Nos últimos dias, às vésperas da abertura da alta temporada de subidas ao cume do Everest ( 8.848 metros de altitude), no Nepal, circularam informações por todo o mundo de que montanhistas estariam sendo envenenados pelos seus guias em conluio com empresas de resgate aéreo para fraudar seguradoras, em um esquema que teria movimentado em torno de US$ 20 milhões (R$ 103.000.000 no câmbio aproximado). A isso se somou uma longa reportagem da publicação especializada Climbing Magazine afirmando que o governo nepalês estaria criando uma taxa para escaladores endinheirados e impacientes mediante a qual teriam prioridade na saída dos acampamentos. Eles poderiam, assim, fugir das longas filas registradas todo ano na reta final do Hillary Step, que geram fotos absurdas de cidadãos encapuzados em plena zona da morte, onde o ar é tão rarefeito que até pensar sacrifica —imagine então o leitor ficar parado só esperando o macacão colorido lá no topo tirar a obrigatória selfie para postar nas redes sociais.
De acordo com a publicação, o passe vip, chamado de FastClimb Premium Summit+ (ou algo como Subida Rápida Premium ao Cume), adicionaria US$ 12.000 (R$ 62.000) aos já salgados US$ 11.000 (R$57,000) cobrados pelo governo local para a permissão de acesso ao pico do mundo nesta temporada. Entretanto, já no dia seguinte, a Climbing Magazine acrescentou um alerta no topo do texto: tratava-se de uma mentirinha de 1° de abril. Não, não haverá privilégio para a turma milionária. Não esse, pelo menos.
Mas, se a história do passe vip era uma brincadeira, a notícia das fraudes nos resgates era séria —só não é nova. Segundo guias e montanhistas experientes correram às redes para esclarecer, esse tipo de denúncia já circula pelo menos desde antes da pandemia, coincidindo com o aumento exponencial da procura pela experiência no cume supremo e a afluência cada vez maior de pessoas não tão preparadas quanto seria de esperar. Já o tempero da temporada, o tal do envenenamento que guias mal intencionados estariam impingindo em incautos, de acordo com os especialistas ouvidos pela coluna, não tem a menor comprovação e cheira a intriga.
Segundo o montanhista brasileiro Pedro Hauck, que há décadas leva montanhistas e trilheiros pelos caminhos e montanhas mais exigentes, os sintomas descritos como sendo “envenenamento” nada mais são que aqueles que caracterizam o conhecido “mal de montanha”: fortes dores de cabeça, náuseas, vômitos, diarreias e distúrbios gastrointestinais de vários calibres, provocados pela altitude extrema da região. Pode até acontecer de esses problemas se agravarem ao ponto de demandarem extração do afetado, mas a imensa maioria dos casos se resolve com a descida a altitudes menores para melhor aclimatação ou um prevenido kit de primeiros socorros, item obrigatório para qualquer aventureiro.
“Conversando com amigos e sherpas que moram no Nepal, ninguém soube de nenhuma prova de que houve esse envenenamento”, explica Hauck, que fez um longo vídeo no Instagram alertando para os exageros dos boatos. “Os sintomas do mal de montanha são os mesmos de uma intoxicação alimentar, tive clientes que passaram mal e diziam que seria algo que tinham comido, mas aí afetaria todos os que comeram a mesma coisa, então não é o caso”, acrescenta.
Para outro expert nas trilhas do Himalaia, Manoel Morgado, primeiro brasileiro a completar a pé e sozinho a Grande Trilha do Himalaia, com 1.425 quilômetros de extensão, a versão do envenenamento realmente não faz sentido, “parece muito forçada”. Mas ele confirma que as fraudes são notícias que vêm de longe. “Se conta que pequenas empresas, que vendem um pacote de trekking para o campo-base do Everest por US$ 1.500 e têm US$ 200 de lucro, de repente aproveitam para receber US$ 1.000 por um resgate, alegando que o cliente estava com muita dor de cabeça e o haviam convencido a voltar, ou mesmo chegando no campo-base sugerir a esse cliente que, em vez de voltar a pé, podia voltar de helicóptero, mais rápido e confortável, e que ele ‘arranjaria’ isso com a agência”, relata.
O problema apontado tanto por Morgado como por Hauck é que esse tipo de “jeitinho” à la nepalesa acaba, na verdade, encarecendo os seguros contratados para o país, que já não são baratos pelas dificuldades envolvidas em um resgate naquelas latitudes.
E com eles concorda o montanhista Moeses Fiamoncini, também bom conhecedor das altas montanhas do Himalaia, primeiro brasileiro a escalar o Broad Peak ( 8.051 metros) em 2022 e um dos que ajudaram a identificar o local da queda do indiano Anurag Maloo no Anapurna ( 8.091 metros), em abril de 2023, resgatado milagrosamente com vida. “Sempre houve fraudes em resgates, mas fraude financeira”, conta ele. “Até hospitais todos diziam que estariam envolvidos no esquema, mas a história do envenenamento serve mais para sujar o nome das empresas nepalesas, o que seria de interesse das grandes agências estrangeiras”, acrescenta.
A coluna tentou contato com a embaixada do Nepal e os órgãos de turismo do país, mas não teve retorno até o fechamento deste texto.
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Autor: Folha




















