Introdução
O trabalho remoto tornou-se prática comum em todo o mundo após a pandemia da Covid-19. Nos Estados Unidos, a
proporção de funcionários que trabalhavam principalmente em casa passou de 2,4% em 2010 para quase 59% quase dois
anos após a crise sanitária de 2020 (Mateyka et al., 2012; Parker et al., 2022). No Brasil, o Instituto Brasileiro
de Geografia e Estatística estimou que 11% dos trabalhadores ativos, ou 8,2 milhões, exerciam suas atividades
remotamente em 2020. Mesmo dois anos depois do choque da pandemia, 7,4 milhões de trabalhadores ainda estavam em
regime parcial ou total de teletrabalho (IBGE, 2021, 2023)ii.
O teletrabalho exige, porém, prontidão da infraestrutura de TIC (OECD, 2020), que é desigual no mundo e gerou
assimetrias na adoção do trabalho remoto pós-Covid (fig. 1A). Vejamos o caso do Brasil. Em 2020, apenas metade dos
municípios possuía cobertura mínima de internet de alta velocidade, medida pelo número de contratos de banda larga
fixa por 100 pessoas (fig. 1B). Além disso, regiões com menor potencial de teletrabalho coincidiram com regiões de
infraestrutura de internet mais precárias. Por exemplo, enquanto na região Sudeste 58,2% dos empregados trabalharam
remotamente em 2020, somente 3,3% dos trabalhadores da região Norte puderam fazê-lo (IBGE, 2021). De forma não
surpreendente, conseguimos mobilizar apenas metade do potencial da força de trabalho para adotar o regime de
teletrabalho (Goes et al., 2020).
Por que o Brasil é relevante para este estudo
O Brasil oferece um estudo de caso interessante para a comunidade acadêmica internacional no exame da relevância da
internet de alta velocidade para o mercado de trabalho, uma vez que o país refletia a média global de conectividade
em 2020, de cerca de 17 assinaturas de banda larga por 100 pessoas (ITU, 2022) (fig. 1C).
Com o choque exógeno da pandemia e as medidas de isolamento adotadas no Brasil para evitar a propagação da Covid-19,
surge a oportunidade de avaliar o quanto os recursos de internet podem contribuir para a empregabilidade e para os
salários. Isso porque os contratos de TIC não são facilmente ajustados no curto prazo, notadamente por dois motivos.
Primeiro, a infraestrutura de banda larga – por exemplo, a chegada de cabos ou fibra óptica perto de onde as pessoas
moram – não pode ser instalada rapidamente. Segundo, novos contratos de internet implicam mudanças nas restrições
orçamentárias das famílias, que foram particularmente comprometidas pela crise econômica causada pela pandemia (fig.
1D). Em outras palavras, nenhum comportamento antecipatório era esperado, dada a incerteza e o caráter extemporâneo
do choque agregado da pandemia (Imai Kim, 2019).
Figura 1: Contexto, Motivação e Apoios na Estratégia de Identificação
A: Relação entre TICs e Trabalho Remoto no Mundo

B: Municípios com Cobertura Banda Larga – 2020

C: Banda Larga no Brasil e no Mundo

D: Evolução de Contratos de Banda Larga – pré- e pós-choque

Notas: Fig. 1A: pesquisas em nível nacional sobre a adoção do trabalho remoto em 2020, coletadas pela Organização
Mundial do Trabalho (ILO), plotadas contra o Índice TIC elaborado pela União Internacional de Telecomunicações
(ITU); Fig. 1B: municípios com no mínimo 5 contratos de banda larga por 100 habitantes em março de 2020; fonte:
Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel). Fig. 1C: número de contratos de banda larga por 100 habitantes no
Brasil e no mundo. Fonte: ITU. Fig. 1D: contratos de banda larga por tipo de tecnologia no Brasil (fibra, cabo, e
outros) entre 2018 e 2022. Fonte: Anatel.
Estratégia de identificação
Esse estudo propõe a estratégia empírica das diferenças-em-diferenças (Dif-in-Dif) para mensurar o impacto médio das
taxas de separação, taxas de contratação e respectivos salários para municípios conectados comparados com municípios
não conectados à internet:
Ym,t = θm + δt,r + βinternetm · POSt + YXm,t +
εm,t
onde Ym,t é um resultado relacionado ao trabalho para o município m no trimestre t. Regressões separadas
são executadas para trabalhadores com e sem potencial para exercer suas atividades em teletrabalho, de acordo com a
natureza de suas ocupações e seguindo metodologia proposta primeiro para os Estados Unidos (Dingel Neiman, 2020). As
variáveis são desagregadas por nível de escolaridade, faixa etária e gênero;
internetm é uma variável dummy que é igual a 1 se a densidade mínima de banda larga fixa de 5
contratos por 100 pessoas estava em vigor no momento do surto de Covid-19 (Jung López-Bazo, 2020), e igual a 0 para
densidade mínima de contratos abaixo desse limiar. POSt é uma variável dummy que é igual a 0 para três
períodos anteriores ao choque e 1 para três períodos posteriores ao primeiro trimestre de 2020.
A hipótese de identificação é que, na ausência da internet, os resultados do mercado de trabalho em municípios
conectados e não conectados teriam seguido tendências paralelas. Essa suposição de identificação seria violada se os
movimentos na força de trabalho ocorressem por razões específicas dos mercados em que suas atividades são
executadas. Por exemplo, um funcionário seria contratado no pós-pandemia em um município específico devido às
condições econômicas locais. Para garantir que dinâmicas diferenciais em nível regional não influenciem os
resultados, as estimativas controlam para efeitos fixos de municípios (θm), tempo-região geográfica
imediata δt,r , e características sociodemográficas (Xm,t).
Resultados
Seis resultados empíricos principais são apresentados neste trabalho. Primeiro, constata-se que a margem extensiva de
separação para trabalhadores que ocupavam cargos com potencial de teletrabalho e residiam em municípios com internet
de alta velocidade disponível no início da pandemia, em março de 2020, foi, em média, 24% menor do que a dos
trabalhadores em municípios sem os mesmos recursos de TIC nos três trimestres seguintes ao choque.
Segundo, houve um aumento percentual de 19% nas novas contratações para cargos de trabalho remoto em municípios com
TIC disponíveis em comparação com municípios que não possuíam os mesmos recursos.
Terceiro, demonstra-se que aqueles que residem em municípios conectados mas que não estavam em cargos compatíveis com
o teletrabalho foram demitidos com uma variação percentual 5% menor e contratados com uma variação percentual 13%
maior do que trabalhadores equivalentes que residem em municípios onde a banda larga fixa não estava disponível.
Este resultado sugere a capacidade da internet de alta velocidade de gerar impactos de externalidade positivos no
mercado de trabalho. Mais especificamente, municípios com melhor infraestrutura de internet permitiram que um grupo
maior de trabalhadores permanecesse empregado, trabalhando de forma remota e, por isso, com menor queda na renda.
Dessa forma, eles puderam continuar consumindo e beneficiando outros setores que não puderam realizar atividades
remotas.
Notas: estimativas dos coeficientes de diferenças em diferenças, com base na especificação principal da equação
1. As variáveis de resultado estão em logaritmo. As observações são em nível de município-trimestre, com efeitos
fixos de município e região-tempo e desvios-padrão agrupados no nível de município. Os controles são o número
acumulado de óbitos relacionados à Covid-19 e o benefício financeiro recebido pelas empresas por meio de
financiamento governamental em resposta à pandemia. As regressões são ponderadas pela população dos municípios
de 2019. O valor p relatado refere-se à diferença entre as variáveis de interesse para trabalho remoto e não
remoto .
Em quarto lugar, a análise de heterogeneidade por gênero sugere que as mulheres podem não ter sido tão protegidas
quanto os homens contra demissões para ocupações de teletrabalho após a pandemia, um resultado relevante dado
que as mulheres ocupam mais posições com potencial de teletrabalho.
O quinto resultado relevante é que há uma diminuição relativa nos salários de contratações em municípios
conectados em comparação com municípios não conectados entre trabalhadores ocupando cargos que permitiriam
adotar o teletrabalho, o que está alinhado com artigos acadêmicos anteriores que mostram a diminuição dos
salários para trabalhadores remotos no pós-pandemia, possivelmente como uma compensação pelo “efeito de valor de
comodidade” do teletrabalho (Barrero et al., 2023; Sasso, 2022). Novamente, essa desvantagem foi observada
somente para mulheres. Finalmente, e conforme esperado, os resultados de empregabilidade são estatisticamente
significativos e mais favoráveis à força de trabalho jovem e com maior escolaridade.
Os resultados são robustos a diversas especificações econométricas, entre elas, um teste de falsificação que
atrasa artificialmente o choque exógeno em um ano e um exercício que utiliza a especificação de matching
(“correspondência”) entre municípios para garantir a comparabilidade do mercado local. A Figura 2 ilustra a
evolução da mensuração dos coeficientes das regressões para trabalhadores com potencial para adoção de
teletrabalho para separações e contratações, dessa vez apresentando os resultados pela diferença do logaritmo
para tratar da ciclicidade dos dados do mercado de trabalho. Conforme esperado, os coeficientes antes do choque
são estatisticamente não significativos, o que demonstra a comparabilidade entre municípios conectados e não
conectados à internet.
Figura 2: Design dos Estudos de Eventos
A: Separações

B: Contratações

Notas: Os gráficos acima mostram o momento do impacto da Covid-19 e o que ocorre com o fluxo de entrada e de
saída de trabalhadores em municípios com e sem banda larga fixa, entre três trimestres antes e três trimestres
depois do choque inicial da pandemia. Os coeficientes são estimados por Dif-in-Dif para a diferença do
logaritmo, com intervalos de confiança de 95%. As regressões utilizam efeitos fixos de município interagidos com
a região geográfica imediata e erros-padrão agrupados no nível de município. As regressões foram ponderadas pela
população dos municípios de 2019.
Conclusão
Os resultados deste trabalho evidenciam a importância de políticas públicas ativas que visem a reduzir as
desigualdades regionais no Brasil, tanto no mercado de trabalho quanto na infraestrutura tecnológica. Nas
palavras da Organização Internacional do Trabalho:
“A conectividade está se tornando um novo direito humano. No entanto, intervenções bem-sucedidas adotam uma
abordagem holística para a transformação digital que inclui uma estrutura coerente de políticas de emprego,
a infraestrutura tecnológica adequada e investimentos no desenvolvimento de habilidades.” (ILO, 2020b)
Apesar de as especificações utilizadas permitirem estabelecer o efeito causal da disponibilidade de internet de
alta velocidade no mercado de trabalho, este estudo apresenta algumas limitações. Embora o conjunto de dados em
painel elimine o desafio das características não observáveis dos trabalhadores que são invariáveis no tempo, ele
não permite a investigação dos efeitos de longo prazo da internet sobre o trabalho, tendo em vista o eventual
ajuste nos contratos de internet. Além disso, a base pública utilizada nesta pesquisa não contém a identificação
do trabalhador, de modo que não é possível monitorar deslocamentos entre indústrias e ocupações, ou entre
municípios pré- e pós-choque. Finalmente, apenas as informações sobre a entrada e a saída de trabalhadores estão
publicamente disponíveis, mas não o estoque de empregados distribuído por segmentações de interesse (gênero,
escolaridade, idade, etc.).
Pesquisas futuras podem mitigar as duas últimas limitações descritas com a base de dados ampliada da RAIS/CAGED
disponível no Banco Central. Além disso, esta pesquisa pode ser expandida para examinar o que acontece com a
força de trabalho por setor de emprego e por tamanho da firma, assim como o impacto da internet no setor laboral
e seus reflexos na economia bancária, como a concessão do crédito e a dinâmica entre bancos tradicionais e
digitais.
i O termo “separação” utilizado neste artigo refere-se ao término da relação trabalhista, seja por
decisão do empregado ou do empregador.
ii Definição de “teletrabalho” adotada pela Organização Mundial do Trabalho (OIT): trabalho executado
em um local alternativo e usando equipamentos de tecnologia da informação e comunicação (TIC) nas atividades
laborais (ILO, 2020a).
Referências
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Sasso, M. (2022). When Work From Home Means Work for Less.
Bloomberg Businessweek, (4765), 33.
Flavia Nepomuceno L. Alves é doutora em políticas públicas pela Carleton University, servidora do
Banco Central do Brasil e atua no Departamento de Estudos e Pesquisas (Depep). Este blog é um sumário do segundo
artigo da tese de doutorado da servidora, que foi publicado no Telecommunications Policy Journal (Alves,
2025).








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