A influência da inteligência artificial é visível nas ruas do Vale do Silício. Os outdoors exibem propaganda de servidores de nuvem para IA, carros autônomos carregam passageiros pelos subúrbios e as pessoas conversam nos computadores com seus agentes —espécie de auxiliar virtual.
Na costa oeste dos Estados Unidos, afamada por abrigar a vanguarda da tecnologia, parte dos profissionais já divide projetos com modelos de IA autônomos e a chefia das empresas tem reestruturado seus negócios, segundo o relato de brasileiros que ocupam cargos de destaque em empresas americanas no evento Brazil at Silicon Valley. Empresários na plateia demonstraram interesse em seguir o exemplo.
O evento começou com um relato de Pedro Franceschi, fundador da empresa Pagar.me que deixou o Brasil para empreender nos EUA, sobre o papel central da IA em seus negócios. Na Califónia, ele fundou a Brex, empresa que começou emitindo cartão de crédito para outras startups, cuja venda ao banco Capital One por US$ 5,1 bilhões foi concluída na terça-feira (7).
A startup de Franceschi, que chegou a ser avaliada em US$ 12 bilhões, precisou se reformular após o investimento em digitalização secar com o fim da pandemia.
A solução, afirmou o executivo, passou por abandonar áreas em que não tinha expertise, repensar todos os processos para incluir IA generativa e cortar redundâncias. Até o cofundador Henrique Dubugras foi cortado e mantido apenas na presidência do conselho da startup.
“Esse foi um processo poderoso porque eliminamos duas camadas de gestão na empresa e reconhecemos todos de volta à sua atividade-fim, ou seja, no que essas pessoas são realmente boas”, disse Franceschi.
De acordo com o fundador da Brex, a empresa hoje trabalha com “empregados virtuais” que são gerenciados por especialistas. Hoje, a empresa opera os pagamentos de OpenAI, Anthropic, entre outros gigantes.
“Temos cerca de 1,5% do mercado americano. Ainda temos outros 98% do negócio para conquistar”, disse.
Estudo da Universidade Stanford com base em 51 casos de uso bem-sucedidos de IA nos negócios mostra que houve demissões em 45% das vezes. Em 19%, os CEOs afirmaram que deixariam de contratar.
Embora se baseie em 51 casos, o estudo abrange 41 empresas de sete países que não foram identificadas. De acordo com os autores, uma das empresas tem mais de 200 mil funcionários.
O estudo foi liderado por Erik Brynjolfsson, professor de Stanford e um dos primeiros economistas a quantificar os efeitos do avanço tecnológico no PIB.
“Quando se juntam as demissões e a interrupção nas contratações, devemos ver um efeito em dois terços da força de trabalho”, resume um dos autores do estudo, Alvin Graylin. De acordo com o pesquisador, os dados foram coletados entre agosto de 2024 e janeiro de 2025, antes dos avanços mais recentes da tecnologia.
“Assim que os CEOs começarem a demitir de metade a dois terços de suas forças de trabalho, isso criaria um efeito cascata que tornaria a economia muito instável. Os EUA, por exemplo, não têm rede de segurança social e sua população tem baixa poupança”, citou Graylin. A baixa poupança também é uma realidade entre famílias brasileiras.
Elisa Pereira, que já trabalhou em fundos de investimento de risco no Brasil e é coautora do estudo, diz que os casos também mostram chances de usar IA para aumentar receitas em vez de demitir pessoas.
“As pessoas que estão nesses projetos precisam de apoio dos seus líderes. Perguntar quantas pessoas a tecnologia vai substituir na empresa não é uma boa estratégia; é preciso buscar outras métricas.”
O estudo detalha casos em setores diversos: de recrutamento de talento com triagem feita por IA generativa a bancos que estão digitalizando dados guardados em extratos financeiros impressos.
As empresas ainda erram: dos 51 casos, 61% foram considerados bem-sucedidos. Mesmo entre os exemplos de sucesso, 61% passaram por algum erro antes de dar certo.
Para Mat Velloso, que liderou times de IA no Google e na Meta e passou a atuar como consultor no início do ano, as empresas deveriam focar a IA em setores onde falta trabalho humano.
“Foi assim que o Google ganhou o prêmio Nobel mapeando proteínas. O Brasil tem mais de 100 milhões de processos na Justiça que o serviço público não consegue resolver”, afirmou.
O empreendedor Daniel Alencar disse que esse foi um dos motes de seu negócio, a Pupilla, startup que usa IA para gerar conteúdo para as marcas dos clientes. “Uma marca média ou grande faz mais de cem peças de comunicação por semana. Como vai ter foto, texto e vídeo para tudo isso?”
A ideia é que a IA gere conteúdo com a unidade visual criada pela empresa. É possível adaptar a ideia de uma peça para diferentes lugares e públicos de diversas idades. Entre os clientes da Pupilla estão nomes como o Banco do Brasil, a marca de roupa Aramis e o gigante dos planos de academia Wellhub.
Alencar diz que hoje é possível acessar o melhor da tecnologia do Brasil. Seu negócio está baseado no serviço de nuvem da Amazon, que oferece diversidade de modelos, americanos e chineses, e incentivo para adoção da tecnologia. “A gente é super incentivado pelas cloud providers; a parte de IA nem pagamos para a AWS.”
“Os custos vêm em termos de armazenamento de dados, imagens e vídeos, e processamento. À medida que tenho mais clientes e tenho um histórico de imagens guardadas, conteúdo guardado, o armazenamento vai crescendo cada vez mais e os custos também”, diz.
Autor: Folha








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