quinta-feira, abril 9, 2026
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Como as cadeias de suprimentos se adaptam a eventos climáticos extremos

​​Introdução

Este texto trata do impacto de eventos climáticos extremos na cadeia de suprimentos brasileira, trazendo alguns dos
resultados que apresentamos em
Silva et al (2025).
i Nossa análise combina dados proprietários do BCB sobre pagamentos entre empresas – Pix, boletos e TEDs
– com dados dos 30 maiores eventos climáticos extremos ocorridos no Brasil
ii entre 2020 e 2021.
iii Usando os dados de pagamentos entre clientes e fornecedores,
iv construímos a cadeia de suprimentos brasileira. O evento climático extremo produz um choque que se
propaga pela cadeia de suprimentos. O texto examina o efeito causal desse choque sobre a cadeia de suprimentos por
meio de duas abordagens. Na primeira, são analisados os efeitos diretos do choque climático. Para isso, consideramos
os pagamentos bilaterais entre fornecedores e clientes. Focamos nos pagamentos da empresa afetada e examinamos se
seus pagamentos diminuem comparativamente aos pagamentos de uma empresa semelhante não afetada. Na segunda abordagem
avaliamos o impacto indireto, ou seja, os efeitos do choque para empresas de áreas não afetadas e possível
reconfiguração da cadeia de suprimentos. Para isso, utilizamos dados ao nível da empresa em vez de relações
cliente-fornecedor e focamos nos pagamentos das empresas fora da área afetada. Dessa forma, é possível identificar a
substituição das empresas afetadas por meio da variação de pagamentos entre empresas afetadas e não afetadas
semelhantes e do mesmo setor. As duas análises, impacto direto e indireto, são realizadas sob duas perspectivas. Na
perspectiva
downstream (jusante), o fornecedor é afetado pelo choque climático e o efeito é transmitido para os
clientes. Na perspectiva
upstream(montante), o cliente é afetado pelo choque climático e o efeito é transmitido para os
fornecedores. Os efeitos do choque são estimados para um período de um ano após o evento climático.

Efeitos diretos de eventos extremos na cadeia de produção

Nesta seção, consideramos as relações bilaterais cliente-fornecedor. As análises são sempre relativas, comparando-se
os pagamentos de ou para empresas afetadas aos pagamentos de ou para empresas não afetadas realizados após o choque
climático. A análise considera que firmas afetadas são aquelas que se localizam na microrregião
v afetada pelo evento climático.

  • Perspectiva
    downstream – impacto direto médio em até um ano

Na perspectiva
downstream, o choque climático atinge diretamente o fornecedor afetando sua capacidade de atender seus
clientes. Para possibilitar a análise, consideramos os clientes que se relacionam com dois tipos de fornecedores: os
afetados e os não afetados pelo evento climático. Com isso podemos comparar os pagamentos de dois grupos de
fornecedores: os afetados pelo evento extremo (grupo de tratamento) e os não afetados (grupo de
controles).vi Fixamos o cliente para controlar para a demanda com que os fornecedores se deparam.
Adicionalmente, para mitigar potenciais vieses de variáveis omitidas, comparamos conjuntos de fornecedores dentro do
mesmo setor econômico e adicionamos um conjunto abrangente de controles e efeitos fixos. Dessa forma, podemos
concluir que a diferença encontrada entre os pagamentos a fornecedores afetados e não afetados após o evento extremo
é causada pelo choque climático. A figura 1.a ilustra a nossa estratégia de identificação.vii

Nessa análise encontramos que, num intervalo de tempo de até um ano, os fornecedores afetados recebem em média 4,3%
menos comparativamente a fornecedores não afetados do mesmo setor, do mesmo cliente fora da área afetada. Essa
redução alinha-se à visão de que eventos climáticos extremos afetam a capacidade produtiva de fornecedores,
provavelmente devido a danos a infraestrutura e a propriedades, ativos ociosos, escassez de insumos ou aumento de
custo. Adicionalmente, os fornecedores podem enfrentar problemas de liquidez e aumento na necessidade de capital,
ampliando o impacto na cadeia de suprimentos. Com o impacto do choque climático, os fornecedores podem interromper
ou diminuir o atendimento dos pedidos dos clientes. Consequentemente, os clientes fora da área afetada podem atrasar
ou reduzir seus pagamentos a esses fornecedores afetados.

  • Perspectiva
    Upstream – impacto direto médio em até um ano

Na perspectiva
upstream, o choque climático impacta diretamente o cliente reduzindo sua relação com seus fornecedores.
Para a análise dessa perspectiva, utiliza-se estratégia empírica semelhante à da perspectiva
downstream. Fixamos o fornecedor para controlar a oferta e comparamos os pagamentos feitos por clientes
afetados (grupo de tratamento) com os pagamentos feitos por clientes não afetados (grupo controle). A figura 1.b
ilustra a estratégia de identificação para esse caso.

Nessa perspectiva, o efeito médio da propagação do choque de demanda indica pequeno aumento dos pagamentos feitos por
clientes afetados, porém esse efeito não é economicamente significativo. Esse resultado sugere que fornecedores não
afetados podem ver os clientes afetados como mais arriscados e, portanto, podem exigir pagamentos maiores ou mais
rápidos de clientes em situações difíceis para mitigar o risco de não pagamento ou pagamento atrasado. Outra
possibilidade é a necessidade de reconstrução de suas instalações ou recomposição de estoques devido à danos e perda
de mercadorias.


Figura 1: Esquema da estratégia de identificação para as perspectivas (a)
downstream e (b)
upstream. Na figura, utilizam-se indústrias de manufatura para exemplificar.

  • Estudo de evento (perspectivas
    downstream e
    upstream) – impacto direto trimestre a trimestre

Nos resultados acima, têm-se uma média dos efeitos do choque climático ao longo dos períodos seguintes ao evento
extremo, em relação ao período anterior. Em contaste, no estudo de evento, o impacto é calculado para cada trimestre
relativo após o evento climático. Observamos que antes do evento climático extremo não há sinais de tendências
prévias entre pagamentos de e para empresas afetadas versus não afetadas. Somente após a ocorrência do evento
extremo observamos mudanças nos pagamentos a fornecedores afetados (downstream) e de clientes afetados
(upstream) (Gráfico 1). Os fornecedores afetados recebem, do mesmo cliente, menos comparativamente aos
fornecedores não afetados até quatro trimestres após o choque climático (Gráfico 1.a), reforçando os resultados
descritos anteriormente. Os pagamentos dos clientes afetados apresentam maior variação. Logo após o choque
climático, os clientes afetados pagam menos aos fornecedores externos em comparação com os clientes não afetados do
mesmo setor, possivelmente devido à diminuição de demanda ou interrupções na capacidade de produção devido ao
choque. Posteriormente, os clientes afetados pagam relativamente mais até o terceiro trimestre após o evento
climático, refletindo maior risco ou necessidade de recomposição de estoques, conforme análise acima. Na média, há
ligeiro aumento dos pagamentos dos clientes afetados como reportado acima (Gráfico 1.b)


Gráfico 1: Estudo de evento. Os gráficos mostram os efeitos médios da propagação do choque
estimados para cada trimestre relativo ao evento climático extremo. As barras verticais denotam intervalo de
confiança de 95% das estimativas.

Efeitos indiretos de eventos extremos na cadeia de produção

Na seção anterior, analisamos a relação direta cliente e fornecedor e mostramos que ocorre redução relativa no fluxo
de pagamentos da empresa afetada pelo choque climático. Nessa seção complementamos a análise anterior examinando o
impacto do choque climático para além da área afetada. Queremos entender se ocorrem alterações nos pagamentos de
empresas fora da área afetada, configurando uma reorganização da estrutura da cadeia de suprimentos. Buscamos
responder se empresas fora da área afetada com vínculo econômico com empresas afetadas conseguem mitigar a redução
relativa da oferta ou demanda de produtos ou serviços substituindo suas contrapartes por outras empresas de áreas
não afetadas. Para possibilitar essa análise, utilizamos os pagamentos em nível de empresa, e não bilaterais
cliente-fornecedor como na seção anterior. Dessa forma, podemos verificar novas relações bilaterais surgidas após o
choque climático.

  • Perspectivas
    downstream e
    upstream – impacto indireto médio em até um ano

A estratégia de identificação para essa análise na perspectiva
downstream é representada na Figura 2. Primeiro, são agregados os pagamentos de clientes fora da área
afetada para fornecedores afetados e não afetados feitos um ano antes do evento extremo. Em seguida, avalia-se o
nível de intensidade de exposição desses clientes considerando a parcela de pagamentos para fornecedores afetados em
relação ao total de pagamentos. Exemplificando na Figura 2, o Cliente A paga R$ 20 para fornecedores afetados e R$
80 para fornecedores não afetados. Então, seu nível de exposição é 80/100 = 0,2. Da mesma forma, o nível de
exposição do Cliente B é 90/100 = 0,9. A estratégia de identificação compara pagamentos de clientes fora da área
afetada, dentro do mesmo setor e município, mas com diferentes níveis de intensidade para fornecedores afetados.
Para perspectiva
upstream, usamos estratégia semelhante, considerando-se o nível de exposição dos fornecedores como a
parcela de pagamentos recebidos de clientes afetados em relação ao total de pagamentos.
viii


Figura 2: Esquema da estratégia de identificação para avaliar efeitos indiretos de eventos
climáticos extremos agudos para a perspectiva a dowmstream

Os resultados obtidos nas análises econométricas utilizando-se os pagamentos totais agregados (firmas afetadas e não
afetadas) mostram que não há diferenças significativas entre pagamentos de empresas mais e de empresas menos
expostas às firmas em áreas afetadas, tanto na perspectiva
downstream quanto na
upstream. Esses resultados sugerem que, no agregado, as empresas de fora de áreas afetadas conseguem
substituir fornecedores ou clientes afetados com relativamente pouco atrito, mantendo níveis de pagamento estáveis.

  • Estudo de evento (perspectivas
    downstream e
    upstream) – impacto indireto trimestre a trimestre

Aprofundamos a análise com estudo de evento utilizando, além de pagamentos totais, pagamentos desagregados entre
pagamentos feitos a empresas afetadas e pagamentos feitos a empresas não afetadas. Inspecionamos a tendência prévia
e os efeitos indiretos variantes nos trimestres após o evento extremo nas perspectivas
downstream (Gráficos 2.a, 2.c e 2.e) e
uptstream (Gráficos 2.b, 2.d e 2.f). A análise é realizada utilizando três recortes dos pagamentos:
pagamentos totais entre
empresas afetadas e não afetadas (Gráficos 2.a e 2.b), pagamentos feitos a/recebidos de
contrapartes de empresas afetadas (Gráficos 2.c e 2.d), e pagamentos feitos a/recebidos de
contrapartes de empresas não afetadas (Gráficos 2.e e 2.f). Antes dos eventos climáticos extremos, não há
sinais de tendências prévias entre empresas de fora da área afetada com maior ou menor exposição a empresas da área
afetada. Somente após os eventos extremos observamos mudanças na dinâmica de pagamentos, consistentes com as
conclusões anteriores. Há redução de pagamentos de e para empresas afetadas e aumento de pagamentos de e para
empresas não afetadas. Destacamos o efeito persistente dos eventos climáticos extremos sobre as empresas afetadas e
as consequências econômicas na cadeia de suprimentos. As empresas fora das áreas afetadas substituem suas
contrapartes das áreas afetadas por empresas fora das áreas afetadas (Gráficos 2.c a 2.f). Esse rearranjo na cadeia
de suprimentos persiste ao longo do tempo sugerindo que as mudanças nos relacionamentos das empresas em consequência
de eventos extremos têm efeitos duradouros nas empresas afetadas.

Os resultados do impacto indireto evidenciam a necessidade de se analisar impacto de choques climáticos sob
diferentes aspectos. Ao analisarmos os resultados do efeito direto apresentados no Gráfico 1.b, por exemplo, parece
haver um efeito negativo temporário para os clientes afetados. Entretanto, como mostra o Gráfico 2.d, ao ampliarmos
a análise para permitir novas relações clientes-fornecedores, vemos o que o efeito negativo sobre clientes afetados
é persistente.


Gráfico 2: Estudo de evento. Os gráficos mostram os efeitos médios da propagação do choque
estimados para cada trimestre relativo ao evento climático extremo. As barras verticais denotam intervalo de
confiança de 95% das estimativas.

Considerações finais

Eventos climáticos extremos têm impacto relevante na cadeia de suprimentos. Entretanto, a cadeia de suprimentos
brasileira mostra-se resiliente e flexível. As empresas de fora da área afetada geralmente conseguem substituir
empresas contrapartes afetadas por empresas não afetadas. Por um lado, a capacidade de adaptação da cadeia de
suprimentos mitiga os efeitos dos eventos extremos. Por outro lado, essa adaptação pode implicar em redução na
participação do mercado das empresas afetadas por um período longo, fragilizando ainda mais a economia do município
afetado por eventos climáticos extremos.

Referência bibliográfica

Silva, T.C., Wilhelm, P.V.B. e Guerra, S.M. (2025)
Weathering the storm: how supply chains adapt to extreme climate events, Trabalho para discussão do Banco
Central do Brasil nº 613.

Thiago Christiano Silva é servidor do Banco Central do Brasil e está afastado para atuar no Fundo Monetário
Internacional. Paulo Victor Berri Wilhelm é estudante de doutorado em Economia na Universidade Católica de Brasília
e estagiário de pós-graduação do Banco Central do Brasil. Solange Maria Guerra é servidora do Banco Central do
Brasil e atua no Departamento de Estudos e Pesquisas (Depep).

i Informações mais detalhadas sobre dados e metodologia utilizados, incluindo modelos econométricos, e
análises mais aprofundadas podem ser encontrados em Silva et al (2025).

ii As informações sobre eventos climáticos extremos foram extraídas da base de dados de desastres
ambientas
Sistema Integrado de Informações sobre Desastres (S2ID) do
Ministério de Integração e do Desenvolvimento Regional. A mensuração utilizada para selecionar os maiores eventos
baseou-se nos impactos na vida e saúde humanas e na economia. Dentre os 30 maiores desastres naturais, prevalecem as
chuvas intensas, inundações e enxurradas. Exclui-se secas devido à dificuldade em identificar a data exata de seu
início. Ressalta-se que a amostra utilizada não inclui eventos climáticos raros – que ocorrem com frequência muito
baixa, mas apresentam severidade de grande amplitude e proporções, como o ocorrido no Rio Grande do Sul em 2024.
Portanto, os efeitos econômicos reportados nesse boxe podem ser significativamente maiores quando incluído esse tipo
de evento climático.

iii O período de análise foi definido considerando a disponibilidade de dados e a necessidade de uma
janela de tempo de pelo menos doze meses antes e depois de cada evento climático extremo.

iv Ao longo do texto, “cliente” e “fornecedor” referem-se, respectivamente, a empresas clientes e
fornecedoras, com “empresa” sendo omitida para concisão do texto.

v Consideramos a circunscrição geográfica de um evento extremo uma microrregião e não um município, pois
os municípios dentro de uma microrregião tendem a ser fortemente interconectados, e muitos dos eventos extremos que
consideramos afetam a maioria dos municípios da microrregião.

vi Essa técnica que utilizamos nos exercícios econométricos é denominada de diferenças-em-diferenças.

vii As especificações econométricas, as variáveis controles e os efeitos fixos utilizados podem ser
encontrados em Silva et al (2025) (equação 1 para a perspectiva
downstream e equação 2 para a perspectiva
upstream). Os resultados quantitativos dos modelos econométricos, para as duas perspectivas, são
apresentados na tabela 3.

viii As equações para cálculo do nível de intensidade de exposição e a especificação econométrica podem
ser encontradas em Silva et al (2025) (Equações 4 e 5, respectivamente).



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