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Entenda por que as mulheres dizem estar no ‘mapa da fome’ – 12/04/2026 – Equilíbrio

Para muitas solteiras, está tão difícil engatar um relacionamento ou mesmo marcar um encontro com um homem que a situação ganhou até meme: “As mulheres hétero estão no mapa da fome”. Essa escassez é sentida pela cirurgiã-dentista Gisely Duete, 32, e todas as amigas dela. “Está todo mundo no mesmo barco. Parece que não há homens para nós”, diz ela, solteira há nove anos.

Por trás da brincadeira há uma “desnutrição profunda de respeito, conexão e equidade”, afirma Mayhumi Kitagawa, fundadora da Sou Pagu. O assunto é frequente nas sessões de terapia da clínica de psicologia especializada em mulheres. O meme, diz Kitagawa, funciona como um humor defensivo, “aquele rir para não chorar”.

A fome vem da falta de parcerias de verdade, diz Joyce Quevedo, psicóloga especializada em terapia do esquema. “O mercado de relacionamentos oferece pouco cuidado e parceiros que se fecham emocionalmente.” Isso leva a uma exaustão coletiva, ou “heteropessimismo”, diz ela.

O déficit de homens disponíveis também é demográfico. Segundo o Censo 2022 do IBGE, há no Brasil 33,2 milhões de mulheres e 25,7 milhões de homens com mais de 20 anos de idade que não vivem em união. Ou seja, são 7,5 milhões de solteiras a mais que solteiros —importante ressaltar que o IBGE não traz recorte por orientação sexual.

Desde que Duete, que vive na capital paulista, terminou um namoro de seis anos, em 2017, nenhum outro foi para frente. “Você fica nessa inconstância: será que o problema sou eu? Será que fiz alguma coisa errada?”, questiona. E não é por falta de persistência, ela diz. “Me disponho a ir até o cara, tratá-lo bem, mas percebo que não é recíproco.”

Já está difícil conseguir um date e nem sempre ele vai bem. Bianca Santos, 33, fisioterapeuta de Porto Alegre, relata que muitos homens só falam sobre si, o que julgam cansativo. Também é comum que eles sumam após o primeiro ou segundo encontro. “Depois que eles levam a gente para a cama, parece que conseguiram o que queriam e mudam na hora”, diz. “Temos muito a oferecer e parece que eles só querem algo momentâneo. Será que eles precisam tanto assim de sexo?”

O sumiço –o famoso “ghosting”— pega mal. “Você começa a gostar da pessoa e a criar expectativa”, diz a cirurgiã-dentista, que vê o comportamento como falta de responsabilidade. Atitudes básicas, como responder mensagens, viraram um diferencial e ganharam o apelido de “migalhas”.

“Mas nem o básico, que é trocar ideia ou marcar um encontro, é feito. Eles são muito devagar para decidir o que querem e esperam a gente tomar a iniciativa”, diz Santos.

A facilidade de interações nas redes sociais e nos aplicativos de relacionamento dá a impressão de uma abundância de pessoas para escolher, observam as especialistas. “Os homens veem nesses apps uma forma de não ter uma relação real, você vive uma máscara. Se ficou difícil me relacionar, vou para a próxima”, diz Kitagawa.

Só mandar “foguinho” ou comentar nos stories não é o suficiente, opina a porto-alegrense: é preciso convidar para programas legais no mundo real. “Conforme a gente vai ficando mais velha, a gente não aceita qualquer coisa e fica mais criteriosa”, completa Duete.

Para Kitagawa, do Sou Pagu, esse pessimismo das mulheres heterossexuais não ocorre porque elas são exigentes demais, tampouco por ódio aos homens. Elas buscam relações mais equânimes, nas quais ambos oferecem o mesmo grau de investimento, completa Joyce Quevedo. “Os homens precisam se esforçar mais e investir nos seus 50% para criar uma relação baseada em respeito mútuo, e não numa hierarquia”, diz a psicóloga.

Estereótipos de papéis de gênero reforçam a ideia de subserviência e de que o cuidar é tarefa da mulher, acrescentam as psicólogas, o que gera sobrecarga emocional.

“Qualquer movimento em direção à maturidade emocional é visto como ameaça de desmoronamento do castelo de cartas da masculinidade tradicional“, avalia Kitagawa.

Para mudar essa dinâmica, os homens teriam que abrir mão de uma cultura que sempre os privilegiou, avalia Quevedo. Enquanto isso, o movimento red pill tenta manter o sistema funcionando, e o fato de as mulheres estarem rompendo com esse modelo ajuda a explicar a explosão de casos de feminicídio, dizem as psicólogas. “Muitos homens confundem melhorar, que nada mais é do que ouvir, ceder e aprender, com submeter-se a uma relação de poder”, diz Kitagawa.

É mais confortável para eles continuar olhando para o roteiro antigo, diz a psicóloga.

“As mulheres já sabem quem querem ser. Os homens não sabem quem são sem esses privilégios. Existe um vácuo entre o que a mulher moderna espera e o que o homem médio oferece.”

Como resposta, algumas mulheres têm optado por ficar sozinhas, buscar o apoio em amigas ou entrar em celibato. “Como sei o que posso fazer por mim mesma, vou querer um cara que faça igual ou mais. Se ele não me trata bem ou não verbaliza o que sente por mim, não quero mais”, diz a porto-alegrense.

Por muito tempo, estar sozinha foi visto como sinal de fracasso, mas o entendimento agora é de que se trata de uma escolha de preservação, afirma Kitagawa. Às vezes, diz a psicóloga, há resistência em iniciar uma relação porque essa busca gera mais trauma do que satisfação.

“Até que lido bem. Diante do cenário, não é de todo mal ficar sozinha”, resume Duete.

Autor: Folha

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