“Abaixo de 12 anos a decisão tem que ser muito criteriosa e geralmente é importante que a decisão seja também dividida com a família e que tenha um acompanhamento por um profissional bastante experiente.”
O médico lembra que toda automedicação (sem acompanhamento médico) traz riscos, neste caso com efeitos adversos como problemas gastrointestinais e desnutrição —que pode levar a um déficit de crescimento— até complicações raras como pancreatite ou colecistite. Por isso Trujillo reafirma que todo tratamento da obesidade deve ter acompanhamento transdisciplinar, com médico, nutricionista, psicólogo e educador físico.
Outra preocupação está no fato de que esses medicamentos podem levar a uma digestão inadequada de nutrientes, influenciando a produção de hormônios e, assim, podendo desregular menstruação e ovulação. Impactos hormonais podem, ainda, causar um quadro de má formação óssea, aumentando o risco de osteoporose precoce.
“Todo esse impacto hormonal também pode influenciar no humor e no comportamento da criança“, afirma. “Mas, até o momento, não há sinal de forte prejuízo tanto no crescimento quanto no desenvolvimento sexual desde que essa criança ou esse adolescente seja bem acompanhado e tenha indicação correta.”
A Eli Lilly, fabricante do Mounjaro, afirma que a indicação para menores de 18 anos não consta na bula e que “não incentiva o uso off label de seus medicamentos”. A Novo Nordisk, farmacêutica responsável por medicamentos como Wegovy e Ozempic, afirma que “a utilização de qualquer apresentação de semaglutida deve seguir as indicações aprovadas pelas autoridades de saúde e a orientação de um profissional de saúde”.
Autor: Folha








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