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Peru busca estabilidade em eleição presidencial

Neste domingo (12), o Peru realiza o primeiro turno da sua eleição presidencial e o vencedor da disputa – que, segundo as pesquisas, deve ir para o segundo turno, previsto para 7 de junho – terá uma missão que nenhum antecessor conseguiu desde 2016: cumprir o mandato de cinco anos na íntegra.

Dois candidatos de direita, Keiko Fujimori e Rafael López Aliaga, lideram as pesquisas para irem para o segundo turno.

Fujimori é filha do ex-presidente Alberto Fujimori (1990–2000) e tentará pela quarta vez chegar à presidência, após ser derrotada nas eleições de 2011, 2016 e 2021, sempre no segundo turno. López Aliaga foi prefeito da capital peruana, Lima, entre 2023 e 2025.

Peru teve oito presidentes em dez anos

Apesar de ambos liderarem as pesquisas, os levantamentos mostram que nenhum dos dois têm mais adeptos do que as intenções de voto em branco, o que evidencia o desânimo do eleitorado diante da crise política no Peru, que teve oito presidentes nos últimos dez anos.

Desde que o esquerdista Ollanta Humala terminou seu governo, em julho de 2016, nenhum mandatário peruano conseguiu cumprir os cinco anos de mandato presidencial.

Em 2018, o então presidente Pedro Pablo Kuczynski, que havia vencido a eleição de 2016 para suceder Humala, renunciou devido a denúncias envolvendo a empreiteira brasileira Odebrecht.

Seu sucessor, Martín Vizcarra, que assumiu por ser o vice-presidente, sofreu impeachment em novembro de 2020, também acusado de corrupção. Depois, veio Manuel Merino, presidente do Congresso, que desistiu após apenas cinco dias devido aos protestos da população peruana.

Francisco Sagasti, presidente do Legislativo, ficou no cargo até julho de 2021, quando foi substituído pelo esquerdista Pedro Castillo, vencedor no segundo turno de uma eleição presidencial apertada contra Keiko Fujimori, que classificou a vitória do adversário como “ilegítima”.

Em dezembro de 2022, Castillo foi destituído pelo Parlamento do Peru e preso em seguida após tentar um autogolpe. Dina Boluarte, sua vice, assumiu.

A nova presidente se distanciou da esquerda, que a acusou de reprimir com violência protestos contra a destituição de Castillo, mas também perdeu apoios da direita. Em outubro de 2025, ela sofreu o mesmo destino político do seu antecessor: foi destituída pelo Congresso, que declarou “permanente incapacidade moral” da mandatária diante da crise de segurança no Peru.

Ela deu lugar ao conservador José Jerí, que era presidente do Congresso do país e durou na presidência menos tempo do que Boluarte, ao ser removido em fevereiro pelo Legislativo após acusações de tráfico de influência. Desde então, o esquerdista José María Balcázar preside o Peru.

Quatro ex-presidentes foram condenados em um ano

Essa instabilidade política também é traduzida pelos problemas de ex-presidentes peruanos com a Justiça: recentemente, quatro ex-mandatários foram condenados à prisão em pouco mais de um ano.

Em novembro, Castillo foi condenado a 11 anos, cinco meses e 15 dias de prisão devido à tentativa de autogolpe de dezembro de 2022.

Um dia antes, Vizcarra havia sido condenado a 14 anos de prisão por corrupção. Em setembro de 2025, o ex-mandatário Alejandro Toledo (2001-2006) foi condenado a 13 anos e quatro meses de prisão pelo crime de lavagem de dinheiro no chamado caso Ecoteva, envolvendo a Odebrecht e outra empreiteira brasileira, a Camargo Correa.

Ele já havia sido condenado em outubro de 2024 a 20 anos e seis meses de prisão pelos crimes de conluio agravado e lavagem de dinheiro em um caso também envolvendo a Odebrecht.

Em abril de 2025, o Terceiro Juizado Colegiado da Corte Superior Nacional do Peru condenou Ollanta Humala e sua esposa, Nadine Heredia, a 15 anos de prisão, por lavagem de dinheiro qualificada por financiamento ilegal, por parte do ex-ditador venezuelano Hugo Chávez e da Odebrecht, para campanhas eleitorais de Humala em 2006 e 2011.

Após o anúncio da sentença, Heredia se refugiou e solicitou asilo na Embaixada do Brasil em Lima, pedido que foi aceito pelo governo Lula. Ela chegou a Brasília em um avião da Força Aérea Brasileira (FAB) poucos dias depois de ser condenada.

Especialista destaca fatores para a instabilidade política no Peru

Em entrevista à Gazeta do Povo, Frederico Dias, professor de relações internacionais do Ibmec Brasília, afirmou que, além da corrupção “sistêmica”, com todos os ex-presidentes vivos do Peru neste século sendo investigados, processados ou condenados, há outras duas questões principais que explicam a instabilidade política no país.

A primeira é o desenho constitucional, especialmente a cláusula da “incapacidade moral permanente”.

“Trata-se de um dispositivo vago que permite ao Congresso destituir o presidente com maioria qualificada, sem necessidade de crime claramente tipificado. Especialmente após 2016, essa ferramenta tem sido usada repetidamente como arma política, uma barganha institucional nas disputas entre Executivo e Legislativo. Assim, o mecanismo do impeachment, que deveria ser apenas uma exceção institucional, foi vulgarizado”, afirmou Dias.

O segundo fator é a fragmentação extrema do sistema partidário, já que o Peru não possui partidos fortes e de alcance nacional. “Presidentes costumam se eleger sem base parlamentar sólida e enfrentam congressos hostis ou pulverizados, produzindo paralisia do processo decisório e crises recorrentes que permanentemente ameaçam a derrubada do Executivo”, disse o especialista.

Nesse sentido, Dias destacou que a fatia expressiva do eleitorado manifestando a intenção de votar em branco traduz a desconfiança estrutural no sistema político e é típica de democracias em crise prolongada.

“Isso tende a agravar a instabilidade, pois presidentes eleitos com baixa votação efetiva chegam ao poder com legitimidade frágil, facilitando novas tentativas de destituição pelo Congresso, e reforça o ciclo de crises”, alertou o analista.

Autor: Gazeta do Povo

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