
O discurso do primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, no Fórum Econômico Mundial, em Davos, nesta semana, merece ser levado a sério. Em tempos de rupturas abruptas e de crescente desinibição no uso da força nas relações internacionais, não é trivial que um líder político reconheça a gravidade do momento, reafirme valores e convoque outras democracias – em especial as chamadas “potências médias” – à responsabilidade histórica de reagir a essa ruptura.
Há mérito, sobretudo, no realismo do tom. O mundo de fato mudou, para pior, e ignorar essa mudança seria ingenuidade. O pragmatismo nas relações entre países é necessário. Mas é precisamente nesse ponto que o discurso do canadense incorre em um equívoco relevante. Ao sugerir que a ordem internacional nascida a partir do pós-guerra teria sido uma espécie de grande hipocrisia – equiparável, segundo ele insinua, ao regime comunista – o primeiro-ministro adota um diagnóstico que, além de conceitualmente equivocado, enfraquece a própria causa que pretende defender.
Dizer hoje que a ordem internacional morreu é conceder uma vitória prematura à desordem. Líderes e governos passam, princípios não. A ruptura promovida por figuras como Donald Trump – ainda que grave –, dependendo de como os demais líderes agirem, pode ser acidental e contingente
A ordem internacional liberal jamais foi perfeita. Sempre conviveu com a realidade incômoda de que grandes potências, quando julgavam seus interesses vitais ameaçados, podiam em tese e na prática violar normas, tratados e princípios, aplicando a lógica da força quando lhes convinha. Isso nunca foi segredo. Mas reconhecer essa fragilidade estrutural não equivale a declarar a falsidade moral da ordem, tratando-a como uma grande mentira, uma ficção mantida à custa da hipocrisia das nações. É, antes, aceitar que obviamente a política internacional reflete também a condição humana, com suas fraquezas e contradições, e entender que, justamente por isso, a fidelidade e o zelo incondicional aos princípios da ordem internacional são imprescindíveis.
Princípios verdadeiros não existem para garantir obediência automática, mas para criar constrangimentos morais reais. Durante décadas, mesmo as potências que os violavam sentiam a necessidade de justificar suas ações, disfarçá-las ou revesti-las de alguma aparência de legalidade. Esse impulso não era irrelevante: ele revelava a força normativa da ordem que Carney argumenta estar morta, mas que segue viva e precisa ser defendida e reafirmada a todo custo.
É verdade que hoje surgem líderes que parecem já não se preocupar sequer com esse constrangimento. Trata-se de um sinal preocupante dos tempos – mas não de uma prova da inutilidade dos princípios. Ao contrário: é precisamente essa erosão do pudor moral que torna mais urgente uma reação firme, clara e sem tergiversações. Quando a violação deixa de ser constrangida, a reafirmação dos princípios deixa de poder ser meramente retórica e passa a ser um dever político a cargo dos homens de bem de todo o mundo.
A cooperação entre países que ainda levam a sério o direito internacional, a paz e a previsibilidade institucional não é uma opção moralista, mas uma exigência estratégica. O desenvolvimento extraordinário experimentado pelo Ocidente no pós-Segunda Guerra Mundial não foi fruto apenas de crescimento econômico espontâneo ou de arranjos técnicos. Foi sustentado por uma convicção moral compartilhada: a superioridade dos valores democráticos, do Estado de Direito, da cooperação entre nações livres e da contenção do uso arbitrário da força. Esses valores moldaram instituições, orientaram políticas públicas e criaram um senso de responsabilidade coletiva que deu base social ao desenvolvimento.
É legítimo – e compreensível – que muitos observem hoje o Ocidente com ceticismo, associando a crise moral, o relativismo e a perda de referências à própria democracia liberal e à ordem internacional que dela emergiu. Mas essa leitura inverte a causalidade. O relativismo moral não é fruto da democracia nem da ordem internacional; é uma corrosão cultural anterior e mais profunda, que passou a minar tanto a democracia quanto as instituições internacionais desde dentro.
Dizer hoje que a ordem internacional morreu é conceder uma vitória prematura à desordem. Líderes e governos passam, princípios não. A ruptura promovida por figuras como Donald Trump – ainda que grave –, dependendo de como os demais líderes agirem, pode ser acidental e contingente. O que não pode jamais ser transitória é a convicção de que a força não cria direito, de que a paz exige normas e de que a cooperação internacional é uma expressão de civilização, não de ingenuidade.
Defender essa ordem, daqui para a frente, exigirá mais do que discursos elegantes. Exigirá preparo militar, inteligência estratégica, coordenação política e, sim, disposição para sofrer e suportar custos econômicos e diplomáticos. Sem essa disposição não haverá senão atuações medíocres, acovardadas e cúmplices. Civilidade entre nações nunca foi confortável. Mas é justamente a recusa em capitular diante da força que pode permitir a reconstrução de uma normalidade verdadeiramente pragmática, porque moralmente fundada. A alternativa não é o realismo. É a barbárie com verniz estratégico.
Autor: Gazeta do Povo







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