O pré-candidato à Presidência da República Ronaldo Caiado (PSD) é um antigo desafeto político do presidente Lula (PT). O ex-governador goiano deve voltar a confrontar o petista na disputa pelo Palácio do Planalto, depois de ter sido um dos principais opositores dele no primeiro turno das eleições de 1989.
Há quase 40 anos, Caiado era um jovem médico e produtor rural no estado de Goiás, que ganhou notoriedade pela União Democrática Rural (UDR). O grupo, comandado por ele, foi fundado em 1985 e quatro anos depois o projetou como um dos azarões daquela que seria a primeira eleição presidencial com voto direto após a redemocratização do país.
Enquanto a UDR defendia o direito à propriedade privada e a produção agrícola nos latifúndios, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) — fundado em 1984 — tinha como principal bandeira a reforma agrária e o apoio do Partido dos Trabalhadores (PT), que ganhou projeção política com vitórias nas eleições ao Congresso e a prefeituras na década de 1980. O conflito entre os grupos era inevitável, nas urnas e no campo.
Durante a campanha de 1989, Caiado também defendeu ampliar a escala de trabalho para dez horas por dia, em mais uma proposta em oposição ao sindicalismo petista. “Se amanhã, para sairmos de uma crise, tivermos que trabalhar dez horas por dia, toda a sociedade vai trabalhar dez horas por dia”, disse naquele ano em entrevista à Folha de S. Paulo.
Caiado havia então se candidatado por um partido homônimo à atual sigla de Gilberto Kassab, o PSD, e ficou conhecido por desfilar com um cavalo branco durante a campanha presidencial pelas ruas do estado de Goiás. Em um vídeo gravado para a propaganda eleitoral, ele chegou a rebater as críticas de Lula que o acusava de ter um cavalo mais caro do que a campanha petista.
“É muito mais honroso ser dono de um cavalo comprado honestamente do que ser o homem do jatinho branco pago pela corrupção do PT”, afirmava Caiado no espaço reservado à propaganda eleitoral na televisão. Um dos programas, segundo a Folha de S.Paulo, chegou a contar com a participação de Chico Xavier que teria dito que “um homem montado num cavalo branco dará personalidade ao Brasil”.
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Durante os últimos debates nas semanas que antecederam o primeiro turno, Lula e Caiado trocaram graves acusações, em 1989. O metalúrgico era um dos principais alvos dos concorrentes pela ascensão da chapa petista, que viria a disputar o segundo turno com Fernando Collor de Mello (então no PRN). Apontado então como líder em pesquisas de intenção de voto, o ex-governador alagoano optou por não participar dos debates eleitorais no primeiro turno.
Assim Caiado, representando a direita vinculada ao agronegócio, encontrava em Lula o polo oposto no debate eleitoral. Lula acusou a UDR de ser a responsável pelas mortes de trabalhadores rurais e acusou a organização pela compra de quase 2,5 mil armas para os conflitos no campo. “No nosso governo, a UDR vai ter um paradeiro porque nós vamos investigar essa atuação clandestina, na calada da noite, para matar essas pessoas”, atacou Lula no debate televisionado pelo SBT.
Em resposta a Lula, Caiado comparou a militância petista a guerrilheiros treinados na Líbia e disse que, se os assassinatos fossem comprovados, os autores deveriam ser presos. “Lugar de assassino é na cadeia. Comprovado o crime, ele deve ser penalizado. […] Agora, clandestino não é a UDR, que tem contabilidade para apresentar em qualquer hora”, rebateu o produtor rural.
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Além da disputa agrária, Caiado foi responsável pela denúncia de que a construtora Lubeca teria repassado cerca de US$ 200 mil para a campanha de Lula, por meio do então vice-prefeito de São Paulo, Luiz Eduardo Greenhalgh, que acabou sendo afastado do cargo pela petista Luiza Erundina, prefeita da capital paulista entre 1989 e 1993. Greenhalgh também atuava como advogado do MST.
“Quando eu faço uma acusação, eu pego o depoente e levo à Polícia Federal (PF) para ele fazer as declarações encaminhadas à Justiça. No entanto, vocês me acusam de violência no campo e de agressões. Gostaria que tivessem o mesmo comportamento comigo e que fossem à polícia e levassem as denúncias e as provas”, disse Caiado a Lula.
O petista chamou a denúncia de “jogo eleitoreiro” e acusou o opositor de usar um “capataz” para levar a suspeita até a PF. “O ódio que ele [Caiado] tem é porque normalmente o Greenhalgh é um advogado das vítimas que a UDR mata”, rebateu Lula. O caso foi parar na Justiça Eleitoral, mas foi julgado após o primeiro turno, sendo que não foram encontrados indícios de crime na campanha petista.
Na Justiça comum, o caso foi arquivado no ano de 1998. Quatro anos antes, o Supremo Tribunal Federal (STF) também arquivou o processo contra o então deputado federal Ronaldo Caiado – eleito em 1990 – por calúnia e por fazer acusações sem provas durante a campanha de 1989.
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Na disputa pelo voto do eleitor no ano de 1989, Caiado ficou em 10º lugar entre 22 candidatos, tendo obtido apenas 0,72% dos votos válidos. Quase quatro décadas depois, ele lembrou que contrariou conselhos do pai ao concorrer na primeira eleição presidencial direta após a redemocratização.
“Eu venho de uma família política e ele disse que eu não tinha condições de ser candidato a presidente da República porque não se aprende a governar no cargo mais importante do país. Ele me disse que eu não tinha nenhum fio de cabelo branco”, recordou Caiado durante o lançamento da pré-candidatura neste ano de 2026, no final de março.
Durante aentrevista na sede do PSD, ele foi acompanhado pelo presidente nacional da sigla, Gilberto Kassab, que também participou da eleição presidencial de 1989, como coordenador da campanha do candidato do PL, Guilherme Afif.
Para Caiado, a candidatura no final da década 1980 foi um ato de rebeldia. “Quem foi eleito tinha a minha idade e deu no que deu”, disse em referência a Collor, o presidente mais jovem a tomar posse na história do país, com 40 anos. Após menos de três anos de mandato, Collor sofreu impeachment em decorrência da CPI que investigou o elo do presidente com o empresário e tesoureiro de campanha, PC Farias.
Com discurso mais maduro, o ex-governador goiano quer usar a experiência para se diferenciar dos demais concorrentes da direita para assumir o posto de principal opositor de Lula no próximo mês de outubro. “Não se aprende a governar sentado na cadeira de presidente da República. Precisa acumular experiência, ter vivência de como tratar com o Congresso, com o Supremo e com os outros governadores”, disse Caiado, que foi senador entre os anos de 2015 e 2019.
Autor: Gazeta do Povo








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