Na infância, nossos gostos e crenças costumam ser um reflexo do que vemos em casa. Já com a chegada da adolescência, vamos conhecendo mais pessoas, criando novas relações por afinidade e moldando as nossas próprias percepções religiosas, políticas e sociais. Nessa época, os objetivos de vida tendem a se transformar —e tudo isso é visto como algo natural.
A partir da vida adulta, mudar de ideia assume outras conotações. Por um lado, pode ser sinônimo de fraqueza: afinal, você não foi “forte o bastante” para defender o que acredita. Por outro, o indício de inconsistência ou falta de clareza. Por que é tão difícil assimilar (ou bancar) uma mudança de opinião?
A dor de mudar de ideia
Dar o braço a torcer: a própria expressão já remete a uma imagem desconfortável. Ao assumirmos uma mudança de posicionamento, tememos demonstrar indecisão, vulnerabilidade, falta de personalidade ou até de caráter. E, coletivamente, tendemos a admirar uma pessoa que se mantém firme e consegue sobrepor sua opinião à de outra.
Em um cenário cada vez mais polarizado, isso se intensifica: opiniões passam a funcionar como marcadores de identidade e pertencimento, e reconsiderar uma posição pode ser interpretado como uma espécie de “traição” ao grupo ao qual se pertence. Nesse contexto, revisar crenças deixa de ser um movimento natural de amadurecimento e passa a ser percebido como risco social, emocional e até moral.
Fatos não bastam
Estudos recentes indicam que nem os fatos são eficientes para modificar as crenças de uma pessoa. No vídeo “O Que te Faz Mudar de Ideia“, o biólogo Atila Iamarino reforça essa tese e explica por que é tão difícil convencer alguém a rever uma posição. Ele afirma que, do ponto de vista fisiológico, nosso pensamento tem mais a ver com o trabalho de advogado do que com o de cientista. Isso porque o primeiro encontra uma tese e depois busca evidências para defender sua ideia. Já o segundo, procura as evidências para depois formular a sua tese.
Na prática, em uma discussão, o ser humano costuma ser movido, em primeiro lugar, pelo emocional. Ou seja, primeiro julgamos intuitivamente se aquilo é bom ou ruim, e só depois o racional entra em campo, buscando comprovações para aquela decisão já estabelecida. Esse caminho acontece especialmente quando o que estamos discutindo está vinculado a questões que envolvem princípios, moralidade, política e identidade.
Diante de temas que despertam sentimentos fortes —o famoso “religião não se discute”—também são as emoções, e não os argumentos, que costumam motivar a mudança de opinião. Por exemplo: uma pessoa homofóbica que acolhe o filho homossexual.
Em eterna evolução
É muito improvável que nossas convicções atuais sejam verdades inabaláveis. Afinal, foi revendo antigas certezas que o ser humano evoluiu ao longo dos milênios —caso contrário, talvez ainda pensássemos que somos o centro do universo. De acordo com essa lógica, a capacidade de mudar de ideia deveria ser entendida como um sinal de inteligência.
O mundo seria um lugar mais tranquilo se todo mundo pudesse ser uma metamorfose ambulante sem medo de críticas, julgamentos ou linchamentos morais. Afinal, além de fazer parte da vida e do desenvolvimento pessoal de cada um, pensar diferente nos coloca em contato com novas pessoas e perspectivas, alimenta o encantamento pela vida, desperta a curiosidade e nos empurra a exercitar o senso crítico que sustenta a nossa habilidade de aprender. Além de tudo, a capacidade de mudar de opinião nos ajuda a entender que quem está do outro lado não é, necessariamente, alguém maldoso ou menos inteligente.
Abrace a mudança
Nada disso vale se você não exercitar a sua própria disposição a rever ideias. Da próxima vez que estiver conversando com alguém e esbarrar em uma discordância, tente realmente escutar e levar em conta os argumentos trazidos pela outra pessoa. Ainda que ninguém recue, é possível que você entenda um pouco mais a linha de raciocínio da outra pessoa e até crie uma empatia por ela.
Além disso, se alguém contar que mudou de ideia sobre certo assunto, tente não questionar ou cantar vitória —o famoso “não disse?”. Mais vale acolher a mudança e entender o que fez com que ela acontecesse. Essa simples postura pode fazer com que pelo menos uma pessoa não tenha vergonha de assumir que mudou de opinião.
Autor: Folha








.gif)












