A Copa do Mundo de 2026, que será realizada por Estados Unidos, Canadá e México, começará com uma partida no mítico Estádio Azteca, na capital mexicana, entre a seleção local e a da África do Sul, em 11 de junho.
Entretanto, a menos de dois meses do torneio ter início, aumentam as preocupações sobre as condições do México receber o Mundial, 40 anos após tê-lo sediado pela última vez.
Na última segunda-feira (20), uma mulher canadense foi morta e 13 pessoas ficaram feridas em um ataque a tiros no complexo de pirâmides de Teotihuacán.
Antes disso, em fevereiro, o país registrou uma escalada de violência logo depois que forças federais anunciaram a morte de Nemesio Oseguera Cervantes, “El Mencho”, líder e fundador do Cartel Jalisco Nova Geração (CJNG).
Pelo menos 62 pessoas foram mortas, incluindo integrantes de cartéis e soldados da Guarda Nacional, 70 foram presas e foram registrados 85 bloqueios de rodovias em 11 estados mexicanos.
O México receberá 13 partidas do Mundial em três cidades, Cidade do México, Monterrey e Guadalajara.
Apesar dos discursos oficiais de que o país está preparado para sediar a Copa, o secretário de Segurança do México, Omar García Harfuch, disse na terça-feira (21) que haverá reforço no policiamento.
“Seguindo as instruções da presidente [a esquerdista Claudia Sheinbaum], a segurança também será reforçada em sítios arqueológicos, em coordenação com o Ministério da Cultura e outras autoridades, em assuntos relacionados à Copa do Mundo”, afirmou.
Garantia de segurança em xeque
Entretanto, esses anúncios são recebidos com ceticismo dentro do México, cuja população há décadas é assolada pela violência.
Em entrevista à emissora NTN24 após o ataque em Teotihuacán, o analista político e consultor de segurança David Saucedo disse que “o México não está em condições de garantir a segurança completa para a organização da Copa do Mundo”.
Ele afirmou que o atentado no ponto turístico reflete que o país enfrenta uma condição de “violência estrutural e sistemática”. “Não são incidentes isolados; basicamente, toda semana há um evento de grande impacto no México que vira notícia na mídia nacional e internacional”, disse Saucedo.
México também enfrenta atrasos nas obras e ameaças de protestos
Outras questões também colocam em xeque a capacidade do México de organizar o principal torneio de futebol do mundo.
Uma reportagem recente do jornal El Sol de México apontou que uma das obras de infraestrutura mais importantes para a Copa, a passarela que ligará o Estádio Azteca ao Terminal Multimodal de Transferência de Huipulco, teve seu orçamento reajustado de 25,3 milhões de pesos (cerca de R$ 7 milhões) para 60 milhões de pesos (R$ 17 milhões) e sofreu atrasos. Prevista para ser concluída em março, a obra deve ficar pronta apenas no final de maio, às vésperas do início do Mundial.
Outra obra de infraestrutura, a construção do mercado do terminal de Huipulco, teve seu prazo de conclusão adiado de março para maio.
O Estádio Azteca, cuja exclusão da Copa chegou a ser cogitada devido ao atraso na reforma, foi reinaugurado com um jogo amistoso no final de março após ficar fechado 671 dias, mas tem uma tribuna no setor inferior que ainda não foi concluída e ainda está com obras em andamento no lado externo.
Possíveis protestos são outra fonte de preocupação para os organizadores, segundo uma reportagem publicada na segunda-feira passada pelo jornal espanhol Marca.
O diário esportivo apontou que profissionais do sexo que atuavam em volta do Estádio Azteca e foram deslocadas pelas obras para o Mundial prometeram bloquear avenidas e a Linha 2 do metrô da Cidade do México durante a Copa do Mundo caso não sejam autorizadas a voltar ao local.
Já a Coordenação Nacional dos Trabalhadores da Educação (CNTE) ameaçou bloquear avenidas próximas aos estádios e fechar rodovias durante o Mundial caso reivindicações trabalhistas não sejam atendidas.
Especialista diz que incidentes enfraquecem discurso de restaurar segurança
Em entrevista à Gazeta do Povo, Fernanda Brandão, professora e coordenadora do curso de Relações Internacionais da Faculdade Presbiteriana Mackenzie Rio, disse que os episódios recentes de violência aumentam a preocupação quanto à segurança no México e à possibilidade de que atentados possam acontecer durante a Copa do Mundo.
“Além disso, esses acontecimentos enfraquecem o discurso da presidência mexicana, centrado na restauração da segurança dentro do país em um momento crítico, às vésperas de uma das principais competições esportivas globais”, disse a analista.
Brandão afirmou ainda que, para o México, a questão do controle da violência tem impactos não apenas sobre a imagem global do país, mas sobre questões geopolíticas importantes.
“Atualmente, há o esforço dos EUA de consolidar sua influência no continente americano, inclusive ameaçando o uso da força contra cartéis e grupos de crime organizado do tráfico de drogas, ao categorizá-los como grupos terroristas”, destacou a especialista.
“Para os países da América Latina, eventos violentos que mostrem a força desses grupos na perturbação da ordem nacional podem representar um enfraquecimento dos governos e acabar servindo de pretexto para uma possível intervenção dos EUA”, disse Brandão.
Também à Gazeta do Povo, João Alfredo Lopes Nyegray, professor de geopolítica, negócios internacionais e coordenador do Observatório de Negócios Internacionais da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), afirmou que o caso do ataque no complexo de pirâmides de Teotihuacán “muda a geografia do risco” no México.
“A narrativa oficial, e em certa medida verdadeira, era de que a violência estava territorialmente concentrada numa região do cartel, que é a região de Jalisco, onde tem disputa. E esse crime perto da Cidade do México, nas pirâmides, rompe essa lógica, porque esse é um dos lugares mais simbólicos e mais turísticos do país, recebe visitantes internacionais de alta renda”, disse Nyegray, que destacou que o incidente pode impactar o setor turístico do México a longo prazo.
O especialista também afirmou que há fatores que dificultam que o México explore o sportswashing, como é chamada a estratégia de utilizar grandes eventos esportivos para vender uma imagem positiva e esconder problemas do país, como as violações dos direitos humanos no Catar (sede da Copa de 2022) e na China (sede dos Jogos Olímpicos de Inverno de 2022).
“A estratégia do sportswashing ainda funciona, mas com limites claros. O Catar e a China tinham duas coisas que o México não tem: o controle centralizado do território e baixa tolerância ao dissenso interno”, pontuou Nyegray.
“O México, por outro lado, não só é uma democracia – embora seja uma democracia falha –, como tem uma pluralidade institucional. O México convive com atores não estatais armados. Então, o México não tem como blindar completamente a narrativa usando sportswashing”, argumentou.
“Durante o evento, a atenção global é capturada, todas as narrativas, positivas ou não, são amplificadas, só que depois do evento a crítica vai retornar, os problemas de criminalidade vão reaparecer e qualquer ganho reputacional vai se dissipar. É o caso do Catar, que teve um sucesso momentâneo, mas estruturalmente não conseguiu alterar sua imagem”, acrescentou Nyegray.
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Autor: Gazeta do Povo








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